Já que praticamente todas as pessoas que conheço dizem que acompanham algum seriado, resolvi fazer o mesmo e inventar uma “parte 2” para minha crise dos 40. Na verdade, era para ser uma parte 2 para a reflexão sobre a crise. Passada uma semana, acabei descobrindo que a parte 2 é mesmo da crise, não do texto.
Na primeira parte de minha reflexão sobre a crise dos 40, trouxe o conceito de crise da autenticidade em contraposição à crise de adolescência que muitos de meus amigos parecem estar vivendo. Passada uma semana, com direito a feriado na segunda-feira, pude vivenciar um outro aspecto da crise dos 40 sobre o qual, honestamente, ainda não havia me debruçado.
À beira da piscina e tomando uma caipirinha com meu cunhado, um quase cinqüentão que, atualmente, também passa por um momento de transição de carreira, resolvi fazer um brinde, um brinde aos boas-vidas! Boa-vida é aquela pessoa que sabe viver a vida. E eu e o cunhadão, naquele momento mágico sob o sol escaldante de um fim de semana prolongado, sem dinheiro no bolso e sem qualquer perspectiva de curto prazo para solucionar essa questão, éramos os próprios boas-vidas. Sem chefes, sócios ou clientes, éramos só nós, nossas famílias e a liberdade de ter uma vida nova inteirinha pela frente.
Otto Scharmer, professor do Sloan Institute do MIT e um dos grandes gurus do pensamento da administração nos dias de hoje, disse outro dia uma frase que, primeiro, me intrigou e, depois, virou meu mantra pessoal. A frase é a seguinte: “Sou duas pessoas: uma que fui até hoje e sobre a qual não exerço qualquer poder, e outra que estou construindo agora dentro de infinitas possibilidades.”
E esta segunda pessoa, que está se formando deste instante para o futuro, é alguém que já está aprendendo a viver de forma diferente. Sobrevivente da crise dos 40, ela se sente muito mais consciente do que costumava ser, consciente do que vale realmente à pena, das coisas que importam de verdade, dos valores que contam, do poder que, de fato, cria e produz coisas belas.
Acredito que crises são chacoalhões que recebemos quando não conseguimos identificar os sinais sutis que o universo nos envia quando já está na hora de mudar. Uma crise como a dos 40, ou a dos 50, ou a dos 20, ou a dos 30, quando aparece, merece, portanto, tratamento VIP, pois ela vem para nos redimir de nossos pecados como almas errantes nos descaminhos que tendemos a pegar acreditando que seguimos rumo ao paraíso, mas… é só para parar para pensar: se o paraíso é mesmo um lugar legal, a estrada para chegar até ele não pode ser essa merda que empurraram pra gente, né?