Ao assistir, atônito, a pancadaria correndo solta durante a Marcha da Maconha, manifestação realizada em São Paulo no dia 21 de maio, me perguntei o que teria acontecido para que a polícia agisse com tanto rigor sobre pessoas que, aparentemente, só exerciam seu direito de expressão. Nas palavras da ex-vereadora Soninha Francine, uma das líderes do movimento, “queríamos apenas defender a mudança da legislação”. Do outro lado, no entanto, o Ministério Público Estadual e o Tribunal de Justiça entenderam que a manifestação seria um pretexto para a apologia às drogas e ao crime e anunciaram a proibição da marcha. Mesmo assim, os manifestantes decidiram realizar o movimento, e resultado todo mundo já sabe ou viu: confronto entre um lado muito bem armado e um outro cuja única arma parecia ser a palavra. Só que tem palavra que machuca tanto quanto um porrete, o que fez com que os dois lados saíssem igualmente perdedores.
A polícia, que é obrigada a cumprir o que determina a justiça, até que tentou um acordo. Ouvi de gente que estava lá e de cujo caráter eu confio, que realmente houve uma tentativa de se negociar uma forma pacífica para a manifestação: os manifestantes deveriam se concentrar exclusivamente no vão do MASP e não poderiam falar nem estampar em bandeiras nada que dissesse respeito à maconha. “Bastaria”, portanto, que ninguém marchasse e que as pessoas que ali estavam não dissessem a que vieram.
Seria mais ou menos como dizer: “você pode fazer o que quiser desde que faça o que eu quero!” Isso é o que se costuma chamar de sinuca de bico. Deixar o outro sem alternativa parece ser um convite quase que irrecusável ao confronto. Não funciona entre polícia e manifestantes, não funciona entre marido e mulher, patrão e empregado, pai e filho, não funciona em nenhum tipo de situação de conflito. E, mesmo assim, quem de nós pode dizer que nunca praticou esse jogo? Aliás, quem de nós pode se vangloriar de não usá-lo de vez em quando, mesmo que disfarçado por argumentos bem planificados, numa estrutura aparentemente sólida erguida, no entanto, para convencer o outro sobre a veracidade de nossa razão sobre a dele?
Como disse Pascal, “o contrário da verdade não é a mentira, mas uma verdade contrária.” Enquanto insistirmos vivendo na ilusão de que todos veem o mundo da mesma forma, viveremos em guerra, posto que, quando não legitimamos a verdade do outro, não legitimamos o próprio outro. E uma pessoa que vê sua existência ameaçada age como qualquer ser vivo: ou foge ou enfrenta.
Você viu a reportagem do Fantástico ontem? Agora a discussão foi lançada para o grande público. Poderio global… E o que eles definitivamente não esperavam aconteceu… na “votação” pelo telefone a maioria se posicionou pela descriminalização da maconha.
A reportagem foi tendenciosa, como era de se esperar. Falavam sobre maconha enquanto exibiam imagens de crackolândias…. e finalizaram com uma fala de um “ex-viciado”… o eterno charlatão Paulo Coelho, falando contra as drogas. E isso passando por um psiquiatra, acho, dizendo que 10% dos jovens que fumam maconha têm surtos psicóticos… como se eles não fosse ter esses surtos mais cedo ou mais tarde, por qualquer outro motivo… Mas de qualquer forma, o que importa é que a questão está sendo discutida. E vai ser, cada vez mais.
Confesso que já fiquei feliz por saber que a Marcha da Liberdade ocorreu uma semana depois e sem qualquer conflito entre os manifestantes e a polícia, fruto de uma negociação entre as partes. Conversando, a gente se entende.
Fossem! 🙂