Desde que inventaram a religião, qualquer um pode comprar sua quota de iluminação. A Igreja Católica chegou a vender um negócio chamado carta de indulgências, que dava direito a seu portador de passar pelas portas do Céu. Hoje em dia, as “novas” igrejas prometem mandar o diabo de volta para o Inferno e indicar o caminho do Paraíso aos fiéis que tiverem com seu dízimo em dia. Mas, afinal, é realmente possível a iluminação?
Justiça seja feita: não é só a Igreja que comercializa esse produto tão almejado. Os livros de auto-ajuda nunca venderam tanto. Seus autores viram estrelas da noite para o dia, cobram fortunas para dar palestras e, a cada dia, mais gente garante que mudou sua vida depois de ler esse ou aquele livro. Mas será que uma reza ou um livro tem realmente o poder de mudar a vida de alguém?
Por tudo o que já vi e li, mas, especialmente, por minha própria experiência, não acredito que ninguém atinja a iluminação por causa de nenhum fator externo. Afirmo isso porque simplesmente nada de fora é capaz de mudar a vida interior de alguém. Exemplos é o que não faltam, mas, para não parecer que estou especulando, vou usar apenas os que eu mesmo vivi.
Fiquei anos lutando para abandonar o cigarro. Passei por tratamentos de acupuntura, terapia, adesivos e até chiclete de nicotina. Cheguei a ficar 4 meses sem fumar quando usei os adesivos. Mas foi só parar de usá-los, e, devagarinho, fui voltando a fumar. Aliás, todo mundo que para de fumar e resolve dar “ só uma tragadinha para matar a saudade”, acaba, invariavelmente, retornando ao vício. Inclusive, costumava dizer que parar de fumar não era problema algum para mim. Eu havia parado várias vezes. O problema era continuar parado. Sabe como é que eu consegui tal proeza? Simples: olhei para meu filho, que acabara de nascer, e me perguntei: “caraca, como é que esse cara vai crescer se não puder contar mais comigo?” E aí montei um plano… Viajamos para uma casa no meio de lugar nenhum para passar 20 dias, com a padaria mais próxima a uns 20 quilometros. Só levei um maço de cigarros, que durou dois dias. Desde então, nunca mais coloquei um cigarro na boca, e meu filho já está com 12 anos. Mas o que me fez de fato tomar a decisão não foram minhas novas responsabilidades paternas. Claro que aquele bebê perfeito e indefeso era um tremendo estímulo, mas o que fez a diferença mesmo foi minha consciência.
Recentemente, por força de um novo negócio que estou montando com um amigo, acabei tomando contato com muitos textos e filmes do mundo vegetariano. Depois de assistir a um documentário mostrando, em detalhes, o processo de produção de carne, nunca mais consegui colocar um bife ou um reles peito de frango grelhado na boca. Pelo visto, as imagens dos franguinhos “defeituosos” sendo descartados e do abate brutal de bois e porcos ficaram gravadas em minha retina para sempre.
Não vou nem entrar nos detalhes das cenas que presenciei, pois podem ferir estômagos mais sensíveis, mas o fato é que, depois que tive consciência do que acontecia para aquela suculenta peça de picanha chegar ao meu prato, não consigo mais olhar para ela sem associá-la às crueldades que são cometidas contra o dono original daquele pedaço de carne . Pois é, pode-se dizer que, nessa questão, consegui me igualar, em iluminação, a qualquer monge budista. Em outras palavras, eu era feliz com meus churrascos aos fins de semana e, por culpa da tal consciência, o máximo que chego hoje é de um peixinho grelhado, com salada, é claro. A consciência é realmente uma merda.