Escrito por Adriano Silva
A história é a seguinte. Nesta segunda, dia 21, foi ao ar um novo comercial dos chinelos Havaianas, protagonizado pela avó do filme anterior, em que uma simpática senhorinha demonstrava ainda ter alguma libido numa conversa com a neta. Você lembra: a avó reclama que a neta está de Havaianas no restaurante. Chega o galã Cauã Reymond. A avó comenta com a moça: “Você tinha que arrumar um rapaz assim”. A neta responde: “Ah. deve ser muito chato casar com alguém famoso”. A avó retruca: “Mas quem falou em casamento? Estou falando em sexo!
No novo comercial, a avó diz, com um notebook na mão: “Algumas pessoas reclamaram da propaganda das novas Havaianas Fit. Em respeito a elas, Havaianas decidiu tirar o comercial da TV. Por outro lado, algumas pessoas adoraram a propaganda. Em respeito a elas, Havaianas decidiu manter o comercial na internet. Democrático, né? Se você quiser assistir o comercial, entre no site. Viu como eu sou moderninha?”
O anunciante e a agência tiraram o comercial original do ar devido a reclamações de telespectadores que se sentiram ofendidos pela conversa entre a avó e a neta. Fizeram o que acharam que tinham que fazer: afinal, a intenção de uma marca é vender, não é sustentar uma posição, indo contra alguns de seus possíveis consumidores, por mais estultos que estes sejam. A função de uma campanha é gerar goodwill em relação ao produto, jamais rejeição e polêmica, ainda que elas aconteçam no âmbito de minorias estridentes e pouco iluminadas. Então o comercial saiu do ar. Para prejuízo da maioria silenciosa, que não viu nada de mais no filme. E que também não batalhou para que ele ficasse no ar. Por que diabos não vemos milhares de mensagens em favor do direito daquela marca nos divertir com seu filme entupindo as caixas de entrada das emissoras de TV, do anunciante, da agência e do CONAR? Por que nós, os ilustrados, não deixamos claro que meia-dúzia de falsas carolas e falsos carolos não tem o direito de decidir por nós o que vamos e o que não vamos ver? É que nossa suposta superioridade várias vezes se traduz em inação. É que consideramos que aquele filme alegre, bem humorado, pop, para cima é apenas um filme. Não percebemos que o que está em jogo aqui não é um simples comercial de TV, mas sim não permitirmos que o nosso sagrado direito de assisti-lo seja cerceado por quem quer que seja.
Mas, mesmo se olharmos para o filme, do que trata essa briga que mais uma vez deixamos ser vencida pelas forças do atraso? Qual é a ofensa inominável? Qual é agressão indesculpável? Como em tantos outros comerciais de Havaianas criados pela Almap, a maioria de nós apenas esboçou um sorriso ao final, reconhecendo naquele reclame de 30 segundos uma boa sacada, uma piadinha bem contada, uma tirada engraçada, uma pequena alegria que nos é oferecida entre dois blocos de programas ruminantes de TV. Por isso eu fiquei duplamente abismado com a notícia. Então ainda estamos nesse nível de conservadorismo? Então ainda somos donas-de-casa dos anos 50, que parecem tão inverossímeis na literatura de Nelson Rodrigues? Então ainda temos tantos recalques e neuroses a resolver no espírito nacional, no inconsciente coletivo brasileiro?
Vou lhes dizer o que realmente agrediu aos opacos, aos pedestres e aos sem-graça que ganharam mais essa no grito. Ofendeu ver uma mulher com mais de 50 anos se interessando por sexo. Ainda que na mais inocente e elegante conversa com a sua neta. Nesse país, uma mãe não pode ter vida ou interesse sexual. Muito menos uma avó. Mulheres de família tem que cortar o cabelo curtinho e aposentar as gônadas ao chegarem à menopausa. E estarão proibidas de fantasiar, de olhar, de desejar. E estarão proibidas de de dizer, de convidar, de permitir. E estarão proibidas até mesmo de lembrar, de relatar, de admitir coisas que fizeram ou que sempre tiveram vontade de fazer. Qualquer outra postura das mulheres maduras, que não tenda à aridez e à total inapetência, será perseguida a pauladas em via pública como uma ratazana prenhe. E empunhando os maiores porretes, na linha de frente desse linchamento coletivo, estarão mulheres nessa exata faixa de idade – as senhoras -, pode crer.
Adriano Silva é jornalista e publisher do Gizmodo Brasil. Ele escreve sobre perplexidades, descobertas e insights que acontecem todo dia no mundo do trabalho — e fora dele também.
* Texto publicado originalmente no blog Manual do Executivo do Portal Exame
Lucidez é o que vemos e alívio o que sentimos no texto do Adriano. Ótimo que tenham publicado uma vez mais aqui no “Discutindo”. Afinal, as relações humanas mantem um ranço no passado porque desde que o mundo é mundo a transição se dá em muitas gerações (para o bem ou para o mal) e a turminha da TFP e da Liga das Senhoras Católicas estão aí para não desmentir.
No final, sorte para as Havaianas, que verão o seu filme se transformar em um viral de sucesso.
Eu mesmo, longe do Brasil, não saberia da polêmica. Agora sei e agora vi o que provavelmente não veria.
E passarei adiante: http://www.youtube.com/watch?v=u9G5NHkhsFI.
Se o texto é bem escrito e traz um tema que nos ajuda a refletir sobre nossas relações, tem espaço garantido aqui. E obrigado pelo comentário.