Esse tal desprendimento (confissão de um desertor)

sexta-feira, 12 junho 2009, 20:56 | | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

O desprendimento está em moda. Retiros espirituais e viagens místicas viraram roteiros turísticos obrigatórios. Um amigo está se preparando para ficar sozinho no meio da selva, em Denver, em um processo de conviver com o silêncio durante uma semana inteira. Recomendaram que ele levasse repelente de urso. Me pergunto o que seria capaz de repelir um urso. Churrasco grego da Líbero Badaró?

Desprendimento não é para qualquer um. Um pobre, por exemplo, tem poucas oportunidades para exercitar o desprendimento. Se pinta um bife na mesa, por exemplo, não desgruda dele de jeito nenhum.

Desprendimento é para gente rica. Gente que ganha mais dinheiro do que consegue gastar usando gente que, apesar de ser quem faz todo o trabalho, fica só com uns trocados, que, obviamente, mal dá para o gasto.

Desprendimento dá ibope na televisão. Artistas, esportistas, políticos, magnatas da soja e da pecuária posam de humildes, ao lado de obras sociais, enquanto seus motoristas estacionam sua Mercedez SLK num estacionamento pago. Coberto, é claro.

Tem quem abandona tudo o que tem e voa para o Oriente em busca de seu guru. Depois de aprender a fazer aquele arroz grudento que servem nos mosteiros, raspa o cabelo, faz voto de pobreza, dorme a maior parte do tempo e mendiga comida pela rua por uns 5 anos, até que seu agente liga dizendo que tem uma mega-corporação global querendo comprar seu grupo de madeireiras. O sujeito fica no Tibet com o Dalai Lama enquanto sua empresa serra metade da Amazônia.

Mas tem também quem leva o desprendimento a sério. Deixa de comer carne por dó dos animais. Aliás, passa a comer apenas alimentos orgânicos. Faz manifestação a favor da paz no mundo e longos jejuns para purificar o corpo e meditações para depurar o espírito. Não julga, nem critica, nem tenta convencer ninguém de que está no caminho certo. Só fica com aquela cara irritante de dono da verdade, olhando para nós de forma piedosa do alto de seu pedestais orgulhoso. Possivelmente, você já tenha conhecido alguém assim.

E aí, eu me pergunto se todos fôssemos monges, quem pegaria no trabalho pesado e trataria de alimentar, educar, transportar, divertir, organizar, civilizar esse povo todo que acha que desprendimento é quando soltam o bandido que já cumpriu sua pena e que sonha em ser pobre um dia, porque todo dia é foda!

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