Quando está parado no semáforo, a garota lhe entrega a propaganda de um novo empreendimento imobiliário, para pessoas especiais como você. A televisão apresenta o carro especialmente feito para você. Cliente especial, cheque especial, até o molho que acompanha o hambúrguer da lanchonete é especial. A cobertura do sorvete, a roupa, o especial está em tudo e em todos. Mas será que alguma coisa ou alguém pode realmente ser especial em um mundo onde tudo é especial?
Estou em casa trabalhando, quando recebo um envelope. Um envelope branco, sem marca de nenhuma empresa , coisa rara hoje em dia. Procuro o destinatário e encontro o nome escrito à mão da gerente do banco onde acabei de me tornar correntista. Um post it colado no ingresso para um concerto traz um econômico “espero que você e sua esposa gostem do espetáculo”. Procuro mais algum papel dentro do envelope e acho outro ingresso. E sól
Apesar de já ter participado, como profissional de comunicação, na criação de muitas ações de marketing de relacionamento, esta é a primeira vez que me identifico com o público-alvo. Sinto-me imediatamente comovido. Lembro que se trata de uma ação premeditada, longe de qualquer gesto espontâneo. Mesmo assim, resolvo enviar um e-mail de agradecimento. Tento transmitir um pouco de minha surpresa com o gesto e confesso que me senti, de fato, especial. Em poucos minutos, chega a resposta: “nossa, Fábio, que linda mensagem… Já valeu a pena vir trabalhar hoje.” Mantive as reticências originais. As reticências já foram utilizadas um dia para avisar o leitor que a sentença continua, não no texto, mas na imaginação de quem escreve e de quem lê. Percebo, no entanto, que as reticências da mensagem que recebi são do segundo tipo, o tipo que consagra atualmente o recurso, para expressar algum tipo de emoção – surpresa, solidão, raiva, saudade…
Escrevo um reticente “agora somos dois…”. Minhas reticências aqui querem dizer: dois que se sentem especiais. Especial de mim que recebo convites para um concerto. E especial de quem recebeu de volta meu agradecimento sincero.
O envio dos convites estava previsto no manual da gerente, e um e-mail ou telefonema de agradecimento figura em qualquer manual de boas maneiras, escrito ou não. E, mesmo aparentando meramente reproduzir rituais formais, duas pessoas se sentiram especiais.
Por que, de vez em quando, vivemos experiências como essa? O que nos faz resistir ao automatismo de nossos condicionamentos sociais quando, de fato, nos conectados com alguém? No meu caso, alguém que eu mal conheçia. Só tivemos um único encontro pessoal, uns poucos contatos telefônicos e trocas de e-mails restritas a questões cadastrais.
Apesar de tantos fatores contrários, duas pessoas se sentiram especiais naquele instantâneo destacado de seus viveres cotidianos. Elas se sentiram especiais no convívio, na relação, único lugar possível onde as coisas deixam de ser meras coisas para ser alguma função e, assim, ganhar valor. “A mesa só existe no ‘mesear’”, me atormenta o mestre Maturana, inventando moda, ou melhor, linguagem. Penso que talvez ele esteja mesmo certo: precisamos de uma nova linguagem, pois as palavras que conhecemos se desgastaram e se banalizaram. A gente ama alguém, mas também ama um programa de televisão, como ama uma comida ou uma roupa ou um lugar.
Para que possamos consumir produtos, nos agrupam em blocos, de preferência, com o maior número possível de pessoas, e todas, sem exceção, são chamadas pessoas especiais. O mercado nos fez a todos igualmente especiais e, com isso, destruiu o que, de fato, há de especial em nós: nossa identidade única.
Sinto-me repentinamente feliz, como se tivesse descoberto algo importante. Será que é esse o segredo da felicidade? Bastaria reconhecer essa identidade única, esse algo verdadeiramente especial em nós, nossa individualidade inimitável, e pronto: felicidade instantânea! Depois, como que por osmose, começamos a fazer isso com todas as pessoas com as quais topamos enquanto caminhamos no zigue-zague da vida. E, na relação que travamos, seja curta ou longa, profunda ou superficial, se estamos conectados com o que há de especial em nós, estamos com as lentes certas para enxergar o especial no outro.
De alguma forma, minha gerente do banco despertou em mim esse olhar para o que tenho de especial. E, quando me vi cara a cara com ele, é como se também estivesse olhando para o especial que havia nela. O processo é contagiante, circular, crescente. Todo mundo gosta de se sentir especial. Nada mais natural, portanto, de retribuir a quem nos faz sentir assim na mesma moeda.
É meu caro … gentileza gera gentileza. E de fato entendo e concordo que a sensibilidade do gesto emociona e faz a corrente seguir.
Só fico me perguntando porque o mesmo banco não enxerga todos os seus clientes especias da mesma maneira. Isso me leva a pensar que há sempre alguma pessoa que é mais especial que outra, algum cheque que é mais especial que outro …
Mas não sejamos o chato de plantão. É muito mais legal fazer parte da corrente do que ficar assistindo.
grande abraço
Your friend