Levei uma fechada de um carro e, por pouco, não nos envolvemos em um acidente. Pensei: motorista filho da puta! Ele deve ter pensado: motociclista filho da puta! Nesse momento, já não éramos mais dois seres humanos imperfeitos – um que costura perigosamente entre os carros e outro que muda de faixa sem olhar no retrovisor. Éramos duas coisas – um carro e uma moto – se enfrentando num mundo que caminha firme na via da desumanização.
A imprensa e, em especial, a televisão, de vez em quando, me joga na cara histórias de pessoas que vivem ou viveram situações-limite. É como se eu realmente recebesse um balde de água fria capaz de me tirar de um estado cataléptico que parece ter se tornado minha segunda pele. No momento seguinte – alívio! -, já estou de volta a um modo de viver que retira a humanidade das pessoas, afastando-me de seus problemas pegajosos.
A pessoa que me fechou no trânsito vira “dona Maria”, um nome próprio empregado como adjetivo que utilizo para desqualificá-la como motorista. Suprimida sua identidade, sinto-me mais à vontade para xingá-la.
A pessoa que me pede esmola na rua vira um “mendigo” ou “favelado”, sem nome próprio e, se possível, também sem rosto.
A pessoa que comete crimes vira “marginal”. A que é assassinada, “vítima”. O político que discursa, “populista”. O que sofre preconceito, “negro”. O doutrinário, “fascista”. O que me entrega a correspondência é “carteiro” ou, se vier por duas rodas, “motoboy”. No Banco tem o “caixa”, o “gerente” e a “assistente”. Na empresa, tem “empregado” e “empregador”. Na escola, “aluno” e “professor”.
Cada qual tem um nome impróprio e, mesmo quando substantivo, é sempre adjetivo genérico, empregado de modo indistinto, industrial, juntando alhos com bugalhos, Marias com Joãos, chineses com brasileiros – juntando, agrupando, classificando, catalogando, como numa grande loja de departamentos. Tem o setor dos ricos e o setor dos pobres; o setor dos que são do bem e o setor dos que são do mal; o setor dos amigos e o dos inimigos; o setor dos anônimos e o setor dos famosos.
Na correria do dia a dia, não temos tempo nem atenção para escapar desse processo, não é verdade? Não, não acho que seja verdade. É óbvio que não temos tempo para conhecer profundamente todas as pessoas que encontramos. No entanto, entre ignorar o outro completamente e conhecê-lo profundamente, há um campo enorme no qual podemos atuar. Chamar as pessoas pelo próprio nome, por exemplo – quanto tempo se “perde” nisso?
Os exemplos citados aqui talvez sejam de uma evidência constrangedora, grosseira mesmo. Eles têm, literalmente, cores, formas, cheiros. Por isso, mesmo que muitas vezes passem despercebidos, bastaria uma parada para reflexão para observar sua presença em nosso dia a dia.
Um outro processo de desumanização bem mais sutil ocorre por meio da idealização. Ele ou ela é uma imagem que construímos. Se ele ou ela se encaixa nesta imagem, muito bem. Se não se encaixa, não é reconhecido por nós. Só aceitamos comportamentos e atitudes que se enquadrem nessa imagem. O que fica de fora entra para o campo do inexistente ou inaceitável. O problema é que, se não aceitamos alguém pelo que é, com sua própria forma de ver e atuar no mundo, não o legitimamos em sua humanidade. Ele ou ela tem nome próprio, mas este nome não representa um ser autônomo e mutante.
Assistindo a um telejornal matutino, me chamou a atenção o desabado de uma procuradora a respeito da falta de condições para fazer seu trabalho de assistência aos presidiários. Fecho este post com a frase que ouvi dela: “se você não os reconhecer como pessoas, como torná-los melhores?” Vai pensando aí…