Neste ano, parece que o Dia das Crianças teve um gosto diferente. Muita gente – adultos na casa dos 40, 50 anos – que conheço deu para relembrar sua infância e houve até uma febre no Twitter, com as pessoas trocando a imagem de seus avatares por fotos da época de criança. Esse saudosismo chegou a mim misturado com uma certa melancolia, que me levou não exatamente para trás no tempo mas para dentro de um espaço dentro de mim, uma espécie de Terra do Nunca habitada por sentimentos amortecidos e crianças solitárias.
Tem dias que me pego pensando que não serei capaz de sustentar em meu corpo todas as emoções que estou sentindo. Não se trata de nenhuma metáfora ou figura de linguagem, mas uma sensação física, possível de ser observada cientificamente, pois o coração dispara, a traquéia fecha, dificultando a passagem do ar e das palavras, e uma forte acidez toma conta do meu estômago. Chego a este estado, normalmente, depois de sofrer algum tipo de impacto emocional – uma discussão com uma pessoa querida, uma surpresa desagradável, um medo incontrolável, uma súbita ansiedade.
Nessas horas, sinto falta de colo, mas, curiosamente, é quando menos me autorizo a um colo, pois são horas pesadas, horas em que um adulto é cobrado para agir como adulto, quando decisões são esperadas, atitudes maduras exigidas. São momentos onde, para corresponder ao que se espera de nós, colocamos nossos medos e dores de lado e, simplesmente, agimos.
Todos nós já vivemos horas como essas – horas em que somos convidados a esmagar nossas fragilidades, e é o que, invariavelmente, fazemos. E toda vez que faço isso, é como se eu sentisse o grito sufocado de uma criança dentro de mim. Algo se abafa, mas não se extingue, como uma dor que é ignorada, mas, nem por isso, deixa de ser dor. É um grito sem som, angustiante grito de alguém que pede ajuda em vão.
Esse pedido tem dono: vem de um menino, um dos meninos que fui e, por vezes, ainda sou. É o menino que não suporta carga tão pesada de emoções. Ele quer correr, ele quer fugir, mas as emoções estão dentro dele e o seguem por onde quer que vá. Não há onde se esconder, por isso ele pede ajuda. Esse menino não sabe lidar com essas coisas de adulto, essa obrigação de ter de fazer aquilo que não se é capaz, e nem entende porque as pessoas fazem isso consigo mesmas. E se pergunta por que é que os adultos não percebem esse jogo cruel, por que é que eles não acolhem suas crianças, já que todo adulto, em algum momento, já passou por uma situação parecida e, portanto, entenderia perfeitamente quando se deparasse com outro adulto precisando pura e simplesmente desmoronar. No fundo, é só isso o que o menino precisa: desmoronar, deixar-se entregar à corrente incerta da vida, sem planos ou decisões pensadas, imune à tentação de qualquer pressão por ação ou reação…
Neste ano, o Dia das Crianças teve um sabor diferente para mim. Ele chegou depois de uma semana que começou com o doloroso trabalho de recolher os cacos de uma amizade de longa data que ruiu, prosseguiu com a ansiedade de uma cirurgia que meu pai iria fazer e pelo auto-flagelo de ter que ser forte para ampará-lo, custasse o que custasse, e culminou com o aniversário da morte de minha mãe, na véspera do Dia das Crianças – todas emoções fortes, potencializadas por surgirem ao mesmo tempo e, sobretudo, pelo fato de não encontrarem válvula de escape.
Mas eis que chega o grande dia, quando meu filho mais velho ganha uma medalha de ouro num torneio esportivo e meu pai já dá seus primeiros passos, após a colocação da prótese no quadril. Meu menino, de repente, se sente radiante, completo, e eu olho para ele com um misto de admiração e compaixão. Como pude deixá-lo tão só e indefeso? Como não reconheci seu pedido de ajuda? Por que neguei-me a suprir necessidades tão básicas, como colo e aceitação?
O Dia das Crianças chega ao fim. O hospital está em silêncio, meu pai adormece tranquilo. Dentro de mim, ouço vozes, gritos, exclamações, choros, risadas dos meninos que deixei pelo caminho. É hora de juntar-me a eles em sonho, me permitindo extravasar qualquer emoção recolhida, qualquer dor não sentida, qualquer brincadeira reprimida. Está tudo certo no mundo, eles me dizem. E me ensinam que tenho apenas que me deixar levar pelo momento presente, ou seja, pelo viver e conviver, evitando as armadilhas aprendidas com o que vivi, posto que já passou e, como comida há muito tempo esquecida no prato, só envenenam meu corpo e meu espírito. Muchas gracias, meus pequenos! Muchas gracias a la vida!