É realmente melhor ficar só do que mal-acompanhado?

domingo, 28 setembro 2008, 20:35 | | 2 comentários
Postado por Fábio Betti 

Estou lendo um livro escrito em 1945. Estima-se que mais de 3 milhões de pessoas tenham lido sua versão em língua inglesa. Aqui no Brasil, ele está na 25ª edição. Para quem trabalha ou, pelo menos, gosta de psicologia, já deve ter ouvido falar que “Em busca de sentido” traça as bases da terceira escola vienense de psicoterapia: a Logoterapia – a primeira é a Psicanálise de Freud e a segunda é a Psicologia Individual de Adler. Além de lançar suas bases teóricas, o fundador da escola, Viktor Frankl, descreve nesse livro algumas histórias que ele viveu durante os três anos em que esteve preso em vários campos de concentração durante a segunda guerra mundial. Embora haja muitos relatos dignos de nota, o que mais me chamou a atenção nas primeiras 100 páginas que devorei no fim de semana é o fato de seres humanos, agindo sob uma pressão extrema, retomarem contato com suas respostas instintivas, uma vez desprovidos de qualquer possibilidade de se servirem de orgulho, vaidade ou sentimentos apenas experimentados nos sonhos para quem se vê enclausurado em um campo de concentração nazista. E quando Frankl e outros prisioneiros são obrigados a recorrer a seus instintos primitivos na tentativa de sobreviver, não há qualquer julgamento ou distinção entre os que vendem seus valores em troca de uma esperança de sobrevida e os que morrem defendendo suas crenças. Não há julgamento, porque, em ambos os casos, o que se faz, mais do que uma mera tentativa de sobrevivência, é a busca por uma felicidade possível no tormento com o qual cada um lida de uma maneira totalmente diferente e particular.

Esta introdução desproporcionalmente grande para um blog que se propõe a discutir relacionamentos não é, porém, gratuita. O conceito de “mal-acompanhado” pode ser tão descabido para uma pessoa que não suporta viver só, quanto a predileção pela roupa da grife A ou da grife B o é para um prisioneiro de guerra que se vê, repentinamente, privado de tudo, inclusive, de sua condição humana.

Existem pessoas que, simplesmente, não conseguem ficar sozinhas e optam, mesmo que aparentemente de maneira involuntária, a estar com alguém, não importando que este alguém, em certo sentido, não a mereça. Se você ainda não viveu uma situação assim, certamente, já conheceu alguém que passou por isso. E você, na melhor das boas intenções, chegou perto dessa pessoa e, cheio de razão, disparou: “Por que é que você está com alguém que te maltrata tanto? Isso já não é amor, é masoquismo!” E a pessoa, ao invés de ouvir a voz da razão – a sua voz, é claro! –, o que fez? Voltou às costas pra você e correu para os braços da tal má companhia.

Se você tiver curiosidade, leia qualquer ensaio sério sobre as delegacias da mulher. Você irá descobrir que a maior parte das vítimas acaba por retirar a queixa contra o companheiro que a maltratou. E nem sempre é por medo de represálias. Muitas vezes, é porque, apesar da violência, há alguma coisa nessa relação que, mesmo que você discorde, faz com que a mulher não queira terminá-la.

Que ninguém pense que estou aqui defendendo a tese de que devemos perdoar crimes cometidos por amor, longe disso! Na verdade, a única tese que quero defender – se é que dá para defender qualquer tese nesse espaço – é que a gente tem que parar com esse negócio de julgar os outros por nossas próprias experiências. Porque se a gente acha que aquele sujeito que bate na mulher de vez em quando é uma péssima companhia, pode ter alguém olhando para a nossa companheira que, de vez em quando, comete algum pecado, do tipo sair por aí torrando o que tem e o que não tem com compras fúteis, e, assim, também ser rapidamente classificada como péssima companhia para nós. E, claro, vice-versa!

Nesse caso, a verdade, como o tal sentido buscado por Frankl em seu livro, é uma coisa totalmente pessoal: cada um tem a sua própria verdade. Isso significa que, se uma pessoa está com alguém que, a nossos olhos, parece uma má-companhia, é porque, em algum sentido, esta companhia é percebida como boa pela pessoa. Para ficar ainda no relato de Frankl, quando se está na iminência permanente da morte, pode-se facilmente atribuir a qualidade de boa companhia a alguém que, de vez em quando, mergulha a colher mais fundo na panela de sopa para lhe servir algumas ervilhas a mais.

2 comentários para “É realmente melhor ficar só do que mal-acompanhado?”

  • Aline disse:

    Não nem me dar ao trabalho de escrever a respeito da absurdidade deste artigo… A única coisa que eu tenho para dizer é: passei anos sozinha pelá única razão de não me achar tão pouca coisa que possa ser entregue nas mãos de qualquer um e hoje colho os frutos de um casamento maravilhoso, porque fui capaz de esperar o momento certo, ao invés de sair correndo desesperadamente como um ser irracional atrás do primeiro que aparecesse…

  • Arnaldo disse:

    Se alguém aqui desejar deixar sua inteligência florecer e não somente se arrastar pelo mundo como um ser qualquer, indico os livros a seguir, que esclarecem mais que o suficiente a questão:

    QUEM ME ROUBOU DE MIM – Fábio de Melo
    OS SETE NÍVEIS DA INTIMIDADE – Matthew Kelly
    A CARÍCIA ESSENCIAL – Roberto Shinyashiki

    Já os que se consideram tão pouca coisa que se contentam em viver como insanos tomados pelo desespero ou como animais irracionais, continuem vivendo as suas “verdades” em companhia de qualquer um… Bom proveito e boa infelicidade…

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