Escrito por Marcia Tiburi
Ninguém é dono de ninguém
Quem é capaz de levantar essa bandeira? Há quem se aposse do outro a quem diz amar do mesmo modo como se sente dono da camisa ou da bolsa que acabou de comprar. Para alguns, o namoro ou o casamento, a conquista de um amo ou a compra de um objeto resultam no mesmo direito de posse. Nos casos mais graves, o desejo basta para considerar que o objeto já está ganho. Porém, nem sempre o objeto de tão caloroso desejo sequer sabe que é mirado. E nem sempre corresponde, nem sempre imagina o peso das amarras que se lançaram sobre ele. E, se souber, pode querer fugir.
O ciumento reclama a posse de alguém como quem exige direitos de consumidor. Quem tem ciúmes sente que seus “direitos”, mesmo que sejam só de fantasia, são prejudicados. “Paguei, quero o que me pertence ou o meu dinheiro de volta”. Mas ao se tratar de amor, ou de qualquer laço afetivo, sabemos que todo investimento é a fundo perdido. O ciumento é um avarento que não suporta esse logro que a vida prega em qualquer um que sinta amor, dia após dia. Garantia é algo que está fora do mercado das trocas amorosas. E é muito difícil julgar se há algum ladrão do amor alheio. O ciumento é o único que tem certeza de que foi roubado. Ninguém pode dizer quem ou o que é o culpado de um amor que se esvai. O próprio ciúme é, muitas vezes, a causa do fim infeliz de muitas relações.
Medo da perda
Sigmund Freud tratou o ciúme como algo que é parte natural da vida psíquica. O ciúme anda junto com o amor, assim como o luto, no mesmo pacote da realização dos desejos e da construção da subjetividade de cada um. Se o luto é o modo de aprender a conviver com o sofrimento da perda, o ciúme é o medo da perda que vem antes de que qualquer coisa aconteça. Mesmo que haja motivo para ter ciúmes, ele é um sentimento que se define pela antecipação. Não é prova de nada. Nesse sentido também René Descartes, filósofo do século 17, comentou o ciúme como um temor relativo ao desejo que temos de conservar algum bem. Enquanto medo, ele é vivido como ameaça. Nosso erro é pensar que ele revela a ameaça, quando na verdade apenas sinaliza o medo.
O medo da perda não é a perda e antecipá-la é apenas colocar o sofrimento possível como um carro na frente dos bois. Cada sentimento deve ser vivido, mas não precisa ser produzido nem deve ser alimentado. Uma sensação não é a realidade. Por seu poder de interferir nas ações concretas das pessoas é que todo sentimento deve ficar no seu lugar devido. O equilíbrio em relação ao que se sente é a única forma de evitar mais sofrimento que o inevitável.
Monstro de olhos verdes
Em OteIo, Shakespeare chamou o ciúme de “monstro de olhos verdes”. Uma bela metáfora para anunciar que o ciúme, como o amor, nasce do olhar. De um olhar cativante e devorador. Pois o olhar, sabemos, é muitas vezes bem mais eloqüente que as palavras. Revela desejos impronunciáveis. O ciumento, que além do medo chega ao pânico e faz escândalo, confia no que vê e diz tudo pelos olhos fulminantes sempre à espreita e à espia, pronto a capturar qualquer sinal de ameaça.
O ciumento transforma o cuidado normal a que chamamos zelo em apego exagerado. O ciúme torrna-se um regulador das relações amorosas. Pode se transformar em poder, em dominação e até mesmo em violência. Melhor poder expressá-Io em palavras cuidadosas antes que se torne destrutivo.
Todo mundo tem
Viver sem ciúme é a utopia dos amantes. O ciumento, no entanto, ignora a si mesmo e crê na fantasia de que possui alguém. Ele ama, mas atrapalha o próprio sentimento de amor. No extremo, crê que é traído ou está prestes a ser. Quem é amado por um ciumento está, de certo modo, sendo privado do melhor do amor, que é a liberdade.
Aceitar que o ciúme existe é o único modo de superá-lo. É preciso entender onde o ciúme se cria, como ele se enraíza e como é alimentado. O ciumento pode ter vivido um trauma, pode ser vítima de suas fantasias. Em qualquer caso o ciumento é aquele que encontra alguém que o sustenta. Alguém com quem ele se identifica de tal modo que teme perder a si mesmo ao perder quem ama ou diz amar.
Curar o ciúme é curar a angústia que nos impede de ver que a vida de cada um, por mais acompanhada que seja, é a experiência de saber-se único e só. Uma companhia na solidão é uma luz e uma dádiva, conseqüência da própria capacidade de amar.
Bom dia !
Adorei este artigo, foi o único que eu li e me deu um pouco de noção sobre esse maldito assunto que só de pensar deixa meus musculos em ponto morto, que dor, que perigo corre a pessoa que esta com alguém ciumento do lado.
Rute