Todos os amigos de minha geração já viveram ou estão passando nesse momento pela “crise dos 40”. O nome assusta – “crise dos 40”. Coloco entre aspas na tentativa de retratar a estranheza desse processo a que nós, novos ou velhos quarentões, somos forçosamente submetidos. Observo que a “marvada” bate diferente em cada um, mas bate sempre forte e bate para derrubar…
Resolvi comemorar meu aniversário de 40 anos reunindo amigos de todos os momentos de minha vida – da infância, da faculdade, amigos do trabalho, da família, amigos recentes com quem eu ainda nem havia construído uma história de confidências recíprocas. Apareceram cerca de 200 pessoas. Foi uma balada e tanto. Se a “crise dos 40” era o sentimento de saudosismo que, repentinamente, tomava conta de mim, que viessem muito mais crises como essa. Que nada! O saudosismo era só para despistar. Não demorou muito – dois anos para ser preciso – para ela aparecer com força total. Aprendi outro dia o seu nome: crise da autenticidade. É assim que os biógrafos da Antroposofia nomeiam nossa entrada no sétimo setênio.
Apesar de ter um bom domínio da língua portuguesa, recorro ao dicionário… “Autentidade, qualidade de autêntico, do autor a quem se atribui…”
Quem nunca precisou autenticar um documento, esse negócio esquisito de ter que provar que é si mesmo? Então, imagine que a tal crise de autenticidade é uma súbita desconfiança de si mesmo. Quem, afinal, é você? Essa é a pergunta que não quer calar para quem vive a “crise dos 40”.
Só que nem todo mundo decide ir atrás da resposta. Crises são oportunidades de crescimento, aprende quem quer. Tanto é que, não raras vezes, vi amigos meus “curando” sua crise com uma garota de vinte e poucos anos. Ou se entupindo de trabalhar e escolhendo como meta de vida ganhar dinheiro, muito dinheiro, para comprar todos os brinquedinhos disponíveis, especialmente carros e roupas caras.
Se eles são mais felizes que nós, os que mergulham no lodaçal à procura do sentido perdido, eu não sei. Só sei que costumam se gabar da boa forma reconquistada com essa atitude que lembra muito a época de adolescência. Todos querem curtir a vida adoidado. Vantagem: tem dinheiro para fazer aquilo que, na adolescência era impossível de ser feito. Desvantagem: falta o vigor juvenil para encarar todas as aventuras em que se metem. Resultado: muitos se tornam dependentes dos aditivos sexuais e dos ortopedistas, já que acabam exagerando na malhação – o duplo sentido aqui é intencional. Os que não arrumam uma contusão mais séria, até que conseguem uma barriga tanquinho, que é aquela coisa redonda e protuberante, porém dura e com dobrinhas que lembra muito o casco de uma tartaruga!
Sou do tipo que se mete a fazer vários esportes, para ver se recupera a forma física – o esforço é meio em vão, mas a sensação de puxar uns ferros, como costumávamos dizer, ainda é impagável. Valem as dorzinhas que, não raras vezes, aparecem na manhã seguinte. Apesar disso, não arrumei duas de vinte para trocar por minha quarentona – ela ainda não completou 40 e odeia ser chamada de quarentona, mas confesso que esse ato de maldade me dá um certo prazer… juvenil.
Gosto da sensação de ser paquerado por uma garota de vinte e poucos, embora isso seja pura fantasia, pois as garotas de vinte e poucos que se aproximam de mim são as filhas de meus amigos e, definitivamente, nem eu nem elas queremos nenhuma intimidade entre nós. Acho que a paquera não acontece porque, provavelmente, eu deva ter estampado na cara “quarentão em crise à procura de um novo sentido para sua vida”.
Um coroa – odeio me chamar assim, talvez eu esteja dando uma oportunidade para minha esposa se vingar – não vai atrás de uma menina recém-saída da adolescência em busca de um sentido para sua vida. Na verdade, também não é por causa de sexo. É pelo prazer de se sentir jovem outra vez, mesmo que isso seja uma ilusão facilmente comprovada pelas evidências da saúde em declínio, que incluem a constrangedora – pelo menos, para um macho convicto – broxada de primeira ou a meia sola de segunda.
Não troquei minha quarentona por duas de vinte, mas troquei a sociedade em uma empresa bem-sucedida por um novo início. Tinha dinheiro e poder, mas faltava paz e saúde. Troca justa, eu pensei – e ainda penso! -, embora hoje eu sinta falta de dinheiro e poder. Será que não dá para ter tudo junto? Para acreditar nessa possibilidade, só mesmo tendo uma crise, de preferência, uma crise de autenticidade, uma crise dos 40.
Continua na semana que vem… Ou não.
Conheço um grupo que passou por essa crise. Foram os amigos do Ali Babá. Creio que eles mudaram de atitude.
Abração
Excelente! Muito Bom ! Acho que ainda somos vitimados pelos hábitos. Já faz mais de quarenta anos…que chegar aos 40 é referencial para se pensar…..mas…veja bem!! É conqusita e prêmio ter essa idade! Pense nos benefícios…rsrsr