O governador de São Paulo, José Serra, twitta. O professor Pasquale twitta. O pessoal do CQC twitta. O técnico do Corinthians, Mano Menezes, twitta. Até o físico e best-seller alternativo Fritjof Kapra twitta várias vezes ao dia. Minhas sobrinhas adolescentes twittam. A mãe delas, minha irmã, também. O que está acontecendo nesse mundo que as pessoas estão todas twittando? Para se ter uma idéia do fenômeno dessa nova rede, faça um teste: pesquise a palavra twitter na ferramenta de busca Google e veja o que acontece.
A página do Twiiter no Brasil aparece entre os primeiros lugares da busca. A exemplo do que se deu, alguns anos atrás com o Orkut, agora chegou a vez do Twitter cair no gosto do brasileiro. Na definição do Wikipedia, o dicionário digital global que desbancou os dicionários convencionais ao permitir atualizações permanentes por meio de uma rede quase infinita de colaboradores, o Twitter “é uma rede social para microblogging que permite aos usuários que enviem e leiam atualizações pessoais de outros contatos (em textos de até 140 caracteres, conhecidos como “tweets”), através da própria Web, por SMS e por softwares específicos instalados em dispositivos portáteis”. Ainda segundo o Wikipedia, “desde sua criação em 2006 por Jack Dorsey, o Twitter ganhou extensa notabilidade e popularidade por todo mundo, superando a marca de 11 milhões e meio de contas em maio de 2009.” Aposto que esse número já dobrou enquanto escrevo este post. Aliás, pProporcionalmente, o Brasil já é líder em participação no Twitter, de acordo com pesquisa divulgada em julho pela Nielsen Online. Cerca de 15% dos internautas brasileiros usam o serviço de microblog, além de passarem mais tempo no site: em média 36 minutos por mês.
Mas… o que explica o novo fenômeno? Como jornalista de formação e um curioso nato, resolvi aderir à nova ferramenta em busca dessa resposta. Postei timidamente quatro tweets em abril e maio e, de repente, de junho a agosto, já foram mais de 230! Trata-se, no entanto, de uma média pequena para os padrões de tweeteiros mais experientes. A apresentadora de televisão Rosana Hermann já postou mais de 19 mil tweets e coleciona uma rede de seguidores de quase 30 mil pessoas. Outro profissional da televisão e reconhecido blogueiro, Marcelo Tas, acumula 230 mil seguidores! É mais do que muito bispo de igreja evangélica! O que faz com que esse mundaréu de gente escolha segui-lo é uma pergunta difícil de explicar, mas, depois que inclui em minha rotina o hábito de twittar, acabei criando minhas próprias teorias.
Para começar, não existe uma regra comum. Tem gente que twitta como se estivesse listando suas atividades diárias em um diário. Minhas sobrinhas fazem isso, e alguns adultos que, talvez, não tiveram espaço para fazer seu diário na época da adolescência, também usam o Twitter para contar aos outros sobre sua rotina. A twitteira profissional Rosana Hermann, por exemplo, foi passar o feriado do Dia dos Pais no litoral norte e não só resolveu contar isso para todos os seus seguidores como ainda incluiu fotos de sua viagem – das condições da estrada à temperatura da água!
Vejo muita gente usando essa ferramenta como vitrine, e aí o Twitter é, de fato, um recurso fantástico, na medida em que pode ser usado com a mesma função das manchetes de jornais. Em poucas linhas – no máximo, 140 toques, esta é a regra! -, você chama a atenção para alguma idéia, sua ou de outra pessoa, e, se quiser aprofundar, cola um link para alguma página da Internet. Esse procedimento virou padrão, e a maioria das pessoas que conheço no Twitter já fez ou faz isso com regularidade.
Tem também os frasistas. Kapra é, certamente, um deles, mas o mais divertido mesmo é acompanhar Millor Fernandes, que usa a ferramenta como uma espécie de veículo para “haikais digitais” como esse: “o solteiro é uma espécie de rato que pensa poder comer o queijo sem cair na ratoeira”.
Os humoristas comparecem em peso, recriando o “stand up comedy” em pílulas e tirando proveito de sua super-popularidade para fazer gincanas-relâmpago, como esta lançada pela “nova celebridade” Danilo Gentili, do CQC: “A resposta mais original e engraçada ganha RT: ‘O Danilo Gentili é tão desprezível que…” Explicando… para quem não conhece, “RT” é a sigla para “Retweetar”, expressão utilizada para retransmitir para sua rede de seguidores o post de alguém que você segue. Em outras palavras, o prêmio que Danilo iria dar ao vencedor da frase mais criativa era divulgá-la a todos os seus mais de 200 mil seguidores! Ou seja, ao vencedor, as batatas da fama!
E aí vem a grande questão: o que se ganha participando de um movimento como esse? Tem os que acreditam que ferramentas como o Twitter só ampliam o poço entre as pessoas, enquanto outros afirmam justamente o contrário, que se tratam de experiências que provocam uma maior troca e interatividade nas relações humanas. Prefiro acreditar que as duas hipóteses estão corretas – as pessoas com maior dificuldade de se relacionarem encontram nas redes sociais mais uma alternativa para se manterem fisicamente distantes umas das outras, enquanto que as que gostam de relacionar-se ampliam de maneira ágil e bastante simples sua rede de contatos.
Como qualquer tecnologia, o Twitter tem polaridade neutra. Ele é bom ou ruim a depender do que se faça dele, e isso é o que há de mais importante a entender. O resto…bem, o resto é a velha e conhecida vida que corre lá fora, vida concreta, percebida e vivenciada com todos os sentidos. E, não adianta o que digam, ainda não criaram nenhuma invenção digital capaz de simular à perfeição um abraço apertado ou um beijo molhado . Citando a colega twitteira Rosana Hermann, em um tweet onde ela reclamava da baixa qualidade de seu serviço de conexão à Internet, “ o bom é que, na natureza, os pássaros twittam offline”.