Saudades de um outro que já morreu

sábado, 27 junho 2009, 19:14 | | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

25 de junho de 2009. Daqui a alguns anos, esta data será lembrada como o dia da morte do maior músico pop de todos os tempos. Michael Jackson, “The King of Pop”, como ele mesmo gostava de ser chamado, surpreendia com seu talento na composição, interpretação e encenação de hits de sucesso instantâneo. E surpreendia mais ainda por uma vida pessoal marcada por uma sucessão infindável de aberrações.

Quando soube de sua morte, lamentei a perda de um valor inestimável da cultura pop, a exemplo do que já fiz por outras celebridades que tenham deixado alguma contribuição importante para a humanidade. Mas, diferentemente do que pareceram demonstrar seus fãs de verdade, não foi por ele que chorei. Chorei por outra pessoa, alguém já falecido há muitos anos. Chorei pelo adolescente que fui um dia e que contou com a companhia de Michael Jackson durante a maior parte de sua vida.

Ainda criança, lembro-me de me emocionar com uma outra criança cantando a doce e delicada “Ben”. Aquele garoto negro, de cabelo black-power, rapidamente se tornou meu ídolo. Tanto é que, no auge da adolescência e, mesmo que ainda contagiado pela febre dos embalos de sábado à noite, eu gostava mesmo era de dançar ao som de “Off the Wall”. E ainda tenho a imagem nítida do dia em que, reunidos em casa, assisti com minha família o lançamento mundial de “Thriller” no Fantástico. Desde então, nunca mais consegui ficar quieto quando ouço, por exemplo, “Billie Jean” ou “Beat it”. Michael me acompanhou por todos esses anos. Vivi baladas inesquecíveis e curti muita fossa ao seu lado.

A morte do ídolo deste adolescente me lembrou que ele também já havia morrido. E, assim, foi como se me visse obrigado, de uma hora para a outra, a rememorar a lembrança dessa morte sem luto, esquecida em algum lugar do meu passado. Como a vida de Michael, o tempo desse adolescente já passou. Não ficou nada vivo, só recordações, fotos empoeiradas nas paredes de um quarto trancado há muitos anos.

É verdade que o momento presente está sendo fantástico, com descobertas incríveis e transformações sonhadas há muito tempo. Mas fico com os olhos marejados quando repriso essa vida passada nesse filme embalado pelas trilhas sonoras criadas pelo rei do Pop.

Não tenho qualquer vontade de voltar no tempo, mesmo se me dissessem que isso fosse possível. Só que a consciência de saber que esse tempo já passou, que as experiências vividas agora já morreram, que pessoas que protagonizaram minha história ficaram no caminho, tudo isso me causa uma profunda dor, uma sensação de perda que nada parece confortar.

E aí me lembro que Michael se foi e agora talvez esteja novamente ao lado desse adolescente, só que, desta vez, no único lugar onde o tempo não existe e se pode, finalmente, ser criança para sempre.

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