O amor é cego?

quarta-feira, 14 novembro 2007, 05:31 | | 2 comentários
Postado por Fábio Betti 

Em busca de inspiração para escrever sobre este tema, pedi ajuda a alguns amigos.

Luis Fernando, engenheiro e empresário, disse que outro dia sua esposa falou que o amava e ele – para surpresa dela, suponho – teria respondido: “amor, que trem é esse?”

A psicóloga Clarrisa, colega de velhos tempos de PUC, foi bem mais fundo. Olha só: “Em nossas relações amorosas, via de regra, procuramos algum traço – ou o sentimos instintivamente-  no outro que nos remete a um vínculo vivido anteriormente ou a uma referência que temos de ‘parceiro ideal’ em nosso inconsciente. Não me estenderei no que tange a busca da mulher por uma similaridade do pai. Nem no homem a busca pela similaridade da mãe. Essa similaridade, quando a encontramos, geralmente não é visível ou compreensível aos nossos olhos ou sensações, pois trata-se de algo extremamente subjetivo e absolutamente individual. Mas a questão é que, em razão dessa ‘procura’, muitas vezes quando encontramos – sentimos – essa ‘similaridade subjetiva’, acabamos por nos encantar pelo  ideal do ‘par perfeito’, por uma fantasia que criamos involuntária e inconscientemente. Esse sentimento não é controlado ou racional. Mas, na verdade, a cegueira do amor reside em nossa fantasia. Acabamos muitas vezes por não ver o outro como é , e sim como fazemos com que seja.”

Caraca! Só de pensar que há uma chance de eu ter procurado minha mãe em outras mulheres, já fico apavorado. Nesse caso, acho melhor ser cego mesmo!

O jornalista Antonio Carlos, sujeito matuto, acostumado a contar causos curiosos, recorreu a alguns exemplos, digamos, exóticos…

“Darlene Glória, atriz do passado, que depois converteu-se a uma religião cujo nome não lembro, inclusive mudando de nome e tomando o cuidado para apagar digitais deixadas nos filmes em que participou, bandeou-se para um traficante e com ele foi feliz por muitos anos.

Simoni, sim, a própria, aquela menina doce do Turma do Balão Mágico, quando já mulher, alinhou-se a um rapper que estava cumprindo pena e com ele é feliz, segundo leio por aí.

O barão Von Dust, alemão de ótima cepa e historiografia milenar impecável, veio ao Brasil fugindo do ócio germânico e do inverno sem sal, para aqui descobrir, na quadra da Portela, um rebolado que mudaria para sempre o seu jeito de ver o mundo. Casou-se com uma morena tração nas 4 e a levou para morar com ele num castelo nos arredores de Dusseldorf.

Dona Maria das Dores, natural de Crato, Ceará, beata de padre Cícero Romão Batista, e a quem entrevistei para minha tese na ECA (sobre o impacto dos meios de comunicação), disse-me que jamais voltou a ter um homem depois que enviuvou, isso 20 anos atrás, tal a presença marcante de seu Raimundo, o falecido, em sua vida.”

E agora, será que dá para chegar a alguma conclusão? Seria o amor, de fato, cego?

Mas antes de responder, eu pergunto: sabe o que há de comum nos três relatos? O lado absolutamente incomum do amor.

O amor não é cego não! Cegas são as pessoas que olham para o amor do outro e não vêem nada, porque só o outro enxerga o amor que está sentindo. É só ele que sabe o que é esse amor, o quanto esse amor é importante para ele, o quanto ele o preza e, muitas vezes, depende dele para viver. Porque é preciso viver o amor dentro de si para poder vê-lo, nessa experiência única, individual e, portanto, intransferível e incompreensível ao outro – incompreensível até ao outro que é o objeto amado, posto que ele não é sujeito desse amor. Ele só é sujeito do próprio amor, o único, de verdade, que ele consegue sentir e, portanto, ver.

Por esse motivo, escolhi a tela “The Lovers”, de 1928, do pintor surrealista belga René Magrite, para ilustrar este artigo. Magrite também era metido a filósofo e sabia muito bem que os amantes só vêem o próprio amor…

2 comentários para “O amor é cego?”

  • Clarissa disse:

    Fábio, acho que no fechamento em seu penúltimo parágrafo sobe a cegueira voce é que foi fundo. “Porque é preciso viver o amor dentro de si para poder vê-lo, nessa experiência única, individual e, portanto, intransferível e incompreensível ao outro – incompreensível até ao outro que é o objeto amado, posto que ele não é sujeito desse amor.” Nossa! Muito bom mesmo, adorei. Obrigada.:-)

  • Clarissa disse:

    Fábio, acho que no fechamento em seu penúltimo parágrafo sobe a cegueira voce é que foi fundo. “Porque é preciso viver o amor dentro de si para poder vê-lo, nessa experiência única, individual e, portanto, intransferível e incompreensível ao outro – incompreensível até ao outro que é o objeto amado, posto que ele não é sujeito desse amor.” Nossa! Muito bom mesmo, adorei. Obrigada.:-)

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