Tem gente que reza para Sartre todos os dias antes de dormir. Durante uma viagem de férias pelo sul da Bahia, conheci um sujeito interessante. Nascido carioca e crescido em Brasília, ele estava vivendo uma espécie de lua de mel em seu segundo casamento e me contou sobre os amigos de sua geração – um pessoal de cinqüenta a sessenta anos. Um deles, boa pinta e bem de vida, seria um namorador convicto, só que admite que quer morrer só. Basta dar um ano de namoro, para ele desfazer o relacionamento, tamanho é o medo – ou seria o trauma? – da vida a dois.
Viver com outra pessoa é realmente uma arte que nem todos conseguem aprender. Ou desfrutar. Porque, se encarada como uma lição, vira um tormento daqueles. É mais ou menos como o artista: ele cria porque criar é o natural a ser feito. Um artista segue a sua natureza e, a partir deste movimento quase impulsivo, aprimora sua técnica. Viver a dois é a mesma coisa. Seguimos nossa vocação animal para nos juntarmos com o outro e aí, para que essa união seja possível, vamos aprendendo os segredos da convivência. Aprendemos porque precisamos e queremos.
O primeiro segredo é que nenhuma relação sobrevive apenas na base de agradar ao outro. O limite da concessão é estabelecido pelo que pode ser uma violência aos nossos próprios limites. E os nossos limites podem ser estabelecidos a partir do ego ou de nossos valores.
Quando é o ego que manda no jogo, o limite é dado pela vontade. Eu quero ou não quero isso. Eu gosto ou não gosto daquilo.
Quando o limite é mais profundo, ou seja, é estabelecido por um valor, aí não se trata mais apenas de abrir mão do ego. Não se abre mão de valores, quaisquer que eles possam ser – sejam considerados bons ou ruins. Porque eles são o miolo da cebola. Construímos o que somos a partir de nossos valores. Se precisarmos passar em cima deles para que o outro seja feliz, o preço será nossa infelicidade, e aí você será mais um a cultuar o Santo Sartre.
O segundo segredo é que o diálogo aberto e sincero pode acabar com o seu relacionamento, mas esta é a única forma de fazer com que ele sobreviva ao tempo. Esse mesmo sujeito que conheci em minhas férias disse que seu primeiro casamento acabou porque a esposa dele se recusava a conversar. Contou que essa situação chegou, certa vez, a dois meses de silêncio! Quando não falamos o que está se passando conosco, damos ao outro a oportunidade de imaginar o que quiser sobre nós. “Ele não me ama mais!” “Ele tem outra mulher!” E você pode estar “só” muito puto porque ela chamou sua atenção por uma besteira qualquer na frente de seus amigos. Mas, como você sabe – ou pensa saber – que dizer que ficou puto pode fazer com que ela questione uma série de coisas, você prefere ficar em silêncio. É menos encheção de saco para o seu lado, você pensa.
O terceiro segredo é justamente esse: não existe relacionamento sem encheção de saco. O outro quer que você seja tão legal e maravilhoso quanto ele é – ou pensa ser -, e você deseja – às vezes, exige – a mesma coisa dele. Só que se você for tão parecido quanto ele a ponto de também espelhar os seus defeitos, deu merda de novo! Por isso, vai haver aporrinhação tanto pelo fato de você ser diferente quanto por ser “igual”. Qual é a saída? Relaxe e goze. Isso mesmo: ria, nem que seja internamente, da encheção de saco. Assim, você não afeta seu humor por algo contra o qual você não tem como lutar e, quem sabe, também pare de encher o saco do outro. Pode ser um bom começo para ele fazer o mesmo com você.
E que Sartre vá à merda com sua teoria que, no fundo, apenas disfarça a tentativa de transferir ao outro a responsabilidade por nossas cagadas. Pois é, parece que o que Sartre não queria encarar de jeito nenhum é que o inferno era ele mesmo. E, ao fazer isso, o pior é que ele acaba por comprovar sua teoria, porque quando a gente não assume a responsabilidade por nossos atos, sempre buscando um culpado externo, nos transformamos sim no inferno do outro.