Por onde ando e por onde vou, quem eu sou parece depender de um certo “código de validação social”. Cada grupo tem o seu próprio código, mas todos aos quais quero pertencer são tão cheios de regras que ou me anulo, ou me isolo ou me anestesio.
Vivendo um momento de expansão – da consciência, de idéias, de oportunidades -, resolvi estudar a fundo o mercado de produtos vegetarianos e orgânicos. Especificamente, estava de olho em um produto bem específico – uma soja fermentada com um fungo criada na Indonésia e chamada tempeh. Conversei com pessoas adeptas do vegetarianismo, pesquisei e li muitos artigos e acabei assistindo a alguns filmes – filmes extremamente indigestos. De teorias sobre a correlação entre o pum dos bovinos e o efeito estufa a orfanato de franguinhos salvos do descarte, nada parecia me abalar. Tratava-se de uma curiosidade meramente científica. Até que, de repente, após uma dessas sessões aterrorizantes, cansei de ver tanta maldade cometida contra o mundo animal e tomei uma decisão: não como mais carne!
No entanto, resolvi não ser tão radical quanto os veganos, que nem cinto de couro usam. Pensei: não sejamos tão radicais, afinal, não moro isolado no alto de uma montanha. Na verdade, fazia alusão a um amigo de um amigo que acabou atuando como uma espécie de guru vegetariano e que, de fato, morava no alto de uma montanha longe da civilização e que se mostrava um vegano dos mais fervorosos. Eu era um cidadão do mundo, metido até o último fio de cabelo nos problemas de uma metrópole como São Paulo. Precisava me adaptar ao meio e, assim, decidi excluir os peixes de minha lista de amiguinhos protegidos de meu apetite insano. Na verdade, exclui os peixes e todos os demais seres viventes dos rios e mares – excetuando as focas, as baleias e as sereias, é claro. Em minha nova dieta, eram permitidos, portanto, camarão, lagosta, polvo, lula, robalo, atum, algas e até pepinos do mar, caso estes primitivos seres fossem comestíveis.
Vivi nessa espécie de lua-de-mel com o mundo natural por quase três meses. Durante esse tempo, transformei-me num pregador do ético e do saudável, usando meu próprio exemplo para mostrar a amigos e familiares o caminho para um mundo melhor.
Comecei essa jornada instantes depois de devorar um churrasco com amigos paulistas na sacada de um hotel em Natal, no Rio Grande do Norte. Só que, passada a ressaca da nababesca orgia gastronômica, voltei a sentir vontade do sensual jogo das preliminares e do sexo voraz com uma picanha sangrando. No entanto, resisti. Resisti a meus próprios sonhos libidinosos, às provocações de meus filhos, aos “perfumados” almoços com os amigos, à carne no prato do vizinho, que parecia sempre melhor do que meu “bife de soja”. Resisti porque a memória dos pobres animais sendo judiados ainda estava fresquinha, fresquinha. Só que o tempo passa, e a memória, ah, a memória…
Provei escondido uma carninha aqui, fiz um “sacrifício” por insistência de meus filhos e pronto, estabeleci uma nova regra: carne vermelha permitida um dia por semana! Como esse dia acabava calhando com o churrasco do sábado, natural foi ampliar o período para todo o fim de semana, pois sempre sobrava um pedaço de carne que precisava ser devorado no dia seguinte.
Um amigo me enviou um artigo revelador: “Flexotarianos”. Senti-me repentinamente liberto da culpa. Eu era um vegetariano flexível, um flexotariano, alguém que, de vez em quando, se permite comer a carne morta – os vegetarianos chamam a todo mundo que come carne de “devoradores de defuntos” – de uma vaquinha ou de um porquinho – ainda não voltei a comer carne de frango, alegando, para mim mesmo, o excesso de hormônios e antibióticos com que os bichinhos são criados.
O fato é que estou muito feliz comendo meu churrasco aos fins de semana e nem ouso uma reprise dos filmes que assisti sobre a produção industrial de carne animal. Temo que, à primeira imagem das atrocidades cometidas contra bichinhos, eu tenha uma recaída e me pegue chorando enquanto asso uma fraldinha.
Essa minha conturbada relação com a carne é só um exemplo do que acaba acontecendo em vários outros aspectos de meu viver. Falo de situações nas quais tenho claramente consciência de que, por algum motivo, estou errado, mas, mesmo assim, permaneço no erro. Depois de ver o que vi e tendo como base minhas crenças e meus valores, não faria mesmo mais sentido continuar comendo carne, mas foi o que acabei fazendo.
Eu desacelero o carro pouco antes de chegar à lombada eletrônica. Pronto, falei! Faço o mesmo nas estradas, baixando a velocidade do carro quando me aproximo de um radar. Se eu sei que excesso de velocidade aumenta as chances de acidente? É claro que sei! Como sempre soube que fumar era uma forma de me envenenar para valer desde o primeiro cigarro que coloquei na boca, o que, no entanto, não me impediu de repetir este gesto milhares e milhares de vezes pelos 13 anos seguintes.
A última é que agora também compro DVDs piratas – este, sim, um crime pesado, tanto é que, antes de começar o filme, costuma aparecer um comercial comparando o ato de comprar um DVD pirata com o de qualquer bandido barra pesada. E isso aparece no próprio DVD pirata, a exemplo daquelas imagens horrorosas estampadas nas embalagens de cigarro. Eu sei que o que estou fazendo é crime. Sei que quando como carne, fumo ou compro um DVD pirata, estou agindo, até, de forma contrária a meus princípios. E, mesmo assim, continuo fazendo.
Procuro não pensar muito nisso, e só pude escrever esse texto em um momento de dor de consciência, pois minha última dose de anestesia passou e resolvi adiar um pouco mais até ministrar a próxima.
Esqueçam a dor de parto ou a cólica renal – esta última, falo como vítima freqüente. Não há maior dor do que a da própria consciência. E, não bastasse nosso sofrimento, tem sempre alguém de fora à espreita de um deslize nosso, para… enfiar o dedo na ferida! Vejo estampado nos olhos de amigos, em letras garrafais: QUE DECEPÇÃO!
Em meu íntimo, lembro-me do título de um dos filmes veganos que assisti, enquanto sinto a anestesia salvadora escorrer pelas veias. “A Carne é Fraca”. Não me lembro mais da história, mas, definitivamente, me parece um bom nome para um filme.
Difícil ser humano, não?
Não sei o que é pior: ser humano ou aguentar essa arrogância de ser “fodão” em tudo o tempo todo…
No final, as doses cavalares de anestesia que nos aplicamos servem mais pra arrastar pra lá e pra cá essa arrogância do que pra aplacar nosso sentimento de pecadores, inclusive porque este sentimento inumano é cria dela!
Sabe qual tem sido a minha reza? Por favor, meu ego, me deixe em paz!!! Abraço.