Parece que tem alguma coisa faltando

domingo, 18 novembro 2007, 14:23 | | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

Pois saiba que, dificilmente, haverá um relacionamento onde, em algum momento, você ou o outro não seja acometido pela síndrome Parece-que-tem-alguma-coisa-faltando. A explicação, como tudo que diz respeito às relações, é, ao mesmo tempo, simples e complexa.

O filme “Inimigo meu” simplifica um pouco essa questão. A história é sobre um piloto militar interpretado por Denis Quaid, que cai em um planeta inóspito e se vê obrigado a conviver com o inimigo que combatia no espaço, um extraterrestre com jeitão de lagarto. Além de falarem línguas diferentes, o que chama a atenção no bicho é que ele é uma espécie hermafrodita, que não precisa de um parceiro para procriar. Em certo momento da história, o ET fala justamente sobre esta qualidade que o tornaria uma raça superior à humana, uma vez que esta precisa de dois seres para efetivar seu processo de criação. Na época em que o filme foi produzido, em 1985, a reprodução genética ainda era uma idéia quase que exclusiva da ficção científica, e o máximo que a humanidade havia avançado nessa questão era a reprodução in vitro, o que continuava – e continua! – implicando na necessidade de combinar elementos – óvulo e espermatozóide – de dois seres. O complicado é que, mesmo que o alienígena não precise de mais ninguém para procriar, ele dependerá do humano – e vice-versa – para conseguir sobreviver nesse planeta permanentemente atacado por meteoritos. Em outras palavras, até mesmo um ser que parece completo também pode precisar da ajuda de outro ser para viver.

Mais do que uma aventura de ficção científica, o filme fala sobre a necessidade que temos de uma parceria com outro ser. Metaforicamente, ele é sobre essa síndrome de co-dependência, que, raramente, encaramos com a tranqüilidade que deveríamos. Como o piloto militar, não queremos depender do outro. Pelo contrário, preferimos viver a ilusão da auto-suficiência, uma sensação de poder que costuma ser muito mais interessante, pois nos dá a sensação de que somos absolutamente independentes.

No entanto, quando a máscara cai e, repentinamente, nos descobrimos na dependência do outro, cobramos dele tudo o que nos falta, como uma espécie de vingança. “Se é para depender de você, que você me dê tudo o que preciso!”

O problema é que não há um outro ser neste planeta e, quiçá, em qualquer outro, que seja capaz de nos suprir em todas as nossas necessidades. Isso porque grande parte delas é fruto de nosso lado infantil, que exige do outro entrega total e amor incondicional, enfim, só se satisfaz se o outro realizar nossa utopia de relacionamento.

E para complicar ainda mais as coisas, se você for abençoado por um daqueles raros encontros de alma, ainda assim poderá sentir que está faltando alguma coisa na relação. Porque mesmo que o outro seja capaz de dar quase tudo o que você precisa, é possível que você não seja capaz de reconhecer este presente, caso, de alguma forma, você já não o traga dentro de você. Pois é, o primeiro passo para se sentir completo numa relação é se sentir completo consigo mesmo.

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