A fuga

domingo, 17 abril 2011, 17:13 | Tags: , , | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

Trabalhar demais. Comer demais. Beber demais. Pular de um relacionamento para o outro o tempo inteiro. Isolar-se do mundo: numa televisão, num livro, num esporte, numa paixão. Afundar no mundo das drogas. Não ter coragem de tocar além da superfície das coisas, das pessoas, de sua própria vida. Desde que nascemos, inventamos “n” maneiras de fugir. Somos craques nisso. Tanto é que, se formos reparar direito, sempre estamos fugindo de algo ou alguém ou os dois. Claro que existem vários tipos de fuga altamente defensáveis. Fugir dos chatos, por exemplo, é uma questão de sobrevivência. Até mesmo a fuga mais inglória de todas merece respeito: ao tentarmos fugir da morte, vamos ficando mais um pouquinho…

Não é das fugas para sobreviver a que me refiro. É das fugas para não viver. É da corrida automática, inercial, instintiva em que nos metemos na ânsia de encontrarmos sossego. Em nome de uma coisa a que chamamos segurança, deixamos os medos para trás, nos escondendo dos bichos-papões que se escondem atrás de portas e embaixo da cama. Observá-los pelo espelho retrovisor dá uma enorme sensação de alívio.

“E aí, como vai?”
“Bem melhor, agora que a tempestade já passou….”
A tempestade passou ou só fomos nós que decidimos não mais olhar para ela? Fechamos os olhos e o bicho-papão deixa de existir, como nas brincadeiras de esconde-esconde de nossa primeira infância. O mundo só existe quando estamos de olhos abertos. Com o tempo, aprendemos a requintar a técnica fugindo cada vez mais para longe. Até que o mundo fique pequeno outra vez. O nosso mundo.

Para qualquer lado que fujamos, nosso mundo vai conosco. Não há como fugir de nós mesmos. É simples, físico e racional. Então, por que, afinal, é o que mais fazemos na vida? Não é racional, mas fugimos. E não há nem como tentar justificar que correr faz parte de nossa natureza. Não nos foi dado equipamento adequado para isso. Nossa aerodinâmica é apropriada para caminhar. Quando caminhamos, deixamos que nossas ideias se movam de um lado para o outro. Quando corremos, o que fazemos é chacoalhá-las.

Ideias não são boas de pegar no tranco. Elas têm o seu tempo, que não é o da corrida. Deixamos as coitadas confusas e nós vamos juntos, nessa corrida rumo a lugar nenhum, rumo a um porto seguro que nunca chega. Corremos na contramão, na ilusão de que estamos fugindo da insegurança quando, na verdade, corremos em direção a ela. O porto seguro não está fora. Está dentro. Com os bichos-papões e as tempestades, ainda somos mais seguros que o mundo lá fora.

Proponho, então, que criemos o clube dos bichos-papões, um lugar onde as pessoas possam se encontrar e soltar um pouco os seus bichos. Seria uma boa forma para descobrir que os nossos não são nem piores nem melhores do que os dos outros. Aposto até que muitos deles vão acabar se apaixonando e indo morar em outro lugar. Mas, mais do que tudo, acredito que, quando os colocamos para fora, eles dificilmente voltam. Na verdade, acabamos descobrindo que éramos nós que o mantínhamos presos. E uma vez que se ganha a liberdade, bicho-papão é que nem gente: abre asas e voa para longe.

Comentário

You must be logged in to post a comment.