Ampliando o olhar sobre o outro

domingo, 14 setembro 2008, 18:05 | | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

Aquilo que nós não conhecemos costuma nos assustar. É a mesma sensação de mergulhar em um lago do alto de uma rocha. Enquanto não nos certificamos da profundidade do lago, permanecemos imóveis, tremendo de medo do risco de se arrebentar em alguma pedra. Enquanto não temos informações concretas sobre a profundidade do lago, nossa cabeça procura respostas em qualquer lugar: primeiro, vasculhamos a memória, na tentativa de descobrir se já vivemos uma situação semelhante e qual foi a decisão tomada, como se alguma escolha passada pudesse oferecer o conforto que precisamos na nova situação; em seguida, partimos para a imaginação, quando procuramos respostas para as nossas angústias nas ultra-rápidas sinapses que nossa mente provoca em sua viagem pela associação de idéias, um trajeto que só existe mesmo dentro da nossa cabeça. Mas como as coisas existem de fato dentro da nossa cabeça, podemos tanto concluir que a água é funda o suficiente para permitir um mergulho seguro quanto exatamente o contrário.

Quando não permitimos que o outro, no caso, o lago, nos mostre como ele de fato é, colocamos nossa decisão na dependência do que pensamos ou imaginamos que o lago seja. Se tivermos sorte, nosso palpite pode até estar certo, mas… você mergulharia de cabeça em um lago escuro apostando na sorte? Então, por que é que você faz isso em seus relacionamentos?

Para conhecer melhor o lago, você deverá descer da rocha onde está comodamente sentado. Terá também que entrar devagarinho nas águas escuras e, com a ajuda de algum pedaço de pau, vasculhar o fundo do lago para se certificar da profundidade e da existência de pedras. Feito isso, poderá concluir se o mergulho é ou não seguro – pelo menos, no ponto que você pesquisou, porque lagos costumam ser espaços amplos e complexos, exigindo muitas investidas para um estudo mais aprofundado. Só que lagos costumam possuir peixes, plantas e outros organismos que se modificam o tempo todo e reagem às condições climáticas e ao tempo, o que significa dizer que, por mais cientista que você seja, jamais poderá dizer que conhece o lago totalmente. Mas, a cada nova visita, provavelmente, você acabará se deparando com algo novo, aumentando continuamente seu conhecimento sobre ele.

É exatamente assim nos relacionamentos. O outro é como um lago e, mesmo que lhe pareça familiar, não houve nem nunca haverá alguém como ele. Você pode até identificar algum aspecto dessa pessoa que já tenha conhecido em outra pessoa, mas isso é só uma pequena parte do que ela é de verdade. Isso, você só começará a descobrir se descer do alto da rocha onde fincou seu ego, despir-se de seus pré-julgamentos e, com a alma e o corpo nus, entrar nesse mundo tão cheio de mistérios, um passo atrás do outro, sem pressa de chegar a qualquer lugar, apenas curtindo as sensações e as descobertas de cada  momento.

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