Cartas inventadas para Clarice – Tá difícil, tá difícil…

domingo, 06 novembro 2016, 16:46 | | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

conflitoOlá, Clarice. Há quanto tempo não te escrevo, hein? Não por falta de assunto, nem tempo. É que às vezes me desanimo e me paraliso diante da ignorância que me cerca e, como não sou imune, eu que sou feito de carne, ossos e emoções, mergulho igualmente na ignorância e, atolado, cego e sem ar, perco a esperança em buscar coerência em tanta iniquidade. Sim, iniquidade. Sei que a palavra é grave, mas é das palavras graves que preciso quando a indignação, mais do que a ignorância, me arrebata. Talvez você realmente tenha razão quando diz que viver ultrapassa qualquer entendimento, mas de que vale a vida sem refletir sobre o viver?

Minha indignação vem da observação de que vivemos um momento no planeta, em nosso país, em nossos lares de uma dualidade extrema. Enquanto as máquinas aprendem a solucionar problemas cada vez mais complexos, nós estamos retrocedendo ao raciocínio binário do certo ou errado, bem ou mal, verdadeiro ou falso. E como isso me dá preguiça, Clarice! A cada dia, tenho mais preguiça em conversar com esses robôs primitivos, previsíveis autômatos que se autonomearam os juízes da verdade. Diante deles, ou me isolo de vez ou me jogo no baile de máscaras. E você sabe como gosto de me relacionar com as pessoas… Só que a hipocrisia também tem seu preço. Estamos na merda em que estamos justamente por causa desse maldito homem cordial. Criticamos duramente os estudantes que ocupam escolas públicas em protesto à merda de educação que recebem, porém nenhum de nossos filhos estudam em escolas públicas. Malhamos os políticos corruptos, mas não deixamos de cometer pequenos delitos um dia sequer de nossas vidas. Somos contra toda forma de preconceito, mas fazemos vistas grossas à proibição do uso do elevador social para pessoas que trabalham em nossas casas. Aliás, já imaginou se algum maluco que assumisse a presidência desse país acabasse com as favelas? Onde iríamos arrumar mão de obra barata para limpar nossas privadas? Eis os riscos de me fazer de homem cordial, Clarice: a ironia afiada que você conhece tão bem. E que, inevitavelmente, nos leva à solidão. As pessoas não gostam de gente como nós, Clarice, gente que lhes mancha as vestes diáfanas de bons mocinhos e boas mocinhas, jogando na cara o excremento fétido empurrado para baixo do tapete.

Pega mal, me dizem. Olha a sua imagem, alertam. Conselho de amigo…

Estamos todos no mesmo barco, que afunda no lodo fedorento, mas sob o convés bebericamos margaritas e conversamos sobre amenidades. Ai daquele que interromper esse viver idílico apontando para a lama podre sob nossos pés!

E sabe, Clarice, não é muito o que eu peço, o que peço como um primeiro passo na direção de um viver e conviver mais em congruência com nosso mandato biológico. Falem o que for, mas todas as nossas células brigam por se perpetuarem e, mesmo que tenham a vida de uma mosca – o que já é bastante para muitas delas -, é isso o que fazem com todas as suas forças: lutar por viver! E não aceitar nossa condição de seres mutantes é lutar contra o viver! O que peço é só isso: que aceitem a transitoriedade de nosso viver humano – o que ignifica não se apegar estupidamente a verdades transitórias, nem brigar por elas ou esmagar o outro por elas. Quantas atrocidades já foram cometidas em nome da verdade? Quantas mortes?

Ser humano significa, Clarice, ser o que se é, sem autoengano. Ser humano é ser esse bicho curioso, que todos nós sabemos muito bem como é, porque todos já fomos crianças, já saímos por aí sem plano a descobrir o mundo, já ralamos muito joelho, já soubemos o que é aprender com quem se gosta.

Você sempre diz, Clarice, que o que o ser humano mais aspira é tornar-se ser humano. Desculpe-me, amiga, mas tenho cá minhas dúvidas se essa não é só mais uma frase de efeito, dessas que as pessoas postam junto com uma fotinho bonita na tentativa desesperada de acionar a metralhadora de likes, no que já se transformou na obsessão de cada dia de construir uma imagem aprovável aos olhos dos outros.

Estou cansado, Clarice, cansado de falar aos ventos… E você bem sabe que a diferença entre nós e eles não é que somos mais puros, não somos superiores a ninguém. Longe disso, estamos juntos nessa aventura às vezes tão desventurosa, mergulhados até o pescoço na mesma lama pútrida. Apenas dizemos não ao autoengano. A cada dia, quando acordamos, temos a chance de nos esquecermos na névoa das superficialidades artificialmente arquitetadas. E dizemos não. Isso faz uma baita diferença.

Abraçar quem nos quer morto é suicídio. Se pelo menos eles também fossem mais honestos consigo mesmos, acho que seríamos bem mais felizes juntos, juntos nas iniquidades que cometemos e na consciência dolorosa póstuma dos estragos de nossos atos. Mesmo concordando, Clarice, que acordar tem lá suas muitas desvantagens, prefiro estar lúcido e ser tachado de louco a esquecer-me de quem sou e do que sou feito.

Comentário

You must be logged in to post a comment.