O poder da pistola

sexta-feira, 30 setembro 2011, 16:21 | Tags: , , , , , , , | 2 comentários
Postado por Fábio Betti 

Um curso de tiro defensivo me colocou frente a frente com a poderosa .40 (pronuncia-se “ponto quarenta”), a famosa pistola que se tornou padrão nas polícias militares do Rio de Janeiro e de São Paulo e é proibida para civis. Eu, que nunca havia pego numa arma de fogo, pude sentir nas mãos os 800 gramas de aço distribuídos por 182 mm de comprimento – mais de 100 mm só de cano.

Apresentado a ela, fui logo acariciando seu relevo frio e a pele dura. Manuseava a pistola com uma curiosidade juvenil, brincando com as travas e o ferrolho e, por vezes, mirando em qualquer lugar e apertando o gatilho. Em minhas mãos, estava não apenas uma arma, mas um dos mais potentes instrumentos de poder. O prazer da brincadeira durou até o primeiro tiro de verdade. Municiar, armar, carregar! Orienta o instrutor. O alvo de papelão com um corpo desenhado não representa qualquer perigo, mas o projétil – bala é para chupar! – é de verdade e, quando é violentamente expulso para fora, faz um estrondo bastante incômodo, mesmo com o uso dos protetores auriculares. A força da explosão empurra mão, braço, o corpo todo para trás.

Em dois dias, foram mais de 24 horas de treinamento, quase 150 projéteis disparados contra alvos fixos e móveis. O treinamento de tiro defensivo pelo método do coronel Giraldi da Polícia Militar de São Paulo é considerado um dos mais modernos do mundo. Como estou trabalhando para a corporação, em conjunto com o Instituto Sou da Paz, num projeto baseado na cultura de diálogo, fui convidado a fazer o curso, para “sentir na pele” o que é ser policial.

A grosso modo, o método Giraldi ensina a usar a arma de modo mais seguro, combinando-a a “verbalizações” – falar antes de atirar. Mas na hora de atirar, não tem disparo para baixo ou para cima. Para o chão, o projétil pode ricochetear e acertar alguém, para cima… bem, tudo o que sobe, desce. Aprendemos a apertar o gatilho fazendo a visada – mirar é para amadores – na parte de maior massa, o tronco do alvo – melhor dizer alvo do que pessoa, né? O padrão são dois disparos seguidos – o primeiro faz um buraco, o segundo derruba. Fomos colocados em situações de altíssima pressão. Na mais difícil delas, estamos num cenário, cercado por bandidos e mocinhos que surgem a nossa frente como as surpresas de um trem fantasma. Bombas explodem a alguns centímetros de nossos pés. O som intermitente da sirene elimina qualquer vestígio que ainda reste de racionalidade. Na minha vez, fuzilei um punk que irrompeu de repente na minha frente depois de eu ter trocado tiros com vários bandidos. Antes do término do exercício, despachei um homem que me apontava … um celular! O policial de verdade, que ficava no meu cangote o tempo todo, aproveitava para me pilhar ainda mais: “Atira, atira, atira! Não, na criança, não! Assassino, assassino!” O próximo da fila descarregou a arma num refém, depois de dar de cara com o bandido que o enlaçava pelo pescoço e que apontava a pistola em sua direção. Foram 5 tiros sem perdão.

A experiência foi traumática. Nunca mais pego numa arma de fogo. Pistolas, nem as de espoleta de minha infância. Afora o momento de curiosidade inicial, o único refresco foi a participação da turma do Pânico, com direito à paniquete em trajes sumários. Entre um tiro e outro, tirei várias fotos da colega, compartilhadas imediatamente com meu filho adolescente. Quando voltei para casa, moído fisicamente e emocionalmente destruído, vi-me numa situação ainda pior. Minha mulher pegou o celular do meu filho e descobriu as 21 imagens que registrei dos dotes da moça. “E aí, se divertiu bastante, né?” Explicar para quê? Dei um sorrisinho que, na verdade, queria dizer “você não faz ideia do duro que eu dei!” e segui direto para minha cama, deixando-a, quem sabe, com a imagem de uma fantasia tipicamente masculina: mulheres seminuas segurando poderosas pistolas de cano longo.

2 comentários para “O poder da pistola”

  • Clarissa disse:

    Nossa. Que forte tudo isso! Morte, força, pressão, poder, mulheres seminuas, idéias erradas . Uau. Quanta informação. Acho que senti aqui um pouco da dureza dessa situação toda. Ops, esqueci que tb teve momento diversão visual masculina para alívio de tensão. Que experiência, heim. Bj

  • Fabio Betti disse:

    Experiência inesquecivel, pode estar certa, Clarissa!

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