Notas de um aprendiz de biólogo cultural em expedição pelo Peru

domingo, 06 setembro 2009, 03:43 | | 7 comentários
Postado por Fábio Betti 

foto_aberturaPlanejei essa viagem ao Peru com quase 6 meses de antecedência. Não que eu tenha planejado exatamente cada detalhe da viagem – tanto é que, apesar de uma agência ter feito isso para nós , acabei me interessando para valer pelo roteiro apenas quando ele começou a fazer sentido para mim, ou seja, quando os movimentos de um lado para outro se fizeram necessários e os lugares se materializavam ao longo de nossa expedição. As palavras “nós” e “nossa” foram propositalmente escolhidas para ilustrar, já na introdução, que, embora a idéia inicial fosse fazer uma viagem solitária, minha esposa também acabou entrando no pacote, o que, aliás, acabou resultando em aprendizados importantes e surpresas muito agradáveis.

Embora faça parte de meu estilo a elaboração de textos que se desenvolvam como um rio – tortuoso, porém ainda um rio -, onde as idéias evoluem dentro de uma linha clara de inter-relacionamentos, minha proposta aqui é simplesmente registrar algumas das notas que colhi ao longo da viagem, deixando, desta vez, o exercício de conexão a cargo do leitor. Não se trata, portanto, de propor um texto atraente e muito menos curto, do tipo que é apropriado para um blog. Embora as situações vividas possam até serem consideradas corriqueiras, a maneira como elas são abordadas inspira-se na Biologia Cultural criada pelo biólogo chileno Humberto Maturana. Para mais informações sobre o pesquisador e suas idéias, consulte www.matriztica.org.

Angústia causada por fundamentos desconhecidos

No aeroporto de Guarulhos, logo que chegamos ao balcão do check-in da companhia aérea – escolhemos a TAM pura e simplesmente porque tínhamos umas milhas para usar -, ouvimos da funcionária que realizava o check-in a informação de que havia uma restrição adicional com relação ao peso da bagagem. Só pelo cruzar de olhos entre eu e Cláudia, deu para sacar que ficamos os dois meio apavorados com essa informação. O avião estaria com algum problema? As condições do vôo estavam prejudicadas? Depois de uma espera de minutos que, para usar uma expressão desgastada, pareceram intermináveis, finalmente, chegamos ao balcão já indagando sobre os motivos da restrição. Com a voz e o semblante absolutamente tranqüilos, a gentil funcionária explicou que, apesar de tratar-se de um vôo internacional, como o aeroporto de Lima era pequeno, o avião também era menor e, em razão disso, possuia um compartimento para bagagens menor. Depois dessa explicação, que fez sentido para nós ou, simplesmente, nos trouxe a segurança desejada, e, portanto, foi aceita como um fundamento real, pudemos seguir viagem embevecidos por uma prazerosa sensação de alívio.

A intolerância ao erro

Já a bordo do avião, aquela chatice de preencher os formulários de imigração e da Aduana ficam, como de praxe, a cargo de Cláudia. Alego que minha letra é feia, quase que ininteligível – o que é verdade – e ela acaba aceitando o argumento ou, pelo menos, parece aceitar. Acontece que não viajamos ao exterior com uma freqüência suficiente a ponto de nos transformar em “turistas profissionais”, o que significa que preencher esses formulários é sempre uma tortura. Nunca entendemos exatamente o que todas aquelas perguntas e campos significam. Desta vez, a questão que obrigou minha esposa a reescrever o formulário da Aduana foi algo que parecia óbvio para mim – qual o país de origem? O Brasil, é claro! -, mas não para ela, que preencheu a resposta com… Peru! Minha primeira reação foi do tipo “meu Deus, santa burrice!” E aí me lembrei de uma frase de Maturana: “quando você não aceita a imperfeição do outro, o convida para mentir.” Mudei de postura rapidinho…

Como é difícil estar no presente

Ainda dentro avião, quando lia um trecho sobre ética do livro “As Paixões do Ego”, lembrei-me de um dilema que vivi em minha empresa e, de repente, como se eu pegasse uma carona na máquina do tempo, me vi transportado para esse outro momento e esse outro lugar, onde a situação lembrada se deu. O curioso é que eu continuava lendo o livro, mas minha cabeça – e a sensação era de que meu corpo também – estava revivendo esse passado. Resultado: não entendi absolutamente nada do que havia lido. Tive que recomeçar do ponto onde minha imaginação me levou para longe de onde eu estava, longe do presente. Mais uma frase de Maturana: “Para estar inteiro e presente onde se quer estar, é necessário se desapegar de outros espaços e momentos do viver, que não estão acontecendo naquele momento.” E o cara, cruelmente, ainda acrescenta: “Como viver de maneira prazerosa se você não vive no momento em que vive?”

A primeira imagem, a gente não esquece

Chegar em Lima pelo ar pode ser uma experiência assustadora, especialmente, se você vai para lá numa época do ano onde a neblina toma conta da cidade – pelo que ouvi, na verdade, parece que são poucos os meses que que essa condição se modifica.

O avião já está voando baixo e tudo o que você vê é uma espessa camada de nuvens. De repente, mergulhamos nesse mar de neve e, em poucos segundos , já estamos pousando. A primeira impressão que se tem é que a cidade está submersa na poluição. No trajeto do aeroporto ao hotel, esta tese se torna mais forte, na medida em que, além da calota de fumaça que se espalha por todas as direções em que se olhe, a quantidade de carros circulando pela cidade é uma coisa difícil de explicar. O trânsito parece absolutamente caótico, lento, truncado. E aqueles carros todos, na maioria, muito velhos, cuspindo fumaça descontroladamente, somados às inúmeras industrias espalhadas por toda a orla, pareciam ser fatores suficientes para justificar o fenômeno.

Quando ainda estávamos estruturando nosso sistema de validação dessa teoria, no momento exato em que saboreávamos um delicioso “cebiche” de linguado, com seu aroma picante abrandado pela dulcíssima Inca Cola, em goles alternados com a nem sempre gelada cerveja Cusqueña, recebemos de Lucio, nosso guia em Lima, a explicação de que aquele fenômeno, na verdade, era causado pela enorme diferença de temperatura entre o oceano e a terra. A explicação fazia sentido, afinal, estávamos no Pacífico, onde a água é para pingüins, focas e “surfers addicted”. No entanto, ao contrário do “cebiche”, a justificativa acabou não descendo redonda na medida em que, intimamente, lembrei-me de San Diego, onde meu irmão mora. A cidade também é banhada pelas águas geladas do Pacífico, a temperatura em terra, especialmente no verão, é bastante alta, e nunca ouvi falar de a cidade, sequer ocasionalmente, ficar mergulhada nas nuvens.

Culto à morte

foto_museu_do_oroImagine um museu chamado “Museo Oro del Peru”, onde se pode ver, num mesmo espaço, a riqueza do que se encontrou nas tumbas dos incas e de civilizações que existiram há mais de mil anos antes destes, e armas de todo o tipo, incluindo algumas presenteadas por Hitler, Franco e Mussolini. Não me lembro o nome do guia que nos acompanhou nesse museu, porém eu e Claudia concordamos depois que o homem tinha um olhar meio estranho, quase que psicótico. Ele parecia se orgulhar de coleção tão bizarra e chegou a se mostrar indignado quando, perguntados sobre como era o brasão das forças armadas brasileiras, simplesmente demos de ombros. Só faltou dizer: “brasão? O que é isso?” E ele, todo orgulhoso, descrevendo minuciosamente, não apenas o brasão peruano, mas o de muitos outros países que, como o Peru e o nosso amigo, pareciam curtir como ninguém esse negócio de guerra. Para não parecermos simplesmente desprezar essa cultura, contei que o Brasil nunca tinha vivido nenhuma guerra, de verdade, a não ser claro, nos tempos dos portugueses. No entanto, diferentemente dos espanhóis, que chegaram no Peru colocando abaixo quase tudo o que os incas construíram em 300 anos de existência, os portugueses também estavam interessados em roubar nosso ouro, mas, quando aqui chegaram e viram todas aquelas índias peladas, trataram logo de deixar esse negócio de guerra para lá e instalaram o que o movimento hippie iria resgatar 450 anos depois: paz e amor! Pelo olhar impassível do guia, conclui rapidamente que minha anedota não foi suficiente para atenuar o clima tenso que acabou instaurado e seguiu até o final da visita. Resultado: depois de nos passar detalhes desinteressantes sobre o enorme acervo de armas do museu, o homem visivelmente apressou o tour na hora de falar sobre os tesouros incas e pré-incas. Em certo sentido, nos sentimos aliviados com a abreviamento do tour.

No centro de Lima, também encontramos outro estranho símbolo desse culto à morte: as catacumbas da igreja de San Francisco, com mais de 25 mil ossadas…

O mito do bom selvagem cai por terra

Depois de sobrevivermos ao psicótico guia do Museo de La Muerte, caímos na mão de Manoel. Apesar do nome latino, o taxista, como quase todo peruano, não negava em seus traços a origem indígena. No entanto, ao invés do homem puro e ingênuo, também conhecido como “bom selvagem”, Manoel se mostrou perfeitamente aculturado ao modelo conhecido no Brasil como “Lei de Gerson”. O taxista havia sido contratado por uma agência de turismo de Cusco que, por sua vez, foi contratada pela agência brasileira com a qual fechamos nosso pacote de viagem. Sem nenhum exagero, no período de 1 hora em que ficamos com Manoel, ele tentou passar as duas agências para trás: primeiro, nos convidando para um passeio não previsto inicialmente pela agência local e, em seguida, sugerindo que, numa próxima vez, o contratássemos diretamente, afinal, ele também possuía uma agência de turismo, o que ficaria bem mais barato. Assim, em pouco mais de 1 hora, um taxista com nome espanhol mas sangue índio conseguiu reforçar uma imagem que havíamos feito do povo de Lima, a partir de um filme que assistimos sobre a cidade quando estávamos no Brasil: gente desonesta e trapaceira.

Novos fundamentos pela estrada

Do alto, tem-se a impressão de que a cidade de Juliaca foi construída em um imenso deserto a 3.500 metros de altitude. A estátua de um guerreiro inca na frente do aeroporto parece indicar uma região arqueológica. No entanto, ao percorrer as estreitas e confusas ruas da cidade, a característica que mais me chamou a atenção foi o fato de praticamente todas as construções estarem pela metade, dando a impressão de uma imensa favela. No entanto, ouvimos de Marco, nosso novo guia, tratar-se da região mais promissora do Peru. Com a possibilidade de contrabandear produtos para a Bolívia pelo Titicaca, a cidade é conhecida como a Taiwan peruana – poderíamos também chamá-la de Paraguai peruano, na medida em que ali se vive de falsificar tudo quanto é produto. Mas a verdade é que, longe de uma região pobre, a cidade era, de fato, a mais próspera em todo o Peru. As casas apresentavam aquele aspecto inacabado porque as pessoas só pagavam impostos quando as construções eram finalizadas. Espertinha essa gente, hein?

Em Puno, há 30 minutos de Juliaca, apesar da pequena população local e de turistas e dos poucos carros, o trânsito é barulhento. Custamos a descobrir o motivo: para chamar os passageiros, os motoristas usam, sem nenhuma parcimônia, suas buzinas. Parece que a idéia é pegar os clientes no susto. Imagino se essa moda pega no Brasil…

A morte continua à espreita

Não adianta: para qualquer lado que olhemos, encontramos signos de uma herança macabra, confirmando esse código de validação da cultura peruana. Agora estamos em Sillustani, sítio arqueológico próximo à cidade de Puno. Do que se trata? De um grande cemitério, é claro! Um cemitério que, primeiro, foi utilizado pelos Collas, povo que, possivelmente, viveu mais de mil anos atrás, e, posteriormente, pelos Incas. Os caras sabiam onde enterravam seus mortos. O lugar é belíssimo, com as “chulpas” (tumbas em forma de torres de pedras) erguidas entre lagoas e campos verdejantes, onde, atualmente, pastam sossegadamente as simpáticas alpacas. Pois é, os mortos vivam bem… ops… morriam bem!

Em Puno, ficamos em um pequeno hotel na Plaza de Armas. Pequena, média ou grande, não importa, para ser considerada uma cidade, tem que ter uma Plaza de Armas, que consiste basicamente de uma praça e de, pelo menos, uma igreja. Digo pelo menos, pois em Cusco, antigo centro do império Inca, há, nada menos do que 5 igrejas ao redor da Plaza de Armas. Construir igrejas sobre os escombros dos templos incas era uma forma de os espanhóis mostrarem quem eram os novos reis do pedaço. E grande parte do ouro e da prata com os quais se construiam os altares veio da arte inca – os espanhóis derretiam tudo, ignorando seu valor histórico, afinal, a história que eles viviam naquele momento só ia mesmo ter valor no futuro.

O fato é que todas as coisas que os espanhóis criaram com a prata e o ouro inca valem hoje quase nada perto do valor que poderiam atingir as obras de arte originais. Mas quando tudo isso aconteceu, o fundamento era outro. Para início de conversa, os incas davam tanto valor ao ouro e a prata quanto aos tecidos que compunham suas vestimentas. E para os espanhóis, naquele momento, o que importava mesmo era massacrar qualquer vestígio da cultura de um povo que, ao menor descuido, poderia se reerguer e partir de novo para a guerra. O mesmo se deu com a religião e a língua, que também foram banidas, embora grande parte do povo tenha cultivado, secretamente, alguns dos costumes de seus antepassados indígenas. Estima-se que hoje, ainda haja 10% de peruanos que pratiquem religiões andinas primitivas, onde o culto à folha de coca é parte essencial.

Enfim, um povo feliz, mas não ingênuo

Finalmente, contatamos um povo feliz e cheio de vida: os índios que ainda falam quechua, a língua inca, e vivem nas ilhas flutuantes de Uros, na baía de Puno do lago Titicaca, há 3.850 metros de altitude. Não são ingênuos, pois sabem muito bem como ganhar dinheiro vendendo artesanato de segunda e oferecendo passeios em frágeis embarcações aos muitos turistas que os visitam todos os dias. Para eles, o dinheiro é apenas um bem de acesso aos produtos da cidade, porque, entre si, ainda vivem de escambo, usando as próprias mercadorias como moeda. Gente boa, simples e amável, com um organismo que mereceria ser melhor estudado pela medicina, tamanha é a resistência que possuem para viver em um ambiente extremamente úmido e frio.

Ainda no Titicaca, também pudemos conhecer outro vestígio de civilizações antigas, na ilha de Taquille, há 4.000 metros do nível do mar. A ilha é socialista e sua pequena população ainda fala alymara, uma das poucas línguas pré-incas que resistiram ao tempo. Foi ali, na ilha de Taquille, quando fotografava a bela paisagem formada pelo azul turquesa do lago, emoldurado por picos nevados ao fundo, que de repente me dei conta de que o que eu fazia com a câmera fotográfica era exatamente o que eu fazia com cada instante do meu viver: dependendo do ângulo e do enquadramento escolhido, eu selecionava um mundo como válido e o que ficava fora dele, deste quadro, era simplesmente ignorado e, portanto, inexistia aos olhos de meu observador. Quem não esteve na ilha comigo e não viu o que eu vi não faz a menor idéia da experiência que eu eliminei e, até mesmo, eu irei esquecer o que escolhi não fazer parte de meu registro fotográfico, aceitando rapidamente como única realidade os ínfimos e limitados retratos que tirei.

Quando eu quiser recordar esse viver, serão as fotos que fiz e não as que não fiz que funcionarão como uma espécie de disparador de lembranças. O resto, provavelmente, será esquecido, como se nunca tivesse acontecido.

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Esqueça o destino. O melhor da viagem está no caminho

No trajeto que fazemos de ônibus de Puno a Cusco, observo que as melhores atrações estão no caminho. No clima árido e seco do altiplano andino, passamos por pequenas porém inúmeras criações de alpacas (um animal que parece fruto do cruzamento de uma ovelha com uma lhama) e ovelhas, que têm duas de suas patas amarradas – concluo tratar-se de uma forma para não deixar que, de repente, elas fujam “correndo”, pois não vemos qualquer cerca isolando os rebanhos.
Intimamente, pergunto-me para onde um animal poderia fugir em um lugar tão inóspito?
Aliás, a vegetação é rala e quase não existem árvores, o que obrigou a esparsa população da região à criativa idéia de fazer o estrume dos animais de lenha para aquecer as pequenas casas de pedra e adobe e cozinhar a comida. Me arrepio só de pensar no aroma dessa inusitada combinação…

De tempos em tempos, identifico também o que parecem ser minúsculos cemitérios à beira da estrada, com suas 10, 12 lápides voltadas para leste, onde o sol nasce, seguindo uma tradição adotada pelos incas e emprestada dos antepassados destes. Fios d’água aparecem aqui e ali, como que por milagre, mas, depois de ouvir a explicação do guia, me impressiono: somados, todos esses pequenos braços de rios são responsáveis por formar o imponente Titicaca.

Nosso ônibus segue lento pela estradinha, entre esse solo árido e castigado e os picos nevados que, volta e meia, surgem emoldurando a paisagem como que a nos lembrar que estamos no meio da famosa cordilheira dos Andes, enquanto embalo meu sono por uma trilha sonora que parece ter sido especialmente composta para esse momento: “Us and Them”, do álbum “The Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd. Aqui reproduzo um trecho, só para dar um gostinho do que foi que eu senti, embora, é bom que fique claro, “a descrição da experiência não substitui a experiência” (H. Maturana):
“Us, and them
And after all were only ordinary men.
Me, and you.
God only knows its noz what we would choose to do.”

Coca: droga, remédio ou folha sagrada?

No Brasil, a folha de coca é a principal matéria-prima de uma das drogas atualmente mais perigosas e de maior consumo: o crack. Sem falar, obviamente, na cocaína. Atualmente, até as crianças sabem disso. Coca é droga e pronto! Excetuando, a Coca-Cola, uma droga apenas no sentido figurado, mas isso já é outra história. Então, não há como não levar um choque quando, dentro de um avião, em um vôo regular entre Lima e Juliaca, você ouve alguém lhe oferecendo tê ou mate de coca. Nós já sabíamos que, para suportar os efeitos da altitude, o primeiro “remédio” preconizado era o chá de coca. Isso não significava, no entanto, que estávamos tranqüilos com a experiência. Assim, curiosos e algo tementes, como dois adolescentes, tomamos o tal tê de coca. Lá no fundo, ainda impregnados por nosso sistema de validação, fantasiávamos com o barato dos drogados, mas nada, absolutamente nada ocorreu. Nenhuma sensação estranha, nenhuma dormência ou taquicardia. Nada.

Nos dias seguintes, repetimos o hábito diversas vezes, o que deve ter contribuído p ara dar uma amainada na paulada que é, repentinamente, estar a mais de 3.500 metros acima do nível do mar. Mesmo assim, de vez em quando, o ar parecia faltar e, à noite, era inevitável um sangramento no nariz e a garganta seca como se estivéssemos num deserto – de fato, em algumas cidades do Peru a umidade chegava a níveis muito próximos do clima desértico.

Mas foi na ilha de Taquille que, pela primeira vez, nos deparamos com outro significado para a coca: a de folha sagrada. Antigo costume dos habitantes, ao invés de se cumprimentarem com apertos de mão ou beijos, ao se encontrarem, os alymaras pegam o chapéu nas mãos e recebem do outro um punhado de folhas de coca. Todos possuem uma pequena bolsa amarrada à cintura cheia de folhinhas. O curioso é que, em nenhum momento, observamos plantações de coca. De onde será que vêm todas essas folhas?

E o sentido sagrado da folha de coca pode, finalmente, ser experimentado por nós, da maneira mais espetacular possível. É que decidimos subir até Machu Picchu a pé. A outra opção seria ir de ônibus, a partir de uma cidade termal chamada Aguas Calientes. Não se tratava apenas de caminhar, mas de fazer isso no Caminho Inca, uma espécie de Caminho de Santiago para os peruanos, afinal, ele foi construído pelos próprios incas e faz a ligação entre diversos sítios arqueológicos importantes até aquele que é considerado o mais importante de todos: Machu Picchu, cidade escondida entre gigantescas montanhas que, reza a lenda, teria sido utilizada pelos incas mais nobres e sacerdotisas.

Em Ollantaytambo (se pronuncia “oiantaitambo”), pegamos o trem com destino a Aguas Calientes e, uns 10 quilometros antes, saltamos no meio de uma densa floresta subtropical para nos encontrar com Silvia, nossa “personal guide”. Como já a havíamos conhecido na reunião de briefing três dias antes, descobrimos que ela se mantinha fiel aos costumes incas, o que acabou nos motivando a pedir que ela nos ajudasse a preparar uma pequena cerimônia de casamento em Machu Picchu. Na verdade, não fazíamos a menor idéia do que iria acontecer.

E as coisas começaram a acontecer quando demos os primeiros passos dos 12 km de percurso da ultima parte da Trilha Inca – o trajeto completo é feito em 5 dias! Silvia retirou de sua mochila um saco plástico cheio de folhas de coca, escolheu três folhas novinhas para cada um de nós, e nos orientou em um ritual que, ao mesmo tempo em que era um agradecimento a Pacha Mama, a mãe-terra dos incas, também era um pedido de proteção aos locais onde nossa vida acontecia fora dali e que nos eram importantes– nossa cidade, nossa casa, nossa chácara no interior.

Espiritualmente fortalecidos, começamos a encarar uma subida de 5 quilômetros – soubemos depois -, a pior parte de toda a trilha, tanto é que, ao final, já não agüentávamos mais andar 10 passos sem dar uma paradinha para respirar. Não custa nada lembrar: estávamos a mais de 2.500 metros de altitude.

Superado esse trecho, descansamos por cerca de meia hora, até que partimos para os 5 quilômetros que nos separavam da Porta do Sol, a entrada em Machu Picchu para quem se aventura pelo Caminho Inca. De lá, seriam mais 2 quilômetros até chegar à cidade perdida dos incas.

Abra los ojos

Tiramos de letra esse segundo trecho da caminhada e, depois de encarar os 52 degraus da íngreme escada de pedras que termina na Porta do Sol, fomos convidados por nossa guia a participar de um segundo ritual. Postados 7 degraus abaixo, fechamos os olhos, nos demos as mãos e, guiados por Silvia, atravessamos a Porta do Sol. Só que, ao invés de pararmos por ali, continuamos andando no escuro até que ela nos colocou lado a lado e só então disse para abrimos os olhos. A nossa frente, ao fundo de uma paisagem que parecia ter sido pintada naquele momento, avistamos Machu Picchu. Nenhum de nós havia se preparado para essa surpresa…

É difícil descrever o que eu senti. Era como se, de repente, eu estivesse em Shangri-la. Era como se, de repente, todos os mistérios do universo me fossem revelados, e eu não pudesse nomear sequer um deles. Naquele momento, eu simplesmente era um integrado ao todo a minha volta. Totalmente presente, inteiro no meu viver.

Após longos minutos em que permanecemos de mãos dadas e chorando feito bebês, nos demos conta de que havia uma fila de turistas esperando que desocupássemos o lugar, para tirar suas fotos! Como um raio, fomos atingidos pelo ruidoso clicar das máquinas fotográficas e a compulsão por quebrar o silêncio sagrado pela fala sem sentido. Normalmente, eu usaria a expressão “chá de realidade”, mas, na verdade, aconteceu exatamente o contrário. Fomos imediatamente transportados da realidade perfeita e idílica que testemunhávamos em silêncio para a ilusão do viver superficial, que prefere tirar fotos da realidade ao invés de vivê-la. Imagens mortas para o futuro, ao invés de vida no presente…

De volta à vida medíocre, porém ainda em silêncio, mobilizados pelo que vivemos, percorremos os últimos dois quilômetros que ainda restavam para finalmente chegar àquela cidade misteriosa. Só que, quando a atingimos, ao invés de nos juntarmos às centenas de turistas que se espalhavam por todos os cantos, seguimos direto para o hotel. Tive uma noite febril e tumultuada por sonhos que foram esquecidos logo que acordei.

Dia de inca

O dia amanheceu sem nuvens – coisa muito rara em Machu Picchu, explica Silvia. Às 6h em ponto, hora exata em que as portas de Machu Picchu se abrem para a visitação dos turistas, já estávamos na fila. Algo, no entanto, havia se modificado em nós. Acompanhávamos atentos as histórias contadas por Silvia, mas os primeiros raios de sol produziam fachos diáfanos sobre as inúmeras montanhas que nos circundavam, algo que parecia nos magnetizar de modo irresistível.

Nossa atenção só foi interrompida quando Silvia nos trouxe até nosso altar, uma imensa pedra de quartzo que formava uma espécie de caverna. Foi ali, com a orientação de nossa guia herdeira de uma tradição milenar, que eu e Cláudia realizamos nossa cerimônia de casamento, um ritual simples porém cheio de simbologia, com direito a troca de alianças de prata decoradas com a chacana, a cruz andina, as – agora também sagradas para nós – folhas de coca e oferendas aos deuses incas.

Terminada a cerimônia, nos demos conta dos "vitrais" de nossa igreja: uma paisagem que nos fazia literalmente sentir-se no céu. E aí, sem grandes reflexões ou explicações, soubemos simplesmente que o que o mais queríamos não era olhar para mais nada do que os incas haviam construído, mas, sim, olhar com o olhar do inca, olhar para onde ele olhava.

Naquele instante, percebemos que tudo o que havia sido construído só fazia sentido como ponto de onde se podia observar a natureza fascinante a sua volta.

De repente, fazia sentido para nós entender a cidade apenas como um ponto de origem e não de chegada. Escolhemos um lugar tranqüilo numa das terraças da face oeste de Machu Picchu e nos quedamos ali, em silêncio, sem pressa, admirando o universo sem fim que se descortinava a nossa frente.

7 comentários para “Notas de um aprendiz de biólogo cultural em expedição pelo Peru”

  • Teca disse:

    Fabio,

    Que viagem fantástica!! Acabei de enteder um pouco mais sobre a angústia, que, segundo o fabuloso Heidegger, é um modo de ser privilegiado do DASEIN..
    beijos
    Teca

  • Giovana disse:

    Que lindo relato, me senti viajando com vocês…

  • Lidia disse:

    Pois é Fábio, uma vivência fantástica! E por mais delicioso que seja ler o seu texto, sei que não há como descrever realmente a experiência. Algo assim como as paisagens, que apesar de lindamente mostradas em fotografias, ficam ainda mais bonitas na memória…

  • Marilda disse:

    Fábio
    Parabéns… o registro ficou “show de bola” ? .
    Um beijo.
    Marilda

  • Sandra disse:

    Fábio,
    Super legal poder ler seu relato.
    Para mim, foi muito emocionante reviver a experiência de “estar” em Machu Picchu – o silêncio, o céu azul, as montanhas, o sagrado …
    Para mim foi um presente.
    abraços
    Sandra

  • Thomaz disse:

    Fabio,
    obrigado por compartilhar a linda experiencia, os olhares e os aprendizados.
    O que está dentro e fora se revelam na interação…
    Parabéns.
    Abraços,
    Thomaz

  • Fábio Betti disse:

    Grande Thomaz! Muito obrigado pelo comentário. Abraço e ate breve. Fábio

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