Sabe, Clarice, paro para pensar um pouco em minhas prioridades e percebo que já não tenho feito minha oração com a mesma disciplina dos primeiros dias. Este diário nem sempre é diário… O que acontece para que eu me afaste de práticas que, em princípio, estabeleço para que eu possa ter uma vida melhor?
Sinto que tudo o que me parece “tarefa” cria uma resistência tamanha que o fazer se desconecta do prazer e vira obrigação. Quando olho para minha vida, algumas obrigações me foram insuportáveis. E, mesmo assim, sustentei-as até o limite, não, até mais do que o limite do insuportável. Não quero fazer aqui mais um relato desses momentos de tristeza – não que eu me incomode, apenas não pretendo fortalecê-los dedicando-lhes meu tempo e minha atenção. O fato é que tudo o que entra na minha vida com cara de obrigação se transforma rapidamente num estorvo que eu tenho que expurgar. Talvez resida aí minha ojeriza a qualquer sistema que pareça uma igreja. Igrejas têm regras que devem ser seguidas disciplinadamente por seus seguidores. Igrejas têm obrigações. O problema é que igrejas me atraem, assim como obrigações.
Observo que preciso de obrigações para viver. Obrigações são como missões que eu aceito com a sensação de que estou realizando algo importante. Quando me percebo na armadilha, sinto-me traído, só que olho a minha volta e só a mim que vejo. É a mim mesmo que traio quando me atiro desesperadamente nas obrigações que aparecem pelo caminho. Então, de repente, abro mão. De uma hora para outra, aquilo que parecia a um observador externo alguém fluindo no bem-estar da realização de determinada tarefa simplesmente desaparece. Desaparece o sujeito abnegado, comprometido, “buscador” e, em seu lugar, surge o rebelde, o preguiçoso, aquele que desiste dos próprios sonhos… Mas quando eu mesmo me observo, não vejo nada disso. O rebelde é apenas a consciência que desperta e me revela a ilusão. O preguiçoso é meu corpo me pedindo descanso. E não há ninguém desistindo de seus sonhos quando abdico de alguma tarefa. Pelo contrário, é justamente porque persigo o tempo todo meus sonhos que, por vezes, abandono barcos que não são meus, em trajetos que não tracei, em direção a destinos que não fazem sentido para mim.
Quando me entrego ao fazer, busco sentido na razão, confiando na capacidade lógica de minha mente, mas como qualquer sentido só pode ser encontrado no órgão do sentir, o coração, acabo me entregando não à consciência, mas a inconsciência, acreditando, no entanto, ser uma entrega racional, lógica. Como algo pode ser lógico se o sentido é desconectado do sentir? Como faço para me conectar ao sentir em busca de sentido antes de me entregar frenética e inconscientemente ao fazer? Pasmo, Clarice, mas a resposta está aqui, neste momento de retrospectiva, onde paro, respiro, penso e sinto. Encontro igualmente uma saída desse labirinto em minha oração, onde me fortaleço pelo reforço das qualidades que necessito relembrar o tempo todo para aceitar o impulso de meus pés na construção de meu próprio caminho.
Carinhosamente,
Fábio Betti – São Paulo, 13 de junho de 2012