Despedir-se da vida de solteiro não é tarefa fácil. Deixar para trás a liberdade de fazer o que bem quer, na hora e com quem quiser, liberdade esta conquistada, normalmente, à custa de rupturas nem sempre harmônicas com os pais, parece, à primeira vista, uma completa estupidez. Lembro-me claramente dessa reflexão no momento em que pensei mais seriamente que havia chegado minha hora de casar. Eu estava há quase um ano sem engatar um namoro sério com ninguém e, de repente, aconteceu. Lá estava eu, completamente apaixonado e pronto para iniciar uma parceria de verdade.
Trocar uma vida sem compromissos e, portanto, sem grandes responsabilidades, por uma vida compartilhada, interdependente e, por pressuposto, baseada numa espécie de negociação permanente de espaços e limites, só pode acontecer se acreditarmos que os benefícios serão maiores que os custos. Ninguém parte para o casamento sem apostar nesta tese. O problema é que, nem sempre, ela se mostra verdadeira. Isso porque um casamento feliz não é algo que dependa apenas de uma equação matemática. A razão é um de seus alicerces, mas a inteligência emocional é o que vai construir ou não uma relação duradoura.
Mas… e o amor, onde ele entra nessa história?
Pessoalmente, não acredito que o amor seja uma espécie de estágio avançado ou evolução da paixão. Por ser formada de impulso e desejo, o fim da paixão só pode ser trágico. Tanto é que o sentimento mais próximo dela não é o amor, mas o ódio, que pega uma carona nos “ups and downs” da paixão e, de repente, sem um motivo muito concreto, simplesmente irrompe, varrendo qualquer traço de afetividade para dar espaço para a mágoa e o rancor.
Nenhuma paixão é, portanto, capaz de estruturar uma parceria a longo prazo, mas ela é a fagulha necessária para que dois seres se encontrem. A paixão propicia a experiência inicial que pode ou não levar a uma relação de maior profundidade, como o casamento.
Mas… o que? Não há paixão no casamento??? Eu diria que não há mais a paixão-fagulha que toma as pessoas de assalto. Há outra espécie de energia, que também se alimenta do desejo, como a paixão, mas que não se move mais colada na angústia e na ansiedade. O casamento, conforme vai se aprofundando, vai aquietando a ansiedade, mostrando para as pessoas que o tempo da pressa já passou. O casamento instala o tempo da convivência, que precisa ser saboreada com calma, posto que conviver ou “viver com” outra pessoa só se torna algo possível quando cada um respeita o tempo do outro. O amor, que é o querer bem, torna a convivência saborosa. E a convivência, que se faz mais saborosa a cada nova descoberta, também ajuda a fortalecer o amor.
O casamento, aqui compreendido simplesmente como uma união consciente e estável entre dois seres humanos, é algo biologicamente natural. As pessoas precisam se juntar para fazer e criar filhos e, assim, cumprir com sua missão de perpetuar a espécie humana. Essa união pode prosseguir desse ponto ou recomeçar, com o casal inicial se recombinando com outras pessoas. Qualquer que seja a escolha, o que todos queremos é caminhar pela vida em boa companhia. E o casamento é uma das maneiras para chegar lá, uma maneira difícil, polêmica, às vezes, dolorosa, mas que também oferece uma riqueza tão grande de aprendizados que, mesmo quando não dá certo, ele transpira vida, muita vida.
Sou recém casada, gostaria muito de ver mais posts sobre casamento por aqui. 🙂