Culpa

terça-feira, 08 janeiro 2008, 20:42 | | 1 comentário
Postado por Fábio Betti 

Os processos de culpabilização normalmente têm origem em nossa dificuldade de aceitar a imperfeição humana.  Nos culpamos ou culpamos os outros porque não convivemos bem com o erro – com o nosso e com o do outro. No entanto, no atual estágio de desenvolvimento da humanidade, antes de ser um problema, a culpa é uma espécie de mal necessário.

A culpa ajuda o assassino a se converter em crente.

É a culpa que anos auxilia e refrear nossos impulsos egóicos.

A culpa faz com que reconheçamos a bondade e a pureza no outro e a sombra em nós mesmos.

Ela nos recoloca no caminho do bem comum, nos estimula a reflexões profundas, controla nossos hormônios, atiça nossa humildade.

A culpa nos faz pensar nas besteiras que cometemos, criando marcas que, no futuro, nos ajudarão a não repetir os mesmos erros.

É verdade que, muitas vezes, usamos a culpa como arma contra o outro, colocando-nos em posição de superioridade ou, pior do que isso, assumindo a culpa em sua forma de martírio público, para que o outro se sinta cruel, o opressor impiedoso condenado a ser eternamente massacrado por sua própria consciência. Esse tipo de culpabilização sutil é a principal tática  da vítima contra um inimigo que parece, e apenas parece, mais poderoso que ela.

Mesmo com esse perigoso e complicado “efeito colateral”, rezo todos os dias para que continuemos nos culpando por todo o mal que carregamos e, muitas vezes, empregamos tão sabiamente contra o outro. Rezo para que a culpa só cesse no dia em que aprendermos que somos todos um e que, portanto, se houve um Hitler, é porque também temos um pouco de Hitler dentro de nós; se há um “maníaco do parque” que cometeu crimes bárbaros contra inúmeras mulheres, é porque há um “maníaco do parque” em cada um de nós à espera de uma oportunidade para se manifestar. Você acha que é muito diferente daqueles jovens norte-americanos que, de uma para outra, saem por aí metralhando os colegas e professores? Poderia ser você… ou o seu filho!

Dr. Dimas Calegari, um experiente psicólogo e psiquiatra paulistano, uma vez me convidou a imaginar um cemitério povoado apenas pelos criminosos mais terríveis que eu pudesse lembrar. Depois de pensar em toda sorte de monstros – de Dr.Jekill e Jack o Estripador aos vilões modernos da Jihad -, fui convidado a me deitar com eles e a dizer: “sou um de vocês.”Confesso que nunca fui capaz de concluir esse exercício, o que me faz crer que a mim, pelo menos, falta, além de generosidade e compaixão, humildade suficiente para sair pelo mundo livre e solto, ou seja, sem a mala carregada de culpa.

Como a palmatória foi a saída que, no passado, os professores encontraram para “domar” seus pupilos, a culpa ainda é nossa principal arma contra essa sede de sangue que, de uma maneira ou de outra, nos contamina a todos.

Em algum momento do futuro, iremos olhar para ela com a mesma indignação que atualmente olhamos para a palmatória. Só que, aos olhos de hoje, a culpa nos ajuda a domar o nosso ódio por nós mesmos e por todos os outros que, querendo ou não, nos mostram quão pequenos e, portanto, distantes somos de nossa imagem auto-idealizada. A culpa funciona como o espelho mágico que nos assombra com verdades que preferiríamos não ver. Até que possamos quebrar o espelho, a culpa nos mostra a importância de quebrar a cara de vez em quando.

Um comentário para “Culpa”

  • Paulo disse:

    Muito interessante o tema, e, mais ainda, a dissertação sobre ele. Seria um ótimo candidato a uma extensão de debate.

Comentário

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