O que o homem sente quando se apaixona

sexta-feira, 12 junho 2009, 20:52 | | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

Escrito por Rodrigo Garcia Lopes

A paixão, antes, era uma promessa de felicidade. Hoje, desconfio que antes eu não me sentia: as coisas é que começavam a sentir, a sofrer em mim. A memória de um rosto ou de uma voz, ou aquilo que os antigos chamavam de musa.

Pois só uma musa é capaz de despertar essa música em nós, essa irmã da paixão chamada poesia, que nos leva a escrever coisas sem sentido como…

Imprimo em seus lábios lírios & jasmins/primícias de cetim em toques de neve/mixo a ti e a mim nesses sem-fins/gravo na boca o cheiro bom do cravo./ Nenhuma noia a nos tocar se atreve.//Ligado, digito os terminais dos teus sentidos/Regulo o foco do deleite, chupo teus bits & bytes,/Quando a aurora goza um sono rosa, Danaê, acredite:/com sentidos assim, quem precisa de inimigos? […].

Sim, a paixão é uma mulher de olhos invisíveis. Dizer que ela implica perda da razão não parece correto. Talvez seja mais apropriado dizer que a paixão carrega uma outra razão. A paixão, para mim, é como a leitura de um poema. Ou nos arrebata ou não é poesia. Nem paixão. A paixão é como uma palavra que busca uma rima. Quando duas palavras se beijam, nasce a poesia. A paixão tem a ver com aquela “realidade ficcional” na qual estamos imersos quando lemos um romance: uma suspensão temporária do descrédito do mundo e do outro. Mas, antes que acabe, “posto que é chama”, pintam os sintomas: insônia (pensa-se naquela pessoa), suores e tremores nas mãos (pensa- se naquela pessoa), enfim, dispara-se um mecanismo mental obsessivo (pensa-se naquela pessoa). A paixão é patética (palavra-irmã de paixão). Pateta é a pessoa apaixonada. Um marmanjo passa a se comportar como um adolescente. Não há como escapar.

A paixão, como a poesia, não tem muito sentido num mundo regido por valores como Mercado e Sucesso. Porque a paixão não é um valor: ela é um bem, um talento, uma espécie de reserva ecológica da sensibilidade. Em nossos dias, virou artigo de luxo. Pois para o que serve esse negócio que nos deixa em estado de transe, de sítio, de alerta, de poesia? Nesses nossos dias velozes e superficiais, ninguém parece ter mais tempo para o tempo que a paixão exige. O mundo deveria se adaptar à paixão, e não o contrário.

Apesar de já termos visto e vivido o filme da paixão, o fascínio que o outro pode exercer em nós nos faz cair, como patos, nessa lagoa que os gregos chamavam de… pathos: sofrimento. Lembro que a ausência da pessoa pela qual estava apaixonado provocava em mim os mais estranhos pensamentos. Hoje penso que essa projeção é a de nossa imagem. Como tentar agarrar o próprio reflexo num espelho, como no mito de Narciso. E tem outro problema: a paixão sonha eliminar a solidão, o que é uma impossibilidade. E é bom mesmo que seja eterno enquanto dure”: nossas expectativas em relação à pessoa-objeto de nossa paixão são quase sempre inatingíveis. Ainda que apaixonar-se seja uma forma de dor elegante”, como diria Leminski*, implica uma situação de stress que nenhum ser humano pode suportar por longos períodos, sob pena de enlouquecer, e aí não seria mais paixão. Pois a paixão é um pensamento são num mundo insano. Quanto dura esse filme? As personagens mudam, a paixão, não. Para mim, a paixão é como um daqueles paraísos perdidos: Mu, Atlântida, Agartha, Shambala, praia de Dido. Vê, já estou apaixonado e falando coisas sem sentido.

* Rodrigo Garcia Lopes é poeta, tradutor e compositor. Autor do CD Polivox e de vários livros, entre eles Nômada (Lamparina Editora). É co-editor da revista Coyote e autor do blog www.estudiorealidade.blogspot.com.

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