Cansei de competir

domingo, 15 maio 2011, 22:35 | Tags: , , , , , , | 7 comentários
Postado por Fábio Betti 

Chega de artilharia pesada, seja arma de fogo, arma branca ou, a pior delas, língua afiada. Pode parar esse tanque de guerra, que eu quero descer. Cansei de dar porrada e ter que pisar sobre os outros com a minha verdade, como único caminho para garantir o meu sustento e o de minha família. Já não duvido mais de que somos parentes próximos do macaco, mas Darwin só podia estar errado quando disse que a lei do mais forte era necessária à evolução das espécies. Não vejo como nos tornarmos seres melhores se prosseguirmos praticando a injustiça e a barbárie.

A corrida maluca dos bilhões de espermatozoides parece nos guiar para muito além do ato de concepção de uma nova vida. Não basta sermos resultado de um único espermatozoide vitorioso. Precisamos continuar competindo com todos os outros que também chegaram em primeiro lugar, num eterno duelo entre matar ou morrer. Só que quem disse que espermatozoides brigam entre si para ver quem chega primeiro não entende nada de biologia. Não se sabe de um único caso onde os espermatozoides se digladiem até morrer. Eles simplesmente saem em disparada, numa disputa consigo mesmos, cada um tentando dar o máximo de si para cumprir sua missão. E se apenas um, um entre bilhões, conseguir penetrar o óvulo, a missão de todos estará cumprida. Tudo o que os espermatozóides fazem é agir de modo natural, assim como a leoa, que não compete com o antílope, mas simplesmente vai ao supermercado e garante a janta da família.

Doa a consciência que doer, competição, tanto quanto o consumismo, são criações humanas. Nosso pequeno ego achou um jeito de sobreviver e todos nós caímos direitinho na armadilha. Tanto é que, não satisfeitos em competir de todas as maneiras possíveis, ainda ensinamos nossos filhos, transmitindo a arte da guerra de geração em geração. Por isso, fica fácil acreditar que sempre foi assim e, portanto, assim sempre será.

Ninguém mais se lembra quando tudo isso começou. A não ser, é claro, os biólogos. Quem pesquisa a fundo a origem do humano sabe que nascemos seres amorosos e que, justamente por causa de nossa capacidade de amarmos uns aos outros, fomos capazes de procriarmos e nos multiplicarmos por todos os cantos do planeta.

Começamos nos amando e vamos terminar nos odiando. Se isso é evolução, quero voltar à condição de ameba. Prefiro sair por aí me grudando em outros seres do que caminhar no sentido contrário, para longe de meu semelhante. Cada vitória que imponho a ele é um passo para trás em meu processo de autoconhecimento, posto que esse outro, oriundo da mesma matriz biológica, é, para todos os efeitos, meu irmão.

Cada um é um pedaço de espelho onde vejo refletida uma parte do que sou. Preciso absolutamente de todos para poder evoluir de verdade, pois tudo o que consigo quando compito é afastar-me de mim mesmo.

7 comentários para “Cansei de competir”

  • Monica disse:

    Parece que as coisas não são tão simples assim! Vc fez a sua própria leitura da “corrida dos espermatozóides” e, na vida, parece que as pessoas vão fazendo tb sua leitura sobre os diferentes fatos. O q é a c ompetição? Não sei! Só sei que ela está presente nos primórdios da existência humana e dos demais seres vivos. Não sei se Darwin estava errado. Duvido! Ele fez uma leitura importante de fatos que nos inquietam. Talvez, no caso dos humanos racionais, a resposta esteja nos paradoxos que nos constituem e estão na raiz da nossa incompletude… Mas se está presente tb nos demais seres… Não sei se teremos essas respostas nesta existência, mas sei que nossos filhos escolheram, sem nenhuma pressão ou indução (será?), esse caminho! Seguimos adiante, aprendendo, observando, experimentando…

  • Fabio Betti disse:

    Monica, cada um sente o que sente. E o que sente é sempre verdade para si. Falei, portanto, do que me faz sentido neste momento. E, definitivamente, a competição, seja defendida por Darwin ou por quem quer que for, não me faz qualquer sentido. Se ela, no entanto, faz sentido para você, sem problemas. Repetindo… cada um sente o que sente. E o que sente é sempre verdade para si.

  • Também já me cansei faz tempo desse bonde da competição… tanto que quase todo dia peço pra descer, mas o mundo não deixa. Acredito sinceramente que e evolução da espécie não passa pelo desenvolvimento de técnicas cada vez mais sofisticadas de competição, humilhação alheia e crueldade. Ouso ampliar tudo o que você falou para todos os seres do planeta. Acho que justamente por termos sido abençoados com essa coisa que chamamos “razão”, que nos faz aprimorar tecnologias em escala exponencial, deveríamos estar evoluindo no sentido da amplificação do amor. E parece que em alguma esquina viramos errado, nos afastando do sentido mais bonito de tudo: usar nossa habilidade como suposta espécie superior para multiplicar atos de amor. Enfim, tropeçamos, caímos e levantamos… e no vácuo da seleção natural, optamos pela cegueira seletiva e pela soberba.
    P.S.: nunca consegui enxergar competição entre os espermatozoides… sempre vi um grupo coeso onde o sucesso de um siginifica vitória de todos. Missão cumprida: vida.

  • Fabio Betti disse:

    Uma pena o blog não dispor de botão de LIKE, pois adorei seu comentário, Monica. Namastê.

  • Dagui disse:

    Foi uma boa definição a dos espermatozóides em busca da vida,com sua permissão vou usar nas aulas de ciências…Quem sabe conseguindo passar assim uma outra concepção sobre competir, até porque competir é muito bom, nós é que mudamos esse conceito com nosso egoísmo humano. Ou estou errada já não sei…

  • Fabio Betti disse:

    Ops, fui falar do comentário da Christina e acabei refirndo-me a Monica. Sintam-se as duas, junto com a Dagui, elogiadas por contribuíram, cada uma a sua maneira, para a ampliação desse tema que tanto me aflige. Obrigado às queridas amigas e leitoras por estarem por perto.

  • Fabio Betti disse:

    Paula, mais uma vez, muito obrigado por nos presentear com seu ponto de vista sobre um assunto polêmico e que de fato merecia um olhar ampliado como o que você trouxe. Abraços

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