Qual é o segredo das relações duradouras? (versão masculina cheia de fé)

domingo, 07 dezembro 2008, 17:33 | | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

Antes que se crie qualquer expectativa, já vou logo antecipar que não faço a menor idéia de qualquer receita que pudesse ser aplicada para que uma relação entre duas pessoas se mantivesse viva ao longo dos anos.

Para escrever a coluna desta semana, resolvi, inclusive, pedir uma ajuda para minha esposa. Ela também teve que pensar um bocado antes de me passar qualquer pista útil a este tema. E o que ela trouxe nem de longe me surpreendeu. Confesso que esperava alguma grande descoberta que fizesse deste texto uma espécie de guia de auto-ajuda aos casais que se fazem a mesma pergunta. Cláudia simplesmente sugeriu que o que faz uma relação durar é a superação da satisfação de curto prazo pela visão de longo prazo.

Segundo ela, a satisfação de nossos desejos a qualquer custo pode ser um atentado fatal a um relacionamento. Isso porque se pressupõe que, para satisfazer nossos desejos, precisaríamos de outra pessoa além de nossa companheira ou companheiro. O que Cláudia está trazendo, na verdade, é o medo da traição. Porque nada nos impede de realizar todos os nossos desejos com a pessoa amada, mesmo que, em alguns casos, precisemos recorrer à fantasia.

A verdadeira ameaça vem do desejo pelo novo e pelo perigo que ele representa. O novo será sempre uma ameaça ao velho, porque é da natureza deste último resistir a se reciclar. O que equivale dizer que nenhum relacionamento será duradouro se ele não se transformar, se ele não deixar que o novo inocule seu vírus revolucionário. É como descreve tão bem Gilberto Gil: “tem que morrer pra germinar”.

Um relacionamento que se perpetua é também um relacionamento cheio de mortes. Certa vez, Stephen Kanitz escreveu em sua coluna semanal na Veja que ele havia casado diversas vezes… com a mesma mulher. Kanitz sabe das coisas.

Quando olho para meu relacionamento de 14 anos com Cláudia, posso identificar vários momentos de ruptura e, sim, algumas mortes, de onde renascemos diferentes. Um novo relacionamento surgiu após cada uma dessas mortes. E não quero iludir ninguém nem florear dizendo que o novo relacionamento sempre foi melhor do que o falecido. Quando me lembro de nossos primeiros anos, vejo um período de uma intensidade e de uma paixão insuperáveis. Não, definitivamente, os relacionamentos que surgiram depois não foram melhores. Pelo menos, não foram melhores sob a ótica da paixão. Mas a paixão é como a adrenalina: precisamos de ambas para viver, porém, em excesso, elas nos matam.

O novo, às vezes, aparece a nossa frente disfarçado, sim, de um desejo de traição. Mas o novo também pode surgir quando o relacionamento cai na vala comum da rotina, quando não vemos mais nossa companheira ou companheiro como um ser humano, mas como uma espécie de coisa. Porque um ser humano é uma fonte inesgotável de inovação, na medida em que todo ser humano é uma entidade mutante, que está o tempo todo sendo influenciada pelas experiências e pelo meio em que vive. A rotina é um convite para que o novo se manifeste, para que ele se liberte da acomodação e volte a dar sabor para o relacionamento.

Um relacionamento igual todos os dias é como a receita de comida repetida ad eternum. Não há mais sabor, porque o paladar já se viciou.

Se o relacionamento está assim, insosso, ou surge uma ameaça externa para ajudá-lo a se renovar, algo que nem todo o casal é maduro o suficiente para encarar, ou o próprio casal, consciente de seu estado letárgico, cria sua própria trinca na barragem.

Esse movimento pró-ativo pode se dar por meio de algo tão simples quanto inventar alguma coisa nova para fazer juntos – por exemplo, se matricular num curso de dança de salão ou fazer uma viagem para um lugar inusitado, como o Jalapão – ou dar um breque na inércia provocando uma crise. Pois é, ninguém gosta de viver uma crise, mas elas estão aí para chacoalhar as estruturas, principalmente, as que precisam mudar.

Por isso, quando a próxima crise chegar a seu relacionamento, antes de sair por aí reclamando que a vida é uma merda, agradeça por ter sido abençoado com uma oportunidade para escolher, como sugere Claudia, a visão de longo prazo ao invés da satisfação de curto prazo. Porque uma coisa eu posso dizer por experiência: um relacionamento feliz e duradouro torna a vida muito mais prazeirosa e interessante de ser vivida, fazendo de cada pequena morte um pedágio bem mais leve do que se imagina.

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