Na cama ou fora dela, quem não gosta de uma boa sacanagem? Aliás, essa é uma palavra quase onomatopéica. Sacanagem. É quando os sacanas agem, e esta, incrivelmente, é a origem de sacanagem, quando os sacanas agem. “Sacana é aquela pessoa que masturba outra. Diz-se da pessoa canalha, imoral, crápula, desprezível, sem caráter. Na regjão Sul, diz-se da pessoa brincalhona, trocista. No Norte e Nordeste, diz-se do invertido, do pederasta passivo… No resto do Brasil, sacana é o mesmo que pessoa espertalhona, malandra, sabida.
Sacanagem é o mais devasso dos atos humanos, posto que só busca o prazer sem limites e, por isso mesmo, por se concentrar totalmente na carne em detrimento do espírito, as igrejas, em todos os tempos, sempre tentaram, em vão, coibir esse natural ato humano, que é a sacanagem. Todo mundo gosta de uma boa sacanagem, até mesmo as freiras e os padres. Contra ela, não há cintos de castidade fortes o suficiente nem consagrações a Deus que resistam eternamente. No final, tudo acaba em sacanagem.
Não há, portanto, outro tempero possível para se produzir um bom cozido na cama que não esteja relacionado à sacanagem da boa.
Massagenzinha com óleo? Termina em sacanagem, é claro!
Carinhos mútuos com as mãos nos rostos do parceiro, com os lábios muito próximos, porém sem se tocar? Sacanagem, sem dúvida.
Ensaboar o parceiro com uma luva especial esfoliante, usando algum sabonete líquido levemente cítrico, para ativar os chacras… onde é que vai dar? Em um único lugar: em sacanagem!
Você e ela se submeterem a uma sessão conjunta de depilação íntima à cera e depois dividirem um ofurô com um refrescante banho de leite de rosas? Sacanagem! Duplamente sacanagem!
Colocar seu parceiro ou parceira em cima de uma maca de massagista, forrada de celofane vermelho, e bezuntá-lo ou bezuntá-la com uma bisnaga de mel, para depois, primeiro, com a língua e, em seguida, com o próprio corpo, saborear a mistura do produto das abelhas com os produtos das glândulas da amada ou amado? Nada é mais sacana do que isso, você não acha?
Os corpos são as panelas e vasilhas. O sangue é o caldo onde nasce a sacanagem, essa substância envolvente que flui, deságua, retém-se, explode, pausa e alimenta de novo os relacionamentos de natureza afetivo-sexual. A sacanagem confronta, questiona, provoca, desconstrói nossas certezas, nos joga na cara nossos fantasmas, coloca-nos frente ao espelho, sozinhos com nossos medos. Ela está nas páginas criadas por Carlos Zéfiro, um ícone das revistinhas de sacanagem. E está também nos vestidinhos das recém-formadas mulheres, no seio que explode em leite, na língua passeando pelos lábios, nos pelos encrespados da nuca, na mão segurando o pau, no dedo explorando a vulva.
Sacanagem é tudo aquilo que você quiser que seja sacanagem. É tudo aquilo que você e seu parceiro ou parceira combinarem de realizarem, visando exclusivamente seu próprio prazer. Aliás, sugiro que você coloque essa coisa na cabeça de uma vez por todas: quando cada um dos parceiros de uma relação visa seu próprio prazer, eles fazem o melhor pela relação. Reconheça a obviedade dessa equação e mude seu conceito sobre dar e receber prazer. E é a sacanagem o tempero perfeito para esse cozido, em que situação for, com quem quer que for, como for, seja na cama, na rua, na fazenda ou numa casinha de sapê
Oi, Fábio
Gosto dos seus artigos. Sua clareza na definição e interpretação de muitos assuntos. Essa última equação é perfeita, pena que o resultado nem sempre é exato, talvez até a matemática seja mais simples do que a sacanagem…
O tempero do seu cozido é divertido… e saboroso.. rsrsrsr
Beijão
Querida Clarissa, não há como esta equação fechar nunca, pois homens e mulheres sempre serão diferentes. O que dá pra fazer é a gente equalizar minimamente nossos desejos e expectativas e apostar que o equilíbrio venha desse barco que balança o tempo todo de um lado para o outro. Obrigado pelas palavras de estímulo!!! Beijo. Fábio