
Querida Clarice, o mar aqui é tão vasto e perfeito que minha vista não sustenta mirá-lo por muito tempo. Aliás, o próprio tempo também me parece vasto e perfeito demais para sustentá-lo. Ele não cabe no relógio, rebelde qual um cavalo selvagem, não se permite aprisionar-se na apertada caixa de cristal e engrenagens atada ao meu pulso. Abandonei-o, inútil o relógio, numa gaveta qualquer. Com o coração aos tropeços, sem relógio, sem sinal de Internet ou celular, muito longe de casa e sem me importar com o que acontece na televisão, rendi-me ao sabor dos ventos, das marés e do lento caminhar do sol, que parece ser o único por aqui capaz de revelar os mistérios do tempo.
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