Cada um tem a Torre de Babel que merece

segunda-feira, 14 dezembro 2009, 00:04 | | Nenhum comentário
Postado por Fábio Betti 

Ando preocupado com o que tenho visto e ouvido nas redes sociais das quais participo. Falo mais especificamente de Orkut, Facebook e Twitter, ambientes onde qualquer um pode, facilmente, criar seu próprio mundo. E de fato é o que parece ocorrer: Torres de Babel particulares, com pessoas falando para si mesmas, o poder atribuído aos mais “populares”, aos possuidores do maior “rebanho”, do maior número de seguidores. Um pequeno quadro de “famosos”, oriundos do mundo artístico, das colunas sociais, é cultuada como modelo, enquanto a imensa maioria se engalfinha numa luta de guerreiros sem rosto por seus ralos minutinhos de fama.

Segundo conta o Antigo Testamento, os descendentes de Noé resolveram construir uma torre na Babilônia tão alta que os elevaria aos céus para, assim, eternizar seus nomes. Tamanha falta de humildade teria desagradado Deus que, para castigá-los, confundiu-lhes as línguas e os espalhou por toda a Terra.

Acompanhando de perto o dia-a-dia de algumas redes sociais, sinto o renascer do mito da Torre de Babel, só que agora não há sequer consenso sobre o projeto da torre, como teria ocorrido com os descendentes de Noé. A soberba que desagradou Deus elevou-se à categoria do narcisismo. Em psicologia e psiquiatria, o narcisismo muito excessivo é o que dificulta o individuo a ter uma vida satisfatória, sendo reconhecido como um estado patológico denominado Transtorno de personalidade narcisista. Indivíduos com o transtorno julgam-se grandiosos e possuem necessidades de admiração e aprovação de outras pessoas em excesso.

Embora psiquiatras como Freud acreditassem que um certo nível de narcisismo pudesse ser saudável para equilibrar as necessidades de cada pessoa em relação às outras, seguramente, eles não se referiam ao que acontece quando alguém se inscreve em um site de “conquista de followers” ou negocia indicações com estranhos, para aumentar sua quantidade de seguidores no Twitter, a rede de microblogging que já se tornou uma frebre entre os brasileiros, a exemplo do Orkut.

Sobre essa compulsão pela popularidade, uma amiga trouxe um testemunho estarrecedor: “falei com aqueles que pareciam dizer alguma coisa, porque a maioria estava ali replicando robôs em busca de números que pudessem trazer-lhes, quem sabe num futuro próximo, a popularidade desejada. Sucedeu a esse sentimento uma irritação enorme ao perceber uma massa sem rumo e sem saber o que dizer. Falam, sem saber para quem e sem nenhuma preocupação nem com conteúdo nem com o público que os lê.”

Rosana Hermann, figura de relativa expressão na televisão, mas de enorme envergadura nas mídias digitais, dá a dimensão desse fenômeno quando escreve que o “Twitter não é apenas um antídoto contra solidão, é um poderoso atestado de que você existe.”

Tudo isso tem me provocado muitos questionamentos, incluindo, sobre meu próprio comportamento como participante ativo das redes sociais que observo. E aqui cabe um adendo: não quero nem posso fazer qualquer análise sobre esse fenômeno de maneira objetiva. Pelo contrário, sou também parte do problema e, como tal, também contribuo com minha parcela de narcisismo. E é a partir desse ponto que falo, como um observador de mim mesmo, de alguém que ingressou, por exemplo, no Twitter, seis meses atrás com a pergunta “para que serve esse negócio?” e, hoje, se fica um dia sem “twittar”, sente-se estranhamente incompleto.

Para poder falar sobre a compulsão pela popularidade, apliquei , como um desses cientistas lendários, o veneno em mim mesmo. Criei um outro perfil, alistei-me num desses sites de “conquista de followers” e, durante 24 horas, fiquei acionando o botão mágico, até que atingi 1.000 seguidores. Em outras palavras, senti na própria pele o que é viver nesse mundo e, mesmo tendo apenas minha própria experiência para trazer, creio que ela seja suficiente para poder, pelo menos, formular uma pergunta ainda sem resposta: o que está nos faltando na vida real que nos faz hoje tão dependentes da vida virtual? Ou: Por que precisamos de tanta gente para nos ouvir se, de fato, não estamos abertos ao diálogo?

Buscando a resposta, primeiro, em mim mesmo, percebo que meu mergulho em redes sociais está relacionado ao preenchimento de uma lacuna. Desde que passei a trabalhar sediado em minha casa, em agosto, ambientes como o Twitter, por exemplo, que permitem você construir sua própria rede de relacionamentos, me dão a sensação de que não estou sozinho em meu escritório doméstico. A qualquer momento, posso me sentir como parte de um grupo de pessoas que, aparentemente, se conversam, tendo a mim como elo de ligação.

Escrevi “aparentemente” de propósito, pois, na verdade, não acredito que elas realmente se conversam. Todas falam, é verdade, mas poucas se escutam. A maioria atua, no máximo, como voyeur dos monólogos ou diálogos alheios, como uma platéia ruidosa que finge para si mesma atuar, enquanto, de fato, apenas assiste.

E escrevi “elo de ligação” também propositalmente, porque esta sensação de criar seu próprio mundo, manipulando livremente suas redes de relacionamentos, tem o mesmo efeito de qualquer dessas drogas ilícitas: além da sensação de prazer resultante do poder criativo – sim, no sentido divino da palavra -, faz com que você acredite que a fantasia é tão concreta quanto a realidade. Aliás, sobre isso, gostaria de citar Humberto Maturana, biólogo chileno que vem sendo estudado por muitos teóricos da administração moderna por suas idéias a respeito de como os seres vivos e, em particular, os seres humanos aprendem. Segundo um trabalho que ele vem desenvolvendo há, pelo menos, uns 20 anos, nosso cérebro é incapaz de distinguir entre ilusão e realidade no momento em que vivemos uma determinada situação. Isso equivale a dizer que uma pessoa que está sozinha em sua casa ou em seu escritório, no momento em que passa a se corresponder com outras pessoas em uma rede social, tem a sensação real de que não está mais só.

E aí encerro esse post lembrando uma história que vivi em 1987. Prestes a me formar no curso de Jornalismo pela PUC de São Paulo, recebi a incumbência de meu professor de cobrir um sermão do mais popular tele-evangelista do mundo naquela oportunidade, o pastor Jimmy Swaggart. Naquela época, obviamente ainda não havia o Google, mas o nome Swaggart, além da popularidade religiosa, já era ligado a escândalos sexuais e sonegação de impostos. E lá fui eu ao estádio do Morumbi, com a incumbência de escrever uma matéria sobre o primeiro sermão ao vivo de Jimmy Swaggart no Brasil. O que aconteceu é que, apesar de chegar contaminado pelas informações negativas que eu havia pesquisado sobre o pastor e já intencionado a escrever uma matéria contrária a ele, após algumas horas ouvindo seu sermão e suas músicas, comecei a me identificar com os sentimentos que elas evocavam naquele momento, qual sejam: paz, união, fraternidade. Me vi, repentinamente, emocionado como as pessoas que estavam a minha volta e, antes que eu estivesse abraçado com elas, sai correndo. Inventei uma desculpa qualquer e não entreguei a matéria ao professor, pois se fosse fiel à experiência que vivi com o pastor, teria falado maravilhas sobre ele, o que, certamente, iria ferir minha alma de revolucionário. E se escrevesse a matéria a partir das histórias que li sobre o pastor, não teria sido fiel ao fato vivido.

Dilemas comuns como esse, talvez, estejam no cerne da explicação desse mundo criado em torno de Torres de Babel erigidas pelos novos narcisistas desse universo que, para o cérebro humano, não tem nada de virtual. Vivemos dilemas como problemas, só que a maior parte dos dilemas são paradoxos. Para problemas, existem soluções. Não há solução para paradoxos. Tudo o que podemos é conviver com eles ou sofrer por causa deles.

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