Resolvi pedir ajuda para alguns amigos, mas apenas uns poucos tiveram coragem ou interesse em compartilhar suas sugestões para nosso “jogo da verdade” e, mesmo assim, me fizeram jurar de pé junto que eu não revelaria, nem sob a mais terrível tortura, suas identidades. Isso dá uma dimensão do tamanho do problema…
“Ela acha que eu nunca a traí, mas saí com tantas mulheres que já perdi a conta”, confessa um amigo casado, que acrescenta que, na maior parte das vezes, as mulheres são garotas de programa. “É só para relaxar, uma transadinha à toa, mas se eu contasse isso para ela, tenho certeza que jamais seria perdoado.”
“Um monte de coisas me incomoda nela, mas ela acha que o problema é o cabelo ou a celulite. Não conheço uma única mulher que, depois de uma certa idade, não tenha celulite. Já o cabelo, ela vive mudando a cor, o penteado… no fundo, o cabelo é um problema dela que ela tenta transferir para mim!” Esse outro amigo fala que o que o incomoda mesmo na namorada é o fato de, vez ou outra, ela bisbilhotar sua intimidade, dando uma olhada em suas faturas de cartão de crédito e e-mails. Ele diz apenas que gostaria de falar para a mulher que, se a fosse trair, algo que ele afirma nunca ter feito, não iria deixar pistas para ela descobrir. “Quando saio com os colegas do escritório, ela fica me ligando de cinco em cinco minutos, para saber se eu estou mesmo com eles no bar. Ela não saca que, se eu quisesse ficar com outra mulher, faria isso na hora do almoço ou inventaria uma reunião com um cliente.”
“Seu ciúmes ainda vai acabar com nosso relacionamento!”. Na mesma linha, outro amigo diz que não suporta mais a mulher na cola dele. Só estaria faltando a última ameaça: “Ou você para com esse ciúme doentio ou vou embora!” E ainda comenta que outra coisa que não agüenta é quando a mulher começa a falar em diminutivos, tanto com ele quanto com outras pessoas. E eu diria que também me incomodo profundamente com isso! Mulher que fala de forma infantil faz qualquer homem perder o tesão e, às vezes, a paciência também. O mesmo sujeito ainda diz que sua esposa tem um pouco de buço e, raramente, resolve depilá-lo. “Como é que vou explicar para ela que não tenho atração por mulher de bigode? Às vezes, tento levar isso de maneira mais leve, na brincadeira, mas ela logo se ofende!”
Eu também teria muitas outras coisas para engrossar essa lista de “coisas proibidas”, mas prefiro dar um outro tipo de contribuição, trazendo algumas coisas que nós, homens, não falamos para nossas esposas, talvez, por medo de sermos considerados menos homens. Vou relacionar essas coisas na primeira pessoa, para que qualquer amigo ou leitor que tiver acesso a esse texto possa se sentir incluído, se desejar isso, é claro.
Eu gostaria que você soubesse que gosto de filmes românticos, mas, às vezes, eles ressuscitam velhas lembranças que me deixam com uma vontade enorme de chorar, e, definitivamente, eu não gosto que me vejam chorando, por mais que, no fundo, eu saiba que isso é algo absolutamente normal.
Eu gostaria de lhe dizer que eu amo você, mas não necessariamente mais do que qualquer outra mulher que eu já conheci ou que eu vá conhecer, e isso não significa que eu não ame você verdadeiramente e com todo o meu coração. É que apenas eu não saberia dizer se você é o amor da minha vida, como você parece querer que eu assuma, se eu ainda não morri e não fiz, portanto, esse balanço para me certificar.
Eu gostaria de confessar o quanto é insuportável ter que defender a fama de garanhão quando estou com meus amigos, sabendo que todos eles se sentem da mesma forma desde que eram adolescentes e mentiam que já haviam comido todas as meninas do bairro.
Eu gostaria de dividir com você a angústia com a qual eu convivo permanentemente pela obrigação de ser o provedor financeiro da família e, mesmo que você ganhasse mais dinheiro do que eu, o que é perfeitamente possível, ainda assim eu me sentiria com essa responsabilidade.
Eu gostaria de lhe contar meus sonhos e meus medos, mas sinto que meus sonhos lhe assustam por serem tão distantes da assertividade e da objetividade que você espera de mim, e meus medos lhe apavoram tanto que eu só ficaria com mais medo ainda, achando que o que eu tenho medo é realmente para ter muito medo.
Mesmo correndo esse risco, eu gostaria, sim, de dizer que tenho muito medo de morrer cedo e não ter tempo suficiente para viajar pelo mundo – coisa que sempre acabo adiando – e não ver as crianças virarem adultos ou os netos correndo pela casa. Aliás, tenho muito medo de morrer de morte violenta, inesperada, mas tenho mais medo ainda de morrer de morte lenta, com todo mundo a sua volta torcendo para ir mais rápido “porque ele está sofrendo demais, tadinho…”
Tenho medo de virar um estorvo para as pessoas, de ter que ser cuidado ao invés de cuidar, de ficar impotente. Tenho medo de avião, por mais que precise dele, pois, você sabe, gosto muito de viajar. E, mesmo morrendo de medo de avião, seguro sempre sua mão toda vez que o avião decola ou aterrissa.
Tenho medo de não conseguir me reencontrar na vida depois que resolvo virar a mesa. Tenho medo de não ter um plano forte o suficiente para transformar meus sonhos em realidade. Tenho medo de sonhar demais.
Tenho medo de dirigir um carro alugado por ruas de uma cidade que não conheço. Tenho medo de falar inglês em público. Tenho medo de passar ridículo. Tenho medo de ser rejeitado por não ser o que as pessoas esperam de mim.
Há, realmente, muitas coisas que eu adoraria falar para você, mas, infelizmente, não me ensinaram que a verdade é o único caminho possível entre duas pessoas que se amam. E, para complicar as coisas, somos todos imperfeitos, o que significa que viver permanentemente sob o Jogo da Verdade implicaria em correr riscos inimagináveis para quem tem tantos medos e não quer, sob nenhuma hipótese, perder você.
Olá Fábio,
Aqui é a Rosana da Antakarana-WHH, fiquei curiosa quando vc comentou sobre seu blog e aproveitando estes dias chuvosos resolvi dar uma espiada e adorei todo o conteúdo, mas, especialmente fiquei encantada com este texto. Parabéns por ser capaz de se mostrar de maneira tão sensível e humana, o homem é realmente um herói solitário. Mais uma vez vc arrasou, assim como no World Café quando contribiu de forma muito elevada com suas colocações.
Um abraço
Rosana
Obrigado, Rosana, pelo carinhoso comentário. É muito bom encontrar gente amiga por aqui. Abraços. Fábio.
Adorei seu texto Fábio! Parabéns! Só confesso que as primeiras verdades eu prefiro ficar sem ouvir. Já as demais, principalmente as que você escreve eu primeira pessoa, eu adoraria que “meu homem” tivesse a coragem de falar! Abraço
Pois é, Alanna, as primeiras “verdades” são realmente uma tremenda paulada! Mas eu acho que é ainda mais difícil para um homem assumir as coisas que eu escrevi na segunda parte do texto. Confessar-se frágil é algo que poucos homens têm coragem. É como se a gente se desse um xeque-mate em nossa masculinidade. Claro que esse ataque é totalmente ilusório, mas como ele “acontece” dentro da cabeça, é como se fosse real. Obrigado pelos comentários. Abraços
eu gostei do seu testo Fá´bio
oi larissa
to precisando de um namorado