É isso mesmo que você leu no título: Dia dos Filhos. O Dia dos Pais deveria ser uma oportunidade para lembrar que só existem pais por causa dos filhos. Ninguém é pai sem que haja, pelo menos, um filho. E se for mais de um, nem por isso é mais pai. Basta um filho e faz-se um pai. Pode ser um filho com a cara do pai, ou um filho com o coração do pai. Do corpo ou do coração do pai, filho é filho, assim como pai é um só. Nada mais justo, portanto, que no Dia dos Pais comemoremos também o Dia dos Filhos.
Fiquei grande parte de minha vida culpando meu pai. Culpava meu pai por ele não ter sido exatamente o profissional vencedor que eu queria para mim. E o culpava também e especialmente por ele não ter dado todo o amor que eu queria. Que amor era esse que me faltava? Na verdade, nem eu mesmo sabia. Mesmo assim, esperava que ele soubesse, afinal, não era ele o meu pai, o super-herói invencível, o homem perfeito, permanentemente justo e generoso, permanentemente à disposição de seu filho preferido? O resultado dessa invenção era óbvio: frustração e mágoa.
A mágoa ou o rancor, já dizia Shakeaspeare, é um veneno que você toma esperando que o outro morra. E a frustração, bem, a frustração é uma doença repentina que nos acomete toda vez que definimos o que tem que acontecer com os outros para que nós sejamos plenamente felizes. De vez em quando, a gente acerta, e uma pessoa, surpreendentemente, corresponde ao que a gente esperava que ela fosse ou fizesse. E aí nos sentimos felizes e realizados. Só que, muitas outras vezes, as pessoas não agem exatamente como desejávamos. “Misteriosamente”, elas se rebelam contra nossos planos. E fazem isso sem sequer conhecê-los! Claro! As pessoas têm que corresponder ao que esperamos delas sem fazer a menor idéia… do que esperamos delas! Esse é o jogo que conhecemos tão bem. Iniciamos nosso treinamento ainda na infância, e ele, o pai, era certamente o cara certo para participar da brincadeira. Além de ser o macho dominante do pedaço, ele é o cara que dorme com sua mãe. Quer imagem mais odiosa do que essa? Para um filho, toda mãe é santa. Santa Maria é mais do que uma personagem da história. Ela é a alegoria da mãe desejada. E o pai “só” precisa ser, tipo, O Pai! E, que se saiba, Deus não é de ficar dormingo com nenhuma santa por aí. Portanto, se esse sem-vergonha anda pegando sua mãe, ele está certamente longe, muito longe de ser O Pai.
A única maneira que encontrei para sentir na pele as desventuras sofridas pelo pai se deu quando chegou minha vez de tomar meu lugar na linha do tempo. Ser pai foi a melhor forma de entender o meu pai.
Meus filhos são os caras mais incríveis que conheci em toda minha vida. Todas as noites, na hora de dormir, não importa o dia da semana ou se estamos em casa ou viajando, eles me dão um beijo de boa noite e, espontaneamente, todas as noites mesmo, dizem: “pai, você é o melhor pai do mundo”. Dizem assim mesmo: “você é o melhor pai do mundo”. Não dizem Pai, mas só pai. Porque se fosse Pai, não haveria possibilidade de comparação. Só há um Pai. Logo, não é possível para ninguém nesse mundo – e provavelmente no outro – ser o melhor Pai do mundo. Pai só tem um e ponto final. Mas pais há muitos. Ser o melhor entre todos os pais, portanto, é uma distinção que nem o Pai pode ter. Inquestionavelmente, é coisa das grandes.
E, assim, fazem os meus filhos: me colocam lá em cima, acima até de Deus! Como posso me sentir? Bem, sinceramente, não adianta tentar explicar, pois só mesmo um outro pai entenderia, e todo pai sabe o que isso significa sem precisar de qualuqer expicação.
Sendo pai, eu conheço o meu pai. Ser pai é a melhor forma de homenageá-lo, de agradecê-lo. Agradecer por todas as vezes que ele perdeu a paciência e, de repente, foi mais duro do que o devido. Agradecer pelas muitas demonstrações de fragilidade, invariavelmente disfarçadas, dissimuladas por um desviar de olhos, um cisco fictício, um silêncio profundo. Agradecer pelas explosões que irrompiam quando aparecia o medo e a insegurança, e pelas retiradas estratégicas quando o circo pegava fogo e o rei das selvas se via, de repente, acuado. Agradecer por todas as imperfeições, todas as injustiças, todas as ausências, todas as fraquezas. Tudo isso fez de mim mais forte. Tudo isso fez com que eu colocasse os pés no chão e aprendesse que a perfeição é uma utopia. Tudo isso, no entanto, foi muito pouco perto de uma coisa que só mesmo um pai é capaz de dar. Nâo há nada de mais valioso do que esse presente, porque esse é um presente que só pode ser dado por um Pai.
Gostaria de agradecer, portanto, ao meu Pai, o melhor pai do mundo, pela vida que ele me deu. E não há nada que eu possa fazer que seja capaz de retribuir esse presente. A não ser, é claro, continuar essa história, colocando mais uma tábua na ponte, dando mais um passo na travessia.
Aos filhos, portanto, chegou o dia deles, o Dia Dos Filhos. Um dia para eles lembrarem que são a prova maior do poder do ser humano: o poder de ser Pai. Os Filhos são a obra mais perfeita Dele. Nada mais justo do que comemorar com tudo o que se tem direito.
Muito legal. Obrigado por me alertar que só existe dia dos pais, porque existem filhos, aparentemente óbvio, principalmente nos primeiros dias de agosto.