“No final, tudo acaba dando certo. Se deu errado, é porque ainda não chegou ao fim.”
Que bela frase, não? O interessante é que seu autor não é ninguém do meio intelectual. Nenhum filósofo assume sua autoria. Ela é uma das milhares de frases que circulam pelas estradas deste país. Foi encontrada ali mesmo, na traseira de um caminhão, para quem quiser ler. De graça. Talvez por isso mesmo seja considerada “filosofia barata”. Não conheço nada mais barato que aquilo cujo preço seja nada. E, afinal de contas, filosofia não é privilégio de quem sabe falar ou escrever bonito. Filosofia é sinônimo de razão, sabedoria, coisas que também não têm preço nem estão relacionadas a ter mais ou menos dinheiro, mais ou menos estudo, mais ou menos oratória.
“No final, tudo acaba dando certo.” Isso é que é sabedoria! E, agora, além da traseira de um caminhão, também está escrito aqui neste pedaço de papel que, enquanto escrevo, nem papel é de verdade!
Tudo isso me leva à incômoda pergunta: afinal, por que escrevo? Entre os grandes dilemas de minha vida, este é, certamente, um dos “Top 10”. Tanto é que consegui descobrir que não escrevo para publicar um livro, não escrevo para impressionar a ninguém, não escrevo em busca de fama ou dinheiro, não escrevo para preencher o tempo, enfim, já coleciono um monte de não-respostas.
Mas é uma resposta do tipo afirmativa que eu procuro. E quando sinto que ela está para chegar, é como se de repente as palavras escorregassem por minhas mãos, evaporando-se no ar. Não sobra nada de sólido, como costumam ser as não-respostas, sempre palpáveis e substantivas. Das respostas afirmativas, ficam apenas idéias vagas, pensamentos, reflexões, poesia…
Em uma de minhas últimas meditações, tive a sensação de chegar bem perto da resposta. A idéia que ganhou forma em minha mente define a escrita como “a voz de minha alma cantando livre”. Se é verdade que Deus se manifesta em todas as pessoas de uma forma diferente, em mim parece que ele prefere se manifestar por meio da escrita. Tanto é que, quando não deixo as palavras pularem para o papel, fico com uma espécie de desconforto no peito, um incômodo nó na garganta, como se eu tivesse a consciência de que estou calando esse Deus que pede para se expressar.
Por outro lado, quando me vejo obstinado por escrever, ele simplesmente se cala. E basta abandonar a idéia de escrever para que as palavras comecem de novo a brotar em fila, nem sempre indiana, o que me faz lamentar não saber escrever mais rápido nem possuir uma caligrafia mais inteligível – tantas são as vezes que não reconheço as manchas que produzo no papel. Ainda sonho com a caneta perfeita, dotada de poderes mágicos capazes de deixar a letra mais medonha tão majestosa quanto à da primeira professora.
O fato é que sinto que é Ele que se manifesta, e não eu. É bastante comum olhar um texto depois de pronto e não me reconhecer nele. Tenho ganas de rasgá-lo ou abandoná-lo ao esquecimento, mas a ambição do plagiador grita mais alto e acabo, invariavelmente, seguindo em frente. Só sossego depois que finalizo o texto, e aí me sinto culpado por não ser capaz de criar, sozinho, algo no mesmo nível.
Acho que, por isso, acabei inventando esta tese de que a escrita é meu Deus manifesto, é o diálogo que minha razão não controla. Essa crença me tranquiliza. Como se diz por aí, ela funciona como uma espécie de “luz no fim do túnel”. E, se a filosofia barata estiver mesmo certa, tudo irá acabar dando certo quando eu chegar lá.
A frase “no fim tudo dá certo, se nao deu certo é porque ainda não chegou ao fim” é de Fernando Sabino. Circula tanto que a gente perde a referência. Mas aqui neste link, com texto do próprio Sabino, a gente vê que é uma frase que ele aprendeu com o pai e repetiu a vida toda, incorporando-a por caminhos misteriosos ao nosso imaginário: http://www.releituras.com/fsabino_meupai.asp
Particularmente não gosto da frase… otimista demais pra gente como eu que tem não só os pés cravados no chão, mas uma alma inteira que acredita que as coisas dão certo mas às vezes (muitas!) dão errado também.
Para quem não sabe, a Chris ainda será a editora de meus livros. Mas, enquanto ela própria não se convence disso, aproveitem algumas pílulas de sabedoria que ela deixa por aqui ou se aventurem em uma overdose segundo o perfil @ideiasbizarras no Twitter.