Quando a mudança vem de dentro

quinta-feira, 10 janeiro 2008, 20:36 | | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

A mudança nunca vem de fora. Para acontecer, só pode vir de dentro. Caso contrário, não é mudança. É teatro.

Ninguém duvida que o mundo externo faz milagres quando o assunto é mudança. Só que o seu poder se limita a, no máximo, influenciar um movimento que ocorre sempre de dentro para fora. Essa influência pode até ser mais impositiva, a ponto de acreditarmos que é ela que provoca a mudança. Esse é o caso, por exemplo, das mudanças que se processam durante nossa infância, quando os pais impõem certas atitudes em seu trabalho de nos educar. Influências impositivas também podem ocorrer em outros momentos de nossa vida – quando sofremos algum acidente mais grave ou somos vítima de alguma doença, nos obrigando também a tomar algum tipo de atitude que nos leva a uma mudança mais drástica. No primeiro caso, somos influenciados pelo jogo de troca obediência-recompensa com nossos pais e, em outras situações, essa influência pode vir por meio de um choque de realidade, quando tomamos consciência de algum risco que corremos por comportamentos ou atitudes que vínhamos praticando. Nos dois casos, no entanto, quem promove a mudança somos nós. O meio só nos dá uma mãozinha.

Sobre este tema, há um texto interessante divulgado pelo Pathwork, método de auto-conhecimento propagado pelo psicanalista John Pierrakos e sua mulher Eva, intitulado “O significado espiritual da crise”. Nele, a entidade auto-denominada “O Guia” explica que o mundo espiritual envia sinais sutis quando nos afastamos do propósito de nossa existência. Quando não conseguimos perceber esses sinais, porque normalmente estamos ocupados demais com nossa rotina, os sinais começam a ficar mais fortes até que aparecem na forma de uma crise. Nessas situações, somos mais propensos a nos mostrar possessos do que agradecidos. Expressamos nossa ira pela injustiça que caiu sobre nós, quando deveríamos refletir sobre o significado da crise que, aliás, como toda crise, vem para dar uma chacoalhada, um empurrão, nos incentivando a mudar alguma coisa em nossa vida que realmente precisava ser mudada.

Também podemos mudar a partir de influências mais sutis. Só que uma viagem tranqüila é impossível sem que as condições também sejam tranqüilas. Não adianta ter o barco mais moderno e equipado do mundo frente a uma tempestade. A mudança será conduzida de maneira mais suave se o lugar onde ela irá se processar, ou seja, dentro de  nós, permitir que ela ocorra dessa maneira. Porque só com o nosso interior aquietado, conseguimos ouvir e, assim, usar os nossos sentidos e nossa intuição, para perceber com mais precisão o movimento da maré e a direção do vento e  aí, sim, estabelecer uma rota segura de mudança.

Certamente, você tem algum tipo de mudança que conduziu a partir desse tipo de influência. E se você já fez isso uma vez, acredite, poderá repetir quantas vezes quiser. O primeiro exemplo que me recordo nessa linha foi minha decisão de parar de fumar. Eu já havia feito de tudo – redução gradual, uso de adesivo, auxílio psicológico, promessa religiosa -, mas foi um acordo interno que deu o impulso certo para que a mudança se processasse. E o acordo foi simples: meu primeiro filho havia acabado de nascer. Ele nasceu prematuro e acabou ficando 10 dias na UTI. Ali, percebi que aquele ser maravilhoso era absolutamente dependente de mim e de minha esposa. Se eu não me cuidasse, portanto, não estaria apenas colocando minha vida em risco. A partir do momento em que ele nasceu, o ato de fumar já não era mais uma questão de foro pessoal. Decisão tomada, só faltava a oportunidade. Apareceu uma viagem de 20 dias para uma casa perdida nas montanhas, com a padaria mais próxima a mais de 30 km. Levei apenas um maço de cigarros, que acabou em 2 dias. Voltei de lá com a mudança concretizada. Nunca mais coloquei um cigarro na boca.

O fato é que não importa o tipo de influência que leva à mudança. O importante é mudar. Para isso, bastaria lembrar que todos nós já estamos em um movimento de mudança constante, independente de nossa vontade. Nosso corpo muda o tempo todo, aliás, não há um segundo sequer em que algum tipo de mudança, mesmo que imperceptível, esteja ocorrendo em nós. E mesmo que alguma mudança pareça nos conduzir a um final desastroso, ainda assim ela será mais bem-vinda do que a estagnação. Porque, parado, nada acontece, mas quando andamos para trás, uma hora batemos a cabeça na parede e descobrimos a direção certa.

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