Escrito por Caco de Paula
Aprender a ouvir tem algo a ver com paciência. Paciência depende menos de esforço que de habilidade. A habilidade de não esperar nada. Se não esperamos nada, não ficamos impacientes. Mas nós esperamos tanto, não é mesmo? E somos muitas vezes traídos por nossas expectativas. Mais uma vez, por elas.
E, ainda que nos esforcemos para ouvir os outros, a verdade é que raramente os ouvimos. Você olha no rosto da pessoa, ouve o som de sua voz, mas se distrai e nem distingue as palavras, pois está pensando: “Como é que eu, que gosto tanto de ouvir o som de minha própria voz, ficarei aqui calado, ouvindo isso? Além de ouvir, terei de prestar sincera atenção no que diz? E, mais ainda, eventualmente concordar com sua opinião?”
É nessa dispersão que nos perdemos do presente, preocupados com o tempo que o outro nos “rouba”, essa sensação que o gênio de Noel Rosa registrou em samba: Seja breve, seja breve, senão acabo perdendo o controle e vou cobrar o tempo que você me deve.
Às vezes, como se quiséssemos adiantar o tempo, mudamos nosso ritmo respiratório, antecipando as inspirações que pertencem aos momentos seguintes, mas que não os trazem com elas. Assim, distraídos do presente, não ouvimos o que o outro tem a dizer e muitas vezes perdemos as possibilidades que aquela conversa nos traria.
Saber ouvir tem algo a ver com generosidade. Não com certo conceito errado, que vê generosidade como uma forma superior de olhar o outro. Falo da generosidade como comunicação, uma forma de irradiar, trocar, receber. Comunicar-se, com paciência, sem espera nada. Ninguém disse que é fácil ouvir o outro. Mas é muito necessário. E talvez a gente ainda seja capaz de aprender a fazer isso direito, com paciência e generosidade, com o olhar certo e a respiração certa. E sem esforço.
muito bom.Será que esse Caco de Paula, que escreveu o texto, é assim tão sensato, cordial e compassivo quando tem de… ouvir a mulher dele??
Boa pergunta, Marisa! Mas acho que só mesmo a mulher dele pode responder, né?