Será que, no fundo, somos todos neuróticos? (declaração de guerra contra a anestesia)

sexta-feira, 19 junho 2009, 21:01 | | 1 comentário
Postado por Fábio Betti 

O que é que está acontecendo com as pessoas para andarem tão nervosas, tão impacientes, tão intolerantes? Outro dia, estava dirigindo quando um carro resolve atravessar o farol vermelho bem na minha frente. Assim que levei uma baita fachada, esperneei, buzinei, xinguei completamente enlouquecido. Fiz isso justamente no momento em que começava a gravar um recado na caixa postal de um amigo. Cinco minutos e ele me liga desesperado. Pensou que eu estivesse no meio de uma briga. Em certo sentido, eu estava mesmo. Para bomba de pavio curto, basta um leve espirro e tudo vai pelos ares.

A definição de neurose é um tanto quanto curiosa: “designação geral dada a qualquer doença nervosa, em especial àquelas em que não se encontra qualquer lesão orgânica, e que se caracterizam por dificuldades de ajustamento social, embora mantidas as capacidades de inteligência”. Definição de dicionário. “Afecção do sistema nervoso”, explica outro.

Qualquer que seja a fonte de pesquisa, neurose é uma doença. Sendo assim, não há o que negar, estamos todos doentes. Seja no campo ou na cidade grande, no centro ou na periferia, há uma epidemia neurótica. E, em diversos casos, ela parece já estar associada a um quadro bipolar, que alterna a esperança cega e a apatia anestésica. Tenho observado com grande preocupação o crescimento desta última…

Estou com o carro parado enquanto aguardo o farol verde, quando se aproxima um mendigo mancando. Dou-lhe umas moedas e, em troca, ganho um sorriso: “Conheço o senhor da onde?” Estupidamente, só me ocorre responder: “Da rua, talvez?” E para minha surpresa, o sorriso abre largamente: “Já sei, é da televisão! O senhor não me engana, é da televisão!” Retribuo o sorriso e continuo meu trajeto. Esse estranho episódio dá um sabor especial ao meu dia. Foi tudo muito simples, despretensioso, mas acho que aquelas poucas palavras que trocamos entre nós e o diálogo de sorrisos nos aproximaram um do outro de uma maneira surpreendente. De repente, aquele homem sujo e com uma perna menor do que a outra era também eu, e ele estava no meu carro com a mão na direção a sorrir para mim, de pé, na rua.

Quando conseguimos nos libertar da anestesia, milagres acontecem. Recebi o link para um vídeo inteiramente gravado com um celular. “Manking is no island”, a espécie humana não é uma ilha. Um amigo que acaba de perder seu sócio, morto em razão de um derrame fulminante, me enviou o e-mail com a dica “assista, vale à pena”. Livro-me momentaneamente da anestesia e coloco o vídeo para rodar.

Em frases curtas, construídas a partir de pedaços de placas de rua e letreiros de loja, o filme faz um paralelo entre duas cidades – Nova York e Sidney. De seus apelos visuais, sua beleza singular, o orgulho que desperta em seus cidadãos, o roteiro pula para além da superfície, para onde ninguém dirige seus olhos ou sua atenção: os moradores de rua, gente que vive da caridade alheia e da bondade do tempo, que pode tanto lhes fritar os miolos quanto os matar de frio. Gente, porém, não muito diferente da gente.

E as imagens registram closes, olhares que também são tão nossos que me levo pelo ímpeto de enviar o vídeo para todo mundo que conheço. Ainda ligo para perguntar: “E aí, assistiu? O que achou?” Em resposta, recebo muitos e-mails de gente que se incomoda quando vê qualquer injustiça e que, de alguma forma, também conseguiu romper sua paralisia.

Na teoria da psicologia analítica de Jung, a neurose é resultado do conflito entre duas partes, sendo uma consciente e outra inconsciente. A única forma de curá-la é, portanto, trazer consciência à parte inconsciente. Em outras palavras, é preciso acordar desse estado letárgico que todos nós conhecemos tão bem, e começarmos a agir. O movimento nos faz muito ocupados, e quem se ocupa de um movimento em direção ao bem coletivo, não tem tempo nem disposição para ficar doente. Torna-se imune a todo o tipo de neurose.

Um comentário para “Será que, no fundo, somos todos neuróticos? (declaração de guerra contra a anestesia)”

  • Giovana disse:

    adorei a reflexão. sair da inércia diária é um desafio e tanto! seu texto obrigou os meus músculos faciais a esboçarem um sorriso de canto de boca…

Comentário

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