Essa pergunta, que, muitos de nós, provavelmente, já fizemos em algum momento de nossas vidas – alguns, até, podem estar fazendo agora! -, esconde, na verdade, uma armadilha. Quando desejamos nos livrar de alguém, mesmo que esse alguém já tenha se transformado em um indesejado carrapato, nos desindentificamos com nós mesmos, com nossa natureza humana, com esse outro que nos habita e que, em algum outro momento da vida, também já foi descartado ou será…
Controle remoto na mão, usado como de costume, ou seja, como console de videogame, parando uns instantes aqui, outros acolá e, de repente, me detenho na cena de um filme. Homem de uns 30 e poucos anos conta para sua terapeuta que não consegue se relacionar por muito tempo com nenhuma mulher. Corta para cena onde ele e uma mulher estão na cozinha conversando. Ela diz que quer passar a noite com ele, e ele retruca dizendo não achar uma boa idéia. Como justificativa para ficar até o dia seguinte, ela promete preparar um café da manhã maravilhoso para os dois. Ele insiste que não se sente confortável com a proposta. E aí ela implora, diz que está apaixonada, que quer casar e ter filhos, Com cara de poucos amigos, o homem simplesmente diz que sente muito, mas para ele a relação é só sexo.
De modo geral, o cinema , assim como ocorre nas novelas, usa e abusa dos arquétipos, que são estruturas sobre as quais pensamos e agimos, sem nos darmos conta. O psiquiatra Carl Jung estudou a fundo os arquétipos, associando-os às doenças psíquicas e abrindo caminho para uma compreensão mais profunda do mecanismo do inconsciente humano.
Por trás do homem que não consegue se prender a nenhuma mulher, há, talvez, a presença oculta de um dos mais antigos arquétipos – o arquétipo do caçador, que, todo dia, tem que ir para a floresta para garantir o sustento de sua família. Se ele voltar de mãos abanando, sua família poderá morrer de fome e ele será considerado por todos um derrotado, um incapaz, um zero à esquerda. Há só duas formas para ele resolver essa questão: voltando para casa com alguma comida ou… evitando arrumar uma família!
É claro que, hoje, homens e mulheres dividem a responsabilidade pela caça, embora, na grande maioria das vezes, cuidar da cria continue sendo um atributo feminino – outra demonstração da existência de algum arquétpo.
Só que o poder do arquétipo do caçador continua ali, agindo tanto mais forte quanto for nossa falta de consciência dele – porque, não se discute, os arquétipos nos influenciam de algum modo. Isso não significa, no entanto, que precisemos ser escravos deles, sendo guiados por eles, conduzidos por caminhos que não queremos nem nos fazem felizes.
O homem que não consegue se relacionar em profundidade com ninguém pode até parecer feliz em sua vida de caçador independente, mas, por outro lado, uma sombra talvez paire por ele, trazendo infelicidade e uma sensação de incompletude: a sombra de sua não realização biológica, seu propósito de procriação.
No entanto, se ele está apenas vivendo um momento “é tudo somente sexo e amizade”, o negócio é procurar se relacionar com alguém que quer a mesma coisa. Caso contrário, ele poderá se tornar alguém que ele mesmo abomina: um ser cruel e sem coração, com o qual, possivelmente, ele próprio, já se deparou ou ainda vai se deparar em algum momento de sua vida. Em outras palavras, de algoz para vítima, a distância pode ser menor do que se imagina.