Depois de ficar dois dias sentado na cadeira dura da arquibancada do ginásio onde meu filho mais velho jogou mais um campeonato de Badminton, acordei com uma forte dor na base da coluna. Não só isso, acordei com a coluna travada mesmo, como se alguém, durante meu sono, sorrateiramente, tivesse cimentado a base da coluna, que havia perdido completamente sua mobilidade.
Minha primeira reação foi de surpresa – já tive outras crises de dor na coluna, mas nada parecido com essa. Em seguida, me animei e pedi para minha esposa me ajudar em alguns exercícios de alongamento. No entanto, além de não fazer efeito algum, a idéia se mostrou ineficaz com a dor, que continuou aumentando. Como, no dia seguinte, eu já tinha marcada uma consulta com um ortopedista – com o objetivo de olhar um outro problema -, tomei um Dorflex e um antiinflamatório leve e resolvi esperar um pouco e ficar quieto em meu canto.
Dormi com certa dificuldade e, na manhã seguinte, acordei ainda mais travado e com mais dores. Fui ao médico logo após o almoço. Peguei um táxi, pois não havia como dirigir. Assim que o médico me examinou e viu o estado de rigidez de minha coluna, receitou uma injeção contra dor e um analgésico mais forte, à base de codeína, para ser tomado durante uma semana. Perguntei o que estava acontecendo e recebi como resposta que ele só poderia fazer um diagnóstico preciso na semana seguinte, quando eu realizaria uma ressonância magnética, mas que, pelo meu quadro, aparentemente, eu estava sofrendo de uma hérnia de disco.
“Hérnia de disco, hérnia de disco, hérnia de disco”. Fiquei com essa expressão na cabeça, como uma espécie de mantra. Saí do consultório e, logo que entrei no táxi, comentei com o motorista: “Estou com hérnia de disco.” No caminho, liguei para minha esposa: “Hérnia de disco”. Falei com o meu pai: “Hérnia de disco”. Cheguei em casa e encontrei meus filhos: “Hérnia de disco”.
A cada vez que pronunciava “hérnia de disco”, sentia que ela, a doença, ficava mais forte. Era como se, ao nomear minha dor, ela, de repente, ganhasse mais importância: “hérnia de disco”. Publiquei em minha página no Twitter: “hérnia de disco”. No Facebook: “hérnia de disco”.
De minha cama, onde fiquei durante dois dias e duas noites, seguindo recomendações médicas, recebi, em solidariedade à minha situação, telefonemas, e-mails, tweets e comentários de parentes, amigos e até de desconhecidos. Ao longo desse tempo, enquanto o descanso compulsório e a medicação iam aliviando as dores, tive tempo de sobra para atualizar leituras atrasadas e assistir a filmes que fazia tempo me aguardavam na prateleira de DVDs. Fui paparicado pela empregada, por minha esposa, meu pai, minha sogra e por meus filhos, que me ajudavam a levantar da cama em minhas idas ao banheiro e a trocar a bolsa de água quente colocada sobre as costas para aliviar a dor.
Hoje estou no quarto dia da crise e já posso sentar e andar com cuidado. A coluna continua dolorida e travada, me impedindo de dirigir e de fazer movimentos mais bruscos. No entanto, a doença, que já aceitei de imediato como “hérnia de disco”, não afetou minha mente e, mesmo que o analgésico me deixe um tanto sonolento, consigo refletir que vivi e ainda estou vivendo esse repentino incômodo físico como uma espécie de álibi para desacelerar meu ritmo e me fragilizar, transformando-me momentaneamente de cuidador/provedor em cuidado/provido. Isso talvez explique meu apego instantâneo à suspeita levantada pelo médico: “hérnia de disco” – expressão que venho repetindo a todos com os quais me relaciono desde então, recebendo em troca atenção e permissão para que eu me libere de qualquer pressão sobre o meu viver, seja produzida pelo outro, seja por mim mesmo.
Bonito e corajoso o q escreveu. O corpo dá sinais pequenos a todo o momento e, como nem sempre escutamos, os sinais vão sendo amplificados. Mas, mesmo assim, poucos conseguem compreender. Aceitar e denominar o que sentimos ajuda muito no processo de cura, de todos os males. Revaliar os papeis q desempenhamos na vida é uma necessidade contínua e necessária à nossa evolução.
Tava procurando um bom remédio justamente para aliviar as minhas dores de coluna. Achei o seu site. Só que, to rezando para que amanhã, no médico, eu não tenha a triste notícia de ser da sua tribo, dos portadores de Hérnia de disco. Que medo!
Figuinha!!!
Espero que a sua hérnia de disco não lhe doa demais e não lhe dê muito trabalho. Tenho esse problema. Foi diagnosticado há uns dois anos. É, deveras, complicado. Tomo cuidado quando agacho, quando sento, durmo só de lado e procuro não engordar. Como a minha vida é escrever não tenho como fugir de ficar muito tempo no computador. Nos últimos tempos, encontrei um “remédio maravilhoso”: colocar uma bolsinha de gel gelada nas costas. Dá para prendê-la na cinta e, se a gente usa paletó ou casaco, ninguém percebe. Bom, é isto. Abraços
Muito obrigado, José Augusto, pela preciosa dica. Minha hérnia de disco, tenho tratado com muito Pilates. E parece que tem surtido efeito, pois, desde a crise descrita aqui, nunca mais fiquei “travado”. Abs