Acaba de surgir uma nova modalidade de gente pegajosa: o “chicletweetter”

domingo, 02 agosto 2009, 22:30 | | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

Você nem conhece a pessoa e ela já apóia a mão no seu ombro com a maior intimidade. Descobre onde você está nas redes sociais e deixa mensagens como se fosse um velho amigo. Diz para seus contatos mais próximos que te conhece e usa essa relação fictícia para se promover. Se você tem alguém assim lhe assediando nesse momento, diga bem alto para o grudento ou grudenta: sai da minha aba, sai pra lá!

Tem gente que me viu uma única vez, em um ambiente público, troca duas ou três palavras comigo, e, quando de repente me encontra de novo, já vem logo sem cerimônia: “Fabão, como estão as coisas?” Fabão? Só me chama desse jeito quem é realmente meu amigo – e, mesmo assim, só alguns poucos mais chegados se sentem á vontade em empregar o aumentativo, que, aliás, eu também uso, apenas com quem conheço mais intimamente, é claro!

Esse povo que gruda na gente sem ser convidado é uma praga que sempre existiu, mas parece que hoje, quando aumentamos incrivelmente nosso grau de exposição por meio da Internet, ele se sente muito mais à vontade para atuar. Com detalhes íntimos de nossas vidas escancarados, os grudentos estão se transformando numa verdadeira pandemia. Também: é tanta porta aberta para se refestelar, que eles não têm trabalho algum para colar nas nossas costas.

Um dos ambientes onde os grudentos, certamente, fazem ponto, é o Twitter. Só para ficar em exemplos brasileiros, Marcelo Tas, “digital broadcaster, blog author and TV anchor”, como ele próprio se define, tem mais de 210 mil seguidores – pessoas que, desde que o escolheram como um de seus “gurus digitais”, não perdem mais um de seus comentários – ou “tweets”, para os íntimos. Por exemplo, Rodrigo Oliveira, que assina @ferbaa, pergunta a Marcelo Tas: “você poderia nos explicar melhor o por que de achar Saramago medíocre?” Ao que Tas responde: “Tá nos comentários do blog. Obrigado.” Em outras palavras: ô @ferbaa, vai lá no meu blog, que eu tô sem tempo procê hoje, viu? Aliás, são só 140 toques para responder o por que de alguém achar Saramago medíocre. É muito pouco para falar de um escritor com uma obra tão rica e complexa! Não para o Twitter, é claro, o lugar dos “filósofos surfistas” – só ficam na superfície – e de seus grudentos seguidores – fazem de tudo para serem citados pelos Marcelos Tas da vida, e poderiam morrer em paz caso tivessem algum de seus comentários retransmitido – “retweetado” ou “RT”, para os íntimos – pelo guru.

Se Tas é o “imperador dos chicletweeters” – grudentos , para os íntimos -, Rosana Hermann é a “rainha do tweeterexibicionismo”. Apesar de ter “apenas” pouco mais de 28 mil seguidores, a mestre em física nuclear e escriba (?), como ela própria se define em seu perfil, parece ter um publicador de “tweets” ligado diretamente a sua língua – se fosse ligado ao cérebro, escreveria muito menos bobagens. Por curiosidade, em um domingo, dia que, para a grande maioria, pede cachimbo, ou seja, descanso, a moça chegou a postar 43 “tweets”. Em outras palavras, em um espaço de 24 horas, 28 mil pessoas receberam 43 comentários diferentes de uma única fonte – coisas do tipo “Psiquiatra na novela Caminho das Indias fez discurso defendendo o direito do corno manso q prefere não ver p/ continuar sendo feliz.”

Isso me faz pensar que, no novo mundo da Internet, as relações estão se tornando co-dependentes. De um lado, a turma que adora se exibir e de outro a turma que adora olhar no buraquinho da fechadura. Os “chicletweeters” parece que estão ora entre os exibicionistas, ora entre os voyeurs – porque na mesma medida em que existem seguidores do tipo chiclete, existem “twitteiros” – publicadores de conteúdo, para os íntimos – que não viveriam sem que estivessem grudados a uma platéia e, de preferência, uma platéia grande e barulhenta.

Eu, que me “entwittei” há pouco tempo – só para entender para que servia -, já me vejo ansioso quando passo mais de meio dia longe do computador. Sinto até que já dei alguns escorregões do tipo “chicletweeter” – confissão que me causa calafrios. Como disse a própria Rosana Hermann em um de seus 19.150 “tweets” – na contagem atualizada em 02/08/09 – , “ninguém resiste. Um diz que vai sair do Twitter. E volta. Outro diz que vai matar o blog. E volta. Então, assuma q é dependente e seja feliz.” Será mesmo?

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