Todos nós nascemos sem a menor distinção entre nós e o resto do mundo. Essa noção, aprendemos junto com uma palavra mágica: meu! Tanto é que, entre 1 e 2 anos de idade, as crianças vivem uma fase caracterizada por um forte egoísmo. No fundo, elas só estão delimitando o seu espaço que, um momento antes, era totalmente indefinido. Mas e agora que somos adultos, por que, em algumas ocasiões, ainda experimentamos essa sensação de falta de espaço em nossas vidas? Quantas vezes você se pega pensando que está sem espaço? Ou que se sentiu invadida em seu espaço? Isso acontece mais no trabalho ou em casa? Você observa o fenômeno mais presente nos relacionamentos com colegas ou nos relacionamentos com pessoas mais íntimas? Estas são perguntas que venho me fazendo nos últimos tempos e que, possivelmente, também povoem a mente e o coração de muitas das pessoas que me acompanham nesse blog – pelas trocas que tenho com muitas delas, creio estar abordando uma questão de natureza quase arquetípica, ou seja, que permeia o inconsciente coletivo. Por isso, espero que essa partilha, feita integralmente na primeira pessoa, tenha algum eco além de meu próprio espaço.
Até poucos meses atrás, eu era sócio de uma agência de comunicação e resolvi partir para uma carreira-solo como consultor. Entre os motivos desta guinada, estava a sensação de que faltava espaço para eu poder realizar minhas potencialidades profissionais. E, mesmo tendo uma sala só para mim, era isso o que eu sentia: falta de espaço.
Hoje, tenho um enorme horizonte de possibilidades aberto permanentemente em minha janela profissional, mas – pasme! – não tenho mais uma sala só para mim. Fui obrigado a dividir meu espaço – um minúsculo escritório montado em minha casa – com minha esposa, que aparece de vez em quando para responder e-mails na segunda posição de nossa “baia doméstica” e, ocasionalmente, também com meus filhos, que atualizam seus perfis nas redes sociais ou jogam algum game.
A primeira tentativa de atender minha necessidade de espaço já aconteceu: foi a organização do ambiente, que estava, com tantos freqüentadores dividindo o mesmo espaço, uma tremenda zona! Só que isso criou uma espécie de barreira física imaginária, separando o meu espaço – o lado esquerdo do escritório – e o espaço dos outros – o lado direito. E quando essa fronteira é invadida – pelos outros! -, é como se uma guerra fosse declarada. Isso aconteceu recentemente. Depois de ficar alguns dias fora de casa acompanhando meu pai no hospital, voltei e encontrei um documento deixado por minha esposa em cima de meu lado da mesa. Imediatamente, fui interpelá-la sobre as razões pelas quais aquele documento estava naquele espaço e ela, simplesmente, me respondeu que ali era o melhor lugar para ela visualizar um boleto que precisava ser pago nos próximos dias. Fiquei ainda mais indignado: tanto espaço livre na casa e o meu minúsculo espaço era o único lugar visível para ela! Santa paciência, diria a minha avó!
Uma segunda medida está em curso: encomendamos um notebook para cada um de nossos filhos. Assim, o mais velho poderá pesquisar seus trabalhos escolares e atualizar seus posts em seu espaço e o mais novo também terá seu próprio espaço para os games e, aos poucos, se habituar com essa ferramenta tão necessária a sua educação. Com isso, tirarei dois coelhinhos de meu espaço com uma cajadada só. E minha esposa… bem, depois da bronca que lhe dei, ela parece bem mais atenta. Honestamente, não sei quanto isso irá durar. Sinto, no entanto, que a questão do meu espaço não deveria estar tão conectada com o “espaço que o outro deixa para mim”, pois é disso o que estamos falando aqui, né? Do espaço que os outros deixam ou não deixam a gente ocupar. Se eles me dão espaço, sou feliz. Se não dão, sinto-me invadido, infeliz. Em outras palavras, estabeleço uma relação de total dependência do outro.
Já me senti assim outras vezes e, embora ainda continue caindo na mesma armadilha, acredito que esse incômodo nomeado como falta de espaço físico é apenas um reflexo de algo que está acontecendo dentro de mim. O que se processa fora de mim é só uma espécie de manifestação visível, escancarada do que se processa dentro, onde reside uma dificuldade enorme de, primeiro, reconhecer o espaço que ocupo no mundo, para, aí, então, defendê-lo.
Quando trago essa reflexão de fora para dentro, percebo também espaços internos que, em determinadas situações, se sentem invadidos, ignorados em seu direito de existir. O espaço do silêncio, o espaço da concentração, espaços que se vêem, repentinamente desrespeitados por um telefone que toca, por uma voz em tom mais alto, por alguém que me interrompe sem pedir licença.
“Apesar de eu ter mudado de carreira, não mudei de mim.” Surpreendi-me outro dia dizendo esta frase para um amigo. O espaço que me faltava dentro de mim continua faltando, porque, afinal, não fiz nenhum grande movimento interno para que esse espaço pudesse ser ocupado, preservado ou defendido de invasores.
Sabe o que é pior? O movimento interno não acontece porque, na realidade, falta clareza do lado para onde ir. Dirijo-me para a espiritualidade ou para a qualidade de vida? Batalho por uma reserva de tempo extra para descansar ou me aprofundar em leituras prazerosas? Relaxar ou estudar? Meditar ou pensar? Exigir ou relaxar o cérebro? Vou me fazendo essas perguntas enquanto tateio no escuro em busca desse espaço que me falta e que, estranhamente, não sei como defini-lo e, portanto, como conquistá-lo.
Enquanto isso, a sensação que tenho é que não haverá sala grande o suficiente para saciar minha necessidade de espaço e que uma simples folha solta levada pelo vento é capaz de fazer um estrago danado nesse duelo de forças entre o eu e o outro, de equilíbrio tão tênue e delicado.