– Alô!
– Por favor, eu gostaria de falar com Sirlene.
– Sou eu mesma.
– Oi Sirlene, sou o Fábio, genro da Flora e do Tuca, que venderam o apartamento para você.
– Oi Fábio, como vai?
– Tudo bem…
– Na semana que vem, assinamos a escritura, né?
– Pois é, liguei justamente para conversarmos. Parece que você queria falar alguma coisa comigo?
– Eu? Não… falar o que?
– Ué? A Rosângela me disse que você estava querendo falar comigo… imagino que seja sobre os juros…
– Juros? Que juros?
– Os juros relativos ao atraso da última parcela da compra do apartamento…
– Mas nós não atrasamos nada. A culpa foi da Caixa… Inclusive, já conversei com minha advogada e ela diz a mesma coisa…
E assim, nessa conversa meio desencontrada, eu e a compradora de um imóvel pertencente a meus sogros iniciávamos o que acabaria se tornando um bate-boca irracional. De um lado, Sirlene e o marido, os compradores, de outro, eu, transformado em porta-voz dos vendedores. No meio do ringue, um contrato com duas caras: uma que era vista apenas por um lado e outra que aparecia apenas para o outro lado.
O ambiente esquentou quando ameacei partir para um processo de reintegração de posse, o que provocou uma crise de choro e o envolvimento do marido, que devia estar acompanhando a história pelas reações da mulher e já pegou o telefone na mesma freqüência.
– Olha, somos gente de bem, fizemos tudo o que combinamos, não sei o que você está querendo…
– Só quero que cumpram o contrato, que penaliza com multa e juros qualquer atraso nos pagamentos…
– Se você acha isso, então, vá atrás dos seus direitos…
– Não sou eu que acho. É o contrato que diz, o contrato que vocês assinaram!
E a briga agora esquenta entre eu e o marido, Marcos, alguém com quem eu nunca havia trocado qualquer palavra até então.
Peguei emprestado este exemplo – realíssimo, diga-se de passagem – para abordar o tema das brigas nos relacionamentos. Sinto que fica mais didático falar sobre elas quando acontecem entre pessoas estranhas, sem um mínimo de afinidade. Isso porque, em situações desse tipo, sabemos que não temos muito a perder – o máximo que pode acontecer é que o duelo evolua para os advogados das partes que, aliás, permanecerão como dantes, ou seja, apartadas. Não tememos a possibilidade de sermos rejeitados, afinal, nem conhecemos direito quem estará nos rejeitando.
Já quando o clima esquenta entre duas pessoas que têm uma história em comum, há mais do que uma mera questão jurídica em jogo. Há algo a perder, e este é – ou, pelo menos, deveria ser – , o ponto crucial a ser considerado na possibilidade ou proximidade de um quebra-pau. O que posso perde com essa briga? Qual é o possível preço de uma vitória?
No caso da discussão entre eu e o casal, a perda potencial era mais material – por exemplo, atraso no recebimento do dinheiro devido até o processo ser julgado – do que emocional – possivelmente, a percepção, para o casal, de que sou um carrasco sem coração. E o ganho, claro, seriam a multa e os juros que receberíamos em função do atraso no pagamento.
Mas o que eu perderia se partisse com a mesma virulência para cima de Cláudia, essa criatura que já me agüenta há mais de 13 anos? Ou qual seria o ganho potencial para que eu corresse o risco dessa possível perda?
Na maior parte das vezes que faço esse tipo de análise, ou evito partir para uma briga ou saio dela antes que a coisa descambe para a baixaria. Porque, quando paro para refletir sobre perdas e ganhos, invariavelmente, descubro que o ganho está muito mais relacionado a minha vontade, ou seja, ao meu ego, do que a algo concretamente vantajoso. Descubro que ganho mais quando perco menos. A experiência com esse tipo de contabilidade tem me mostrado que nenhuma guerra, de fato, produz vencedores. Quando perco, me sinto péssimo, com a auto-estima lá embaixo. E, quando ganho, às vezes, me sinto sim um carrasco sem coração e, outras, mesmo me sentindo um vencedor justo, vejo meu “inimigo” se afastando, com raiva e rancor, de mim. Nas duas situações, perdendo ou ganhando, meu prêmio é a solidão. Quer derrota mais triste do que esta?
Se você está curioso sobre o desfecho do pau descrito no início desse texto, depois de ouvir o relato do marido, eu recuei sim – não porque eu seja um altruísta ou um ser de suprema bondade. Recuei porque o choro convulsivo de Sirlene funcionou como uma pausa para refletir e, quando parei para pensar, consegui repetir uma atitude que considero muito saudável numa situação de conflito, mas que só consigo tomar quando mantenho-me calmo: coloquei-me no lugar dela e do marido. Ao fazer isso, pude ver que, apesar do contrato a meu favor, eles também eram vítimas de uma situação que não tinham como controlar. E aí cheguei à conclusão, mais uma vez, de que meu ganho seria maior se diminuísse o potencial de perda. Aliás, não é à toa que muita gente recorre à crença de que um mau acordo é sempre melhor do que um processo judicial, que costuma ser longo e, portanto, perpetua o clima de guerra, ou seja, exatamente o contrário da paz que desejamos e que é ó único caminho possível para a construção de uma vida feliz.