Sonho que se sonha só

quinta-feira, 30 junho 2011, 20:19 | Tags: , , , , , , , | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

Eu tenho um sonho. Eu tenho um sonho de que um dia os agricultores se recusem a ir para o campo para semear, colher ou armazenar folhas de tabaco. Nesse mesmo dia, os trabalhadores das indústrias que fabricam cigarros vão cruzar os braços. No meu sonho, não haverá ninguém para processar as folhas de tabaco, produzir os cigarros ou embalá-los. Sonho que os motoristas não sairão mais da garagem com seus caminhões para levar os pacotes aos pontos de venda. Nenhuma padaria, nenhum bar, banca de jornal ou ambulante terá cigarros para vender nesse dia.

No meu sonho, a iniciativa privada irá se organizar em questão de minutos para reempregar os trabalhadores que cruzaram os braços, e a produção de alimentos baterá recordes com a ocupação das áreas anteriormente reservadas para o plantio do tabaco. Nesse mesmo dia, os governantes, de uma hora para outra e sem qualquer explicação ou justificativa, simplesmente se darão conta da montanha de dinheiro despendida para tratar doenças ligadas ao hábito de fumar. Os donos das seguradoras de saúde finalmente terão o apoio de políticas públicas, decretadas e aprovadas de forma relâmpago, incentivando o redirecionamento de parte das despesas com enfermidades causadas pelo cigarro em programas de auxílio médico e psicológico aos viciados, porque eles não terão outra alternativa a não ser a abstinência nesse mundo onde não há um único cigarro para se fumar.

Os não-fumantes, ao invés de recriminar e segregar os fumantes, irão oferecer-lhes a mão, o ombro e todo o apoio necessário para enfrentar esse momento difícil – só quem já o viveu sabe verdadeiramente o quão doloroso pode ser abandonar um hábito que acaba tão arraigado à natureza de quem o pratica que a sensação de abandoná-lo é como abandonar-se a si mesmo.

No meu sonho, esse lento suicídio consciente, porém involuntário, irá repentinamente ser interrompido, permitindo a quem vivia escravizado pelo veneno do cigarro poder novamente sentir cheiros, gostos, retomar prazeres esfumaçados e até esquecidos. Poder correr sem falta de ar, com fôlego redobrado, brincar de prender a respiração de baixo d’água ou respirar a plenos pulmões, sentindo o peito leve, a garganta sem qualquer vestígio de pigarro, a pele não mais encardida e as roupas voltando a exalar os aromas agradáveis do perfume preferido ou simplesmente do sabão com a qual foram lavadas.

Eu vivi uma parte desse sonho, por isso acredito tanto nele. Muitos anos atrás, na verdade, 14 anos atrás, eu parei de fumar. Não sei quanto dinheiro gastei, quantos maços ou cigarros consumi, nem por quantas vezes levei roboticamente o cigarro a boca, traguei a fumaça, espalhei-a por meu corpo e devolvi parte dela ao mundo. Vivi durante mais ou menos 13 anos como dependente do cigarro. Até que, aos 31 anos, me vi, pela primeira vez, na condição de pai. E, quando olhei para aquele bebezinho pequenininho, cara de joelho ainda, eu pensei: esse cara que veio ao mundo depende de mim. O que eu fizer comigo, com a minha vida, com o meu corpo, afeta esse sujeito que acabou de chegar.

Meu filho devia ter uns oito meses de idade. Decidimos viajar de férias para casa de parentes no alto da serra da Mantiqueira. A padaria mais próxima ficava a uns 30 quilômetros. Lá fui eu cheio de coragem com apenas um maço de cigarros no bolso para passar 25 dias. Em dois dias, eu já havia fumado o maço todo. Os outros 23, eu ficaria sem fumar. Foi difícil, muito difícil, mas eu estava entre pessoas que me amavam, no meio da natureza, perto de cachoeiras, tratando minha crise de abstinência com caminhadas e trilhas no meio da mata, onde, se dizia, habitavam duendes e outros misteriosos seres da floresta. Nesse lugar mágico, cercado de pessoas maravilhosas e seres encantados, eu consegui realizar meu sonho.

Quando voltei a São Paulo, retomei minhas atividades profissionais, minha rotina diária, mas dela já não mais fazia parte o hábito de fumar. Nunca mais coloquei um cigarro na boca. Claro que, como todo mundo, continuei respirando a fumaça aqui e ali, mas nunca mais ela veio de um cigarro meu. Por ter vivido essa história, sei o quanto é difícil curar-se desse vício e não consigo entender como um ex-fumante pode condenar alguém por fumar. Não se pode condenar um fumante, porque o fumante não é o criminoso, mas a vítima. Criminosa é a rede que começa na usurpação da terra com o plantio de algo que gera a morte ao invés da vida e que, por muitas e muitas vias, empurra o cigarro até a boca dessa pessoa que, aprisionada no vício, não tem mais como se defender. Ela precisa de ajuda, não de crítica. E talvez ela nem queira parar de fumar. A dependência anestesia a consciência. No lugar dela, tem-se medo. Todo viciado tem medo, medo de não conseguir suportar a ausência do objeto de seu vício.

No meu sonho, os viciados em cigarro terão uma chance de reconquistar sua liberdade, na medida em que o ciclo que os aprisiona deixará de existir. No meu sonho, eles finalmente poderão ter uma segunda chance, diferentemente das 10 pessoas que atualmente morrem por hora hoje no Brasil em decorrência de alguma doença relacionada ao fumo, como demonstram dados da OMS (http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=270331). Pessoas como meu sogro, vitimado por um devastador câncer de pulmão.
Apesar de todos os dados e tantas evidências, essa indústria do vício continua com licença para matar, livre para continuar apertando o gatilho na cabeça de milhões e milhões de pessoas. É impressionante! Ninguém se levanta contra ela.

Organizam-se marchas para defender a maconha, o direito à liberdade de expressão, passeatas de professores, greves de bombeiros. A parada gay coloca mais de dois milhões de pessoas na rua, mas onde é que está a marcha contra as Souza Cruz e as Philip Morris da vida, ou melhor, da morte? Nada. Não se fala nisso. Fala-se apenas – e muito – em restrições aos fumantes, justamente os que estão marchando em ritmo acelerado na direção oposta à qualidade de vida e à saúde.

Não sou do tipo que acredita em conspirações, mas vejo uma lógica perversa e coordenada em culpar os fumantes ou usar a bandeira da liberdade de escolha para desviar a atenção do centro da questão, tirando o foco da rede parasitária que se alimenta do vício e da qual, claro, faz parte o próprio governo, sócio majoritário desse crime legalizado, que recolhe R$ 7 bilhões do total de R$ 13 bilhões faturados pela indústria. É dinheiro suficiente para calar a boca de muita gente, não? Mas não a minha, porque há dinheiro no mundo capaz de calar pensamentos ou proibir as pessoas de sonharem. E, no entanto, um sonho que se sonha é só um sonho…

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