Escrito por Jonathan Coe
Ao lembrar recentemente desse período com um amigo escritor, concordamos que conseguimos errar tudo de modo espetacular. Erramos a leitura dos sinais. Nos reinventamos como machos sensíveis, empáticos e não predatórios – e sem dúvida nos tornamos pessoas melhores com o processo. Adquirimos a reputação de bons ouvidores, conselheiros sábios, ombros úteis para o choro.
As mulheres me procuravam para conversas consoladoras enquanto eram maltratadas por seus namorados insensíveis. Perceba, no entanto, que eram esses mesmos namorados que acabavam indo para a cama com as mulheres com regularidade e não este ser carinhoso e sábio. Com certeza era algum erro – sempre pensei nisso enquanto a última cliente satisfeita deixava minha clínica e partia para uma noite de sexo fantástico com seu parceiro inadequado e ralo.
Acho que não estou sozinho em minhas confusões com a masculinidade ¬ estou na companhia dos outros machos pensantes do país. O fiasco do Novo Homem levou ao nosso estado atual, em que a política sexual se parece com a política nacional britânica: confusa, moribunda e sem rumo.
Não será hora de recuperar um pouco da essência, verificar se existiam virtudes no bebê que jogamos fora com a água chauvinista?
Dois pontos levaram a essa pergunta. O primeiro foi minha pesquisa para a biografia de B.S. Johnson. Todas as mulheres que entrevistei, que o conheceram e o namoraram, falavam das mesmas qualidades: sua bondade e sua consideração à moda antiga. Isso me trouxe uma memória, que é o segundo ponto: a minha primeira namorada. Sempre que eu visitava a sua casa, precisava agüentar a figura assustadora de seu avô sentado numa cadeira de rodas. Ele tinha sofrido um derrame, não conseguia falar muito bem, e eu sempre me enrolava ao tentar uma conversa. Por semanas fiquei convencido de que ele não gostava de mim e uma noite ouvi uma conversa dele com minha namorada. Era uma conversa séria e importante. Talvez sabendo que não sobreviveria por muito mais tempo, dava sua bênção ao relacionamento. “Ele é um cavalheiro”, repetia. “Ele é um bom rapaz – é um cavalheiro.”
Fiquei eufórico depois de ouvir aquilo. Sabia que era o maior elogio que ele poderia fazer. Nunca entendi o que queria dizer. Ou talvez entendi, e me esqueci desde então. Como todos os outros.
Jonathan Coe é escritor inglês, autor de What A Carve Up! e The Rotters Club