Mataram a mata

terça-feira, 18 janeiro 2011, 14:25 | Tags: , , | 1 comentário
Postado por Fábio Betti 

Costumamos achar bonita uma imensa área plantada com coqueiros e, até mesmo, com eucaliptos. Não importa se a plantação está margeando a estrada, espalhada nas montanhas ou emoldurando a praia. Tudo parece perfeitamente simétrico, resultando em um conjunto estético bastante agradável aos nossos olhos – ao contrário da mata nativa que existia ali, onde nenhuma planta parece com outra, o grande se juntando ao pequeno, as cores se misturando num quadro deveras humano para que possamos admirá-lo.

Era uma vez uma mata. Uma mata que recobria toda a costa brasileira, margeando as terras banhadas pelo oceano Atlântico, do extremo sul até onde as terras brasileiras perdem contato com o mar.

Era uma vez uma mata atlântica.

No lugar onde havia milhares de espécies vegetais e animais, o homem ergueu construções, formou cidades. No lugar da paisagem diversa, monoculturas como o eucalipto, que tomou conta do litoral do Espírito Santo e da Bahia. No lugar da natureza selvagem, a beleza simétrica dos coqueirais criou novos cartões postais. No entanto, os coqueirais não são dos bichos que, em grande parte, se foram com a mata nativa. Os coqueirais também não são dos homens, pois são poucos, muito poucos os donos dos coqueirais. Como também são poucos os donos da cana de açúcar, que produz um combustível considerado mais limpo que a gasolina, mas que é responsável pela devastação de grandes áreas para ser cultivada em escala sustentável economicamente.

Em Alagoas, margeando a BR 101, só se veem coqueiros e cana. A mata que enriquecia o solo, alimentando-o com seu precioso adubo natural, que fornecia comida e abrigo para os animais, aparece apenas esparsamente, aqui e ali, sufocada pelas terras cultivadas que, estas sim, se perdem de vista. E se vê também muita queimada que, mesmo proibida por lei, é praticada tranquilamente à luz do dia, sob a vista das autoridades que deveriam coibir e punir essa prática.

E assim vai se matando o que resta da mata, até que toda a paisagem seja um cartão postal de perfeição.

Num futuro que não tarda, será tudo igual, tudo no mesmo padrão, a mata morta, assassinada pela estética – estética que é forma, mas também é conteúdo -, a nova ética do homem que, quando mata a mata, destrói a si mesmo na ilusão de que que está fazendo exatamente o contrário, cego para a insanidade da crença de que se pode perpetuar a vida matando a vida.

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