Eu e o outro

sábado, 05 janeiro 2008, 19:32 | | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

Tem gente que reza para Sartre todos os dias antes de dormir. Durante uma viagem de férias pelo sul da Bahia, conheci um sujeito interessante. Nascido carioca e crescido em Brasília, ele estava vivendo uma espécie de lua de mel em seu segundo casamento e me contou sobre os amigos de sua geração – um pessoal de cinqüenta a sessenta anos. Um deles, boa pinta e bem de vida, seria um namorador convicto, só que admite que quer morrer só. Basta dar um ano de namoro, para ele desfazer o relacionamento, tamanho é o medo – ou seria o trauma? – da vida a dois.

Viver com outra pessoa é realmente uma arte que nem todos conseguem aprender. Ou desfrutar. Porque, se encarada como uma lição, vira um tormento daqueles. É mais ou menos como o artista: ele cria porque criar é o natural a ser feito.  Um artista segue a sua natureza e, a partir deste movimento quase impulsivo, aprimora sua técnica. Viver a dois é a mesma coisa. Seguimos nossa vocação animal para nos juntarmos com o outro e aí, para que essa união seja possível, vamos aprendendo os segredos da convivência. Aprendemos porque precisamos e queremos.

O primeiro segredo é que nenhuma relação sobrevive apenas na base de agradar ao outro. O limite da concessão é estabelecido pelo que pode ser uma violência aos nossos próprios limites. E os nossos limites podem ser estabelecidos a partir do ego ou de nossos valores.

Quando é o ego que manda no jogo, o limite é dado pela vontade. Eu quero ou não quero isso. Eu gosto ou não gosto daquilo.

Quando o limite é mais profundo, ou seja, é estabelecido por um valor, aí não se trata mais apenas de abrir mão do ego. Não se abre mão de valores, quaisquer que eles possam ser – sejam considerados bons ou ruins. Porque eles são o miolo da cebola. Construímos o que somos a partir de nossos valores. Se precisarmos passar em cima deles para que o outro seja feliz, o preço será nossa infelicidade, e aí você será mais um a cultuar o Santo Sartre.

O segundo segredo é que o diálogo aberto e sincero pode acabar com o seu relacionamento, mas esta é a única forma de fazer com que ele sobreviva ao tempo. Esse mesmo sujeito que conheci em minhas férias disse que seu primeiro casamento acabou porque a esposa dele se recusava a conversar. Contou que essa situação chegou, certa vez, a dois meses de silêncio! Quando não falamos o que está se passando conosco, damos ao outro a oportunidade de imaginar o que quiser sobre nós. “Ele não me ama mais!” “Ele tem outra mulher!” E você pode estar “só” muito puto porque ela chamou sua atenção por uma besteira qualquer na frente de seus amigos. Mas, como você sabe – ou pensa saber – que dizer que ficou puto pode fazer com que ela questione uma série de coisas, você prefere ficar em silêncio. É menos encheção de saco para o seu lado, você pensa.

O terceiro segredo é justamente esse: não existe relacionamento sem encheção de saco. O outro quer que você seja tão legal e maravilhoso quanto ele é –  ou pensa ser -, e você deseja – às vezes, exige – a mesma coisa dele. Só que se você for tão parecido quanto ele a ponto de também espelhar os seus defeitos, deu merda de novo! Por isso, vai haver aporrinhação tanto pelo fato de você ser diferente quanto por ser “igual”. Qual é a saída? Relaxe e goze. Isso mesmo: ria, nem que seja internamente, da encheção de saco. Assim, você não afeta seu humor por algo contra o qual você não tem como lutar e, quem sabe, também pare de encher o saco do outro.  Pode ser um bom começo para ele fazer o mesmo com você.

E que Sartre vá à merda com sua teoria que, no fundo, apenas disfarça a tentativa de transferir ao outro a responsabilidade por nossas cagadas. Pois é, parece que o que Sartre não queria encarar de jeito nenhum é que o inferno era ele mesmo. E, ao fazer isso, o pior é que ele acaba por comprovar sua teoria, porque quando a gente não assume a responsabilidade por nossos atos, sempre buscando um culpado externo, nos transformamos sim no inferno do outro.

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