Já estou careca de saber que as mulheres são multitarefa. Também fui bombardeado o suficiente de informações para entender que a vida para elas não anda nada fácil. Desde que queimaram os sutiãs em praça pública nos anos 60 para cobrar direitos iguais aos dos homens, elas só acumularam funções, enquanto nós continuamos no bem bom… Eu disse “nós”? Não sei o que se passa com os demais homens, mas posso garantir uma coisa: de um dia para o outro, acordei com a roupa do super homem, só que, no primeiro vôo, já arrebentei minha cara no muro.
Em meus tempos de garoto, na ausência de videogames –sou da época do tele jogo! -, um de meus programas favoritos era passar as tardes assistindo a desenhos animados como os “Os Impossíveis”. E é de um desses antológicos personagens que tirei inspiração para escrever este texto. Trata-se do Multi-homem, um herói que criava múltiplas cópias de si mesmo. Passava imagem do desligado da turma, com o cabelo sempre cobrindo seus olhos e possuía um escudo com a letra “M” no largo e intransponível tórax.
Já há muitos anos convivendo com mulheres fortes – sim, do tipo Mulher Maravilha! – e totalmente simpatizante do movimento de emancipação feminina – desde que, é claro, isso não signifique me colocar para fora de casa -, creio que influenciado pelos super poderes delas, acabei me identificando com meu herói de infância. Sensível, mas com pegada. Bem-sucedido profissionalmente, mas atuante nas questões domésticas. Alguém capaz de usar a força bruta para defender sua família, mas com ouvidos educados para entender as sutilezas que se escondem por detrás das palavras.
O Multi-homem moderno é alguém capaz de reunir opostos com a calma e a tranquilidade de quem cria múltiplas cópias de si mesmo… Êpa! O bordão “você pegou todos, menos o original” era do Multi-homem da ficção. O da vida real sofre como o diabo na cruz quando uma de suas faces – quem faz cópias é a Xerox, né? – de repente desmorona.
A sensação é que estamos reparando o avião em pleno vôo – pior do que isso, ninguém nos ensinou a pilotar! Acidentes de percurso – às vezes, sérios – são inevitáveis. Num momento, damos banho no bebê sem afogá-lo, no outro ignoramos completamente as necessidades e anseios de nossa companheira. Jogamos uma pele de leopardo em cima do lombo do mamute e nos espantamos quando destruímos uma floresta de cristais.
Enquanto ignorarmos de onde viemos, sem nos darmos conta de nossa trajetória biológico-cultural, sem aceitar nossas diferenças e nossas dificuldades de enquadramento nos novos papéis que nos apresentam e sem reconhecer que precisamos urgentemente de ajuda, seremos, no máximo, Multi-homens de araque, simulacros de heróis de mentirinha, facilmente desmascarados até por detectores de verdade de brinquedo.