Vê-se que, até mesmo no reino encantado dos contos de fadas, não há qualquer referência mais concreta sobre o que seria, de fato, um encontro de almas. A única coisa que se sabe é que há, normalmente, uma longa e sofrida espera até que ele ocorra. E então… nada! Só o clássico "e foram felizes para sempre".
Como eles foram felizes? Tiveram filhos? Como construiram uma história de intimidade após o beijo cinematográfico? Tiveram brigas? Enfrentaram crises? Enfim, não temos nenhuma pista do que eles fizeram para serem felizes para sempre.
Na vida real, curiosamente, não é lá muito diferente. Não encontramos muitas referências de histórias de felicidade eterna. Embora elas recheiem a literatura, especialmente, a de fácil digestão, quando partimos para pessoas de verdade, a história é outra. Não que não existam histórias de encontros de almas. É que, normalmente, quem conta um conto aumenta um ponto. O que quero dizer é que trabalho com marketing há muitos anos e, honestamente, não costumo acreditar em tudo o que ouço. O exemplo abaixo – uma história real – ilustra melhor minha linha de raciocínio.
Havia um casal amigo nosso, que realmente parecia ter saído de um conto de fadas. Os dois lindos e inteligentes, com duas filhas igualmente lindas e inteligentes. Sempre sorridentes, pacientes e muito trabalhadores, conquistavam tudo o que queriam, até que construíram uma belíssima casa em um condomínio fechado. Coisa de cinema. No final do ano, fomos lá com mais um casal de amigos comuns celebrar nosso Natal. O clima era de completa harmonia. Duas semanas depois, recebo um e-mail dele contando que haviam se separado. Apaixonou-se perdidamente por outra mulher. Curioso, mas quando queremos dizer que alguém se apaixonou de verdade, dizemos "apaixonou-se perdidamente". O fato é que para quem não o conhecia, podia-se pensar que ele estava mesmo perdido, deixando para trás uma relação de mais de 15 anos e se aventurando em uma nova relação. Casou-se de novo e já tem um filho. Tudo isso aconteceu num período de menos de 2 anos. Teria sido um encontro de almas? Quer dizer então que o encontro anterior, com a primeira esposa, não foi? Esse questionamento me leva a refletir que talvez estejamos sujeitos a mais de um encontro de almas ao longo da vida.
Mas…como saber se aquela alma é um desses encontros? Esse é um questionamento que sempre fiz, mas nunca obtive uma resposta satisfatória. Sempre encontramos algum "defeito" no outro e, bem, encontros de alma são perfeitos, não são? É assim nos contos de fadas, deveria ocorrer o mesmo na vida real. Sob essa ótica, posso garantir que nunca tive uma experiência que pudesse ser considerada um encontro de almas. Nunca encontrei ninguém sem "defeitos".
Mas se você me perguntar se já me apaixonei perdidamente, como meu amigo, eu diria que sim e foram muitas e muitas vezes. Outro amigo meu, que inclusive já dividiu um quarto comigo quando, aos 19 anos, saí de casa para morar em uma república, sempre se refere a mim como aquele sujeito que se apaixonava por todas as mulheres com as quais se relacionava. Pura verdade.
O Dalai Lama explica no livro "O sentido da vida" que, segundo a crença budista, os esqueletos que uma pessoa já "usou" em suas diversas vidas, se pudessem ser colocados uns sobre os outros, fariam um monte da altura do Everest. Ele fala que há uma grande chance de uma pessoa já ter encarnado em tudo quanto é época e lugar. Em outras palavras, os budistas – e eu também! – acreditam que os encontros de almas são mais comuns do que se imagina.
Nesse momento, por exemplo, você pode estar vivendo um desses encontros. Se continuar sonhando com a chegada da princesa ou do príncipe encantado, vai acabar perdendo a chance de aproveitar agora mesmo esse encontro. Mas se perder, tudo bem, você não precisa ficar se lamentando, porque um outro encontro estará esperando por você logo ali.