Um banho de consciência ao lidar com sua rigidez

quarta-feira, 20 fevereiro 2008, 05:53 | | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

Quando pequena, a árvore verga-se com facilidade, porém, quando grande, torna-se rígida. O momento de criação é totalmente flexível. Basta visualizar o nascimento de um bebê, que só acontece porque ele tem o corpo todo molinho, para poder se amoldar ao útero e, posteriormente, escorregar pela vagina da mãe. Já a morte é caracterizada pela rigidez do corpo. Sem a energia da vida, é assim que ficamos: rígidos.

Diz-se que não dá para lutar contra a corrente, mas é isso o que fazemos a maior parte do tempo. É a nossa rigidez em ação.

Além do oposto de flexibilidade, rigidez é também severidade de princípios. Ela se manifesta quando batemos o pé e defendemos um ponto de vista, como se só houvesse a possibilidade de estarmos certos. Quando fazemos isso, dizemos não a qualquer possibilidade de aprender algo novo.

O dicionário também define rigidez como falta de meiguice, de doçura. Ela nos transforma em pedras brutas e afiadas, que ninguém quer acolher ou acariciar. A rigidez nos conduz, invariavelmente, à solidão.

Por que, então, em diversas ocasiões de nossas vidas, optamos por sermos rígidos ao invés de flexíveis? O que em nós não pode se desmontar, amolecer? São estas perguntas que me faço quando percebo que estou encarando alguma situação de maneira rígida, quando me vejo repentinamente fechado para o outro. É curioso, mas só de conseguir fazer estas perguntas, já começo a me sentir mais leve e flexível. Isso se chama tomada de consciência. O fato de nos sabermos rígidos é o primeiro passo para abandonarmos a rigidez. Isso porque as perdas que acumulamos com ela são tão visíveis, que basta tomar consciência de sua presença para que ela começe a ser dissolvida.

O problema, no entanto, é que, na maioria das vezes, somos rígidos sem perceber. Atuamos, portanto, de uma maneira que nos prejudica e não conseguimos imaginar que a razão de nossa desgraça é a nossa rigidez.

Não sou modelo para ninguém, convivo com minha rigidez desde que me conheço como gente, mas tenho aprendido algumas técnicas para identificá-la antes que ela me destrua. E, mais uma vez, não há nada de espetacular e misterioso a ser descoberto nesse sentido. Como no provérbio chinês, a natureza já nos dá os instrumentos que precisamos para evitar nossa rigidez precoce ou, se você preferir,“morte precoce”…

A rigidez, normalmente, aparece quando existe um confronto de idéias – há a minha idéia e a idéia do outro. Então, o primeiro passo para retomar sua consciência e evitar que ela tome conta de você é…respirar! Isso mesmo: se alguém aparecer com uma opinião contrária a sua, antes de reagir, respire fundo: respire uma, duas, três vezes. Fazendo isso, além de ganhar tempo para pensar, o que pode levá-lo à conclusão de que você está prestes a ser tomado por sua rigidez, você também acalma seu coração. Com taquicardia e cheio de adrenalina, não há cérebro no mundo que consiga raciocinar direito. Aliás, fomos dotados dessa capacidade de produção maciça de adrenalina para, quando ameaçados de morte, não perdermos tempo e sairmos correndo. Acontece que não vivemos mais nas cavernas suscetíveis a todo tipo de adversidade. Podemos refletir sobre todas as alternativas antes de agir.

Depois de conseguir respirar, você está preparado para o segundo passo: ouvir. Ao invés de responder ao outro defendendo seu ponto de vista, procure antes se informar sobre o que você não conhece, ou seja, sobre o ponto de vista do outro. E a melhor forma de fazer isso é se interessando pelo que o outro tem a falar, o que só é possível quando nos calamos. Assim, podemos nos concentrar em ouvir.

Esses dois simples passos podem não resolver o problema de sua rigidez, mas, em 80% dos casos, vão lhe ensinar que você não precisa recorrer a ela, porque vai acabar descobrindo que há um confortável e maleável espaço onde você e o outro podem conviver de maneira harmônica e flexível. São como dois círculos independentes, mas que têm uma parte sobreposta. É nessa intersecção que identificamos pontos comuns e estabelecemos uma relação com o outro. E o que está fora dessa intersecção, ao contrário do que normalmente imaginamos, não é algo contra nós, mas apenas o que ainda não conseguimos aprender. Temos medo do que não conhecemos e usamos nossa rigidez como um escudo para nos proteger do desconhecido. E a consciência seria como um facho de luz, que, quando apontada para o escuro, revela que os leões e abismos que tanto temíamos encontrar eram só imaginários.

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