9 horas ou 43 anos, 8 meses, 23 dias e 18 horas

sábado, 19 dezembro 2009, 22:08 | | 2 comentários
Postado por Fábio Betti 

mandalaDesde agosto, mergulhei em um período que nomeei de “sabático”, de maneira a classificar um momento de minha vida no qual escolhi abrir mão de escolhas passadas e me permitir fazer novas escolhas. O curioso é que, apesar de a palavra sabático ter sua origem no “shabat” judaico, nome dado ao dia do descanso semanal no judaísmo, simbolizando o sétimo dia em Genêsis, após os seis dias de Criação, minha cabeça nunca trabalhou tanto, e o que compartilho aqui é o resultado de um dia de trabalho de diálogos reflexivos comigo mesmo e com outras pessoas que ocorreram na segunda semana do curso de formação em Biologia Cultural que estou fazendo. Você pode se perguntar: e eu com isso? Realmente, talvez você não tenha nada com isso. Talvez você nunca tenha ouvido falar em Biologia Cultural. Talvez você fuja de qualquer coisa que pareça uma “DR” – Discussão de Relação, para quem não está acostumado com a abreviação, mais comumente empregada pelas mulheres, acostumadas desde sempre com o viver nas redes de conversações. Mas a experiência tem me mostrado que, quando consigo escrever sobre angústias profundas de minha alma e, quando sou tomado por uma coragem que não parece ser minha de abrir mão do controle sobre a propriedade do texto e publicá-lo aqui, como que por milagre acabo estimulando a reflexão em outras pessoas. Às vezes, são inúmeras pessoas. Às vezes, é uma só. Como costumo falar para pessoas de meu círculo de relacionamentos mais próximo, não escrevo para ter público, escrevo para me ler melhor. Se você, no entanto, quiser me acompanhar nessa jornada, quem sabe você também possa se ver sob outra perspectiva, se abrir para experimentar novas lentes e, assim, enxergar facetas de si mesmo que não conseguia enxergar a partir de seus velhos óculos.

Não me proponho aqui a explicar o que é a Biologia Cultural, tampouco referenciar ou validar meu relato por meio de qualquer doutrina ou metodologia. É importante apenas esclarecer que a Biologia Cultural é uma perspectiva que nos convida a refletir sobre o modo como vivemos. E com essa perspectiva em mente, segui para mais um dia de meu curso na companhia de um amigo, que me deu carona. Para facilitar os diálogos em grupo, a sala é organizada em mesas com 5, 6 cadeiras. Como gosto de conhecer pessoas e idéias novas, adotei a prática de trocar de mesa diariamente. Nesse dia específico, minha intenção era sentar na mesma mesa de uma colega que registrava suas impressões sobre o curso por meio de mandalas.

“Mandala é a palavra sânscrita que significa círculo, uma representação geométrica da dinâmica relação entre o homem e o cosmo. De fato, toda mandala é a exposição plástica e visual do retorno à unidade pela delimitação de um espaço sagrado e atualização de um tempo divino.” (Essa explicação está lá na Wikipedia, portanto, se quiser saber mais, pergunte a ela!)

Vou repetir: minha colega registrava suas impressões por meio de mandalas, que ela mesma criava, ali ao vivo e em cores, sem qualquer régua ou recurso que não fossem suas canetinhas coloridas e, claro, ela mesma, ponto de partidal para o processo de refletir sobre seu próprio viver, afinal, estamos em um curso de Biologa Cultural! Então, nesse dia resolvi sentar-me ao lado dela, pois pensei: que interessante conhecer alguém que se expressa por meio de mandalas!

Então, escolhi uma mesa vazia para sentar e, assim que ela apareceu, com a candura das crianças, apontei o dedo para ela e disse: Você! Gostaria de convidá-la a sentar na minha mesa!

mandala2Senti que ela ficou um pouco surpresa com meu convite, tanto é que me perguntou se não precisava ficar com o mesmo grupo de pessoas do dia anterior. Disse a ela que não havia essa obrigatoriedade, e então ela foi até minha mesa e sentou-se em frente a mim.

Ao longo de toda manhã, enquanto eu fazia meus registros no computador, ela desenhava suas mandalas. De vez em quando, eu dava um jeito de observar seu processo criativo. Descobri, por exemplo, que ela começava por traçar um pequeno círculo, que era depois colorido e recebia pontos ao longo de sua circunferência: 8 pontos, 4 pontos. A partir destes pontos, ela desenhava, camada a camada, o que acabaria por se constituir numa mandala colorida e tão perfeita, que parecia ter sido desenhada em um computador – eu sei, falar isso é uma heresia, mas a referência do desenho simetricamente perfeito é, atualmente, do desenho manipulado pelo pensamento binário – e previsível! – do computador.

mandala3Foi assim que passei a manhã: entre meus registros no computador e o olhar sobre as mandalas criadas por minha nova amiga.

No período da tarde, uma outra colega nos propôs uma dinâmica de grupo, que consistia em uma espécie de dança espelhada numa forma circular, que, a mim, pareceu… uma mandala!

Depois de algumas explicações, fui convidado a iniciar essa atividade. Éramos mais ou menos umas 70 pessoas e eu havia sido escolhido para “dar o exemplo”. Pensei: uau, que responsabilidade! Cheio de coragem, iniciei a dinâmica, encontrando-me com o primeiro colega no círculo. Percebi que, de imediato, me conectei com uma qualidade de energia que eu conhecia e, portanto, sabia ser muito forte: a energia do amor. A cada encontro, essa energia parecia ficar mais forte.

Embora a descrição da experiência não seja a mesma coisa do que viver a experiência, sinto que preciso dar um pouco mais de detalhes a quem não participou dessa dinâmica – na verdade, trata-se de uma descrição que, mesmo para quem estava lá na sala, participando da mesma atividade, não tem como experimentar, pois foi uma experiência minha e, portanto, única.

Cada pessoa deveria, primeiro, aquecer suas mãos, friccionando uma na outra. Em seguida, fomos convidados a imaginar uma esfera de energia que se formava nesse processo e emergia entre as mãos. A atividade consistia em carregarmos nossa esfera de energia ao longo do círculo formado por pessoas, parando na frente de cada uma e, embalados por uma música, empreendermos uma espécie de dança, onde brincávamos com nossas esferas imaginárias. Bem, não sei se essa descrição ajudou, mas o fato é que levei a brincadeira a sério e senti, verdadeiramente, que consegui, nessa dinâmica, me encontrar com cada uma das pessoas que formavam aquele círculo, tanto é que, ao término da atividade, me senti de tal maneira energizado e poderoso que não tenho palavras que consigam explicar esse sentimento – quem sabe se minha amiga me ensinar a desenhar mandalas…

Com esse nível de energia, fui até minha mesa – onde estava a criadora de mandalas -, sentei-me confortavelmente em minha desconfortável cadeira, abri meu laptop e preparei-me para registrar as impressões do que iria ocorrer a partir daquele momento. Ximena D’Avila, parceira de Humberto Maturana na Biologia Cultural, iniciou sua explanação nos convidando a abandonar nossos computadores e cadernos para estarmos mais presentes à experiência que ela iria nos trazer. Nesse momento, dirigi-me ao amigo que estava ao lado, também com seu laptop aberto, e contei-lhe que eu não estava muito a fim de abrir mão desse recurso, e ele respondeu-me estar na mesma situação.

Passados alguns minutos, Ximena olhou diretamente para mim e, percebendo que fazia anotações em meu laptop, resolveu me usar como “exemplo”. Para justificar sua teoria de que computadores, cadernos e celulares dificultavam nosso estado de presença, senti-me utilizado como o exemplo negativo.

Como ocorre quando repentinamente nos assustamos com alguma coisa inesperada, fui arremessado de um estado de presença propiciado pela dinâmica da dança circular com a esfera de energia diretamente para a sala de aula de minha infância. A professora me pegou colando na prova! Eu que sou um aluno estudioso, fui pego em um dos poucos momentos de vacilo. Passei minutos, que pareceram intermináveis, em um diálogo interno que, na realidade, trazia o dilema expresso na pergunta: submeto-me ou não me submeto? Interrompi essa angústia fechando abruptamente meu laptop e jogando meu fone da tradução – embora entenda bem o espanhol, uso o recurso da tradução para descansar meus ouvidos de vez em quando – sobre a mesa, ao mesmo tempo em que expressava em alto e bom som, para que todos ouvissem: está bem, abandono tudo!

Muitos riram dessa minha atitude – seria ironia, graça, admiração, surpresa? -, porém, no fundo, eu estava com muita raiva. Tanto é que observei que, nesse momento, fiquei com os braços cruzados, numa atitude normalmente contrária ao que se poderia chamar de “abertura”. Mais tarde, quando refleti sobre o episódio, percebi que essa era uma forma de me vingar de Ximena. Se é para me submeter a sua vontade, que ela se sinta mal por isso! Olha só o que você fez comigo? Era isso que eu queria dizer a ela com minha postura.

No entanto – e aí não consigo encontrar uma explicação -, quando uma outra colega trouxe um relato sobre uma situação crítica que ela havia vivido algumas semanas atrás, vi-me novamente conectado com o que denomino “estado de presença”. Explico esse estado pelo que vivi nessa situação específica. Enquanto essa colega relembrava um assalto que ela viveu em sua casa, percebi que sua respiração se alterava, sua garganta ficava seca e seu corpo inteiro clamava por… água! Percebi isso em meu próprio corpo! Era como se eu estivesse sentindo o que ela estava sentindo. Imediatamente, sem pensar muito – só um ratito, como dizem os nativos de língua espanhola – fui até o fundo da sala, enchi um copo com água, aproximei-me dela e lhe disse: acho que você precisa de água. Ela me agradeceu, pegou o copo de água e… bebeu!

Depois, quando pude refletir sobre esses acontecimentos, embora ainda não conseguisse entender como sai de um estado onde não me senti amado – a “bronca” que levei por insistir em ficar com um computador ligado – para um estado real de presença, a ponto de sentir em meu próprio corpo a necessidade de uma pessoa que eu sequer havia trocado uma única palavra, entendi que podemos transitar entre um estado de dor e prazer assim, em um estalar de dedos, desde que não nos apeguemos ao passado, ou seja, desde que não fiquemos com os olhos voltados para trás. Se me senti não-amado porque Ximena mostrou a todos na sala que eu insistia em manter o computador ligado enquanto os demais aceitaram o convite de desligá-lo, como eu poderia me sentir totalmente conectado no minuto seguinte com uma pessoa que eu não tinha qualquer intimidade? Em outras palavras, como é possível migrar da dor para o prazer num estalar de dedos? Não sei responder essa pergunta, mas foi assim que senti o que vivi…

E, no momento de refletir sobre o que vivi nessas 9 horas do quarto dia da segunda semana do curso de Biologia Cultural, uma outra dor emergiu…

Eu estava vivendo no dia 17 de dezembro, mais ou menos, às 18h30. Nesse instante que já passou, surgiu em minha mente, de forma cristalina, como se estivesse ocorrendo naquele momento, um sentir que não parecia estar relacionado àquele momento específico. Esse sentir pode ser expresso pela afirmação: toda vez que fico em evidência – fui eu que comecei a dinâmica da dança circular das esferas de energia -, alguém (uma autoridade) me distingue e aponta seus dedos acusadores diretamente para minha sombra. “Você, que insiste em não desligar seu laptop…”

Meus pensamentos me dizem: toda vez que eu me sobressaio, fico tão visível, mas tão visível, que tanto minha luz quanto minha sombra ficam visíveis. Em outras palavras, quando me movo para o centro das atenções, me torno frágil, presa fácil para quem quiser desqualificar-me. E como desqualificar-me? Apontando o dedo para minhas imperfeições! “Você, que insiste em não desligar seu laptop…” A conclusão é simples: melhor não aparecer muito, melhor me apagar para não chamar muito a atenção, melhor dividir a responsabilidade de minha vida com outras pessoas, melhor entregar a chave da gaiola de ouro para o outro…

Sinto que não preciso dizer mais. Sinto que, verdadeiramente, partilhei uma experiência que vivi com muita fidelidade ao que, de fato, aconteceu. Sinto que revelei a ferida que foi tocada ao viver essa experiência. Sinto que, ao revelar minha ferida, me humanizo e, sobretudo, me liberto, liberto-me para fazer uma nova escolha.

Sinto esse processo como um convite, mas não como um convite para que outras pessoas façam o mesmo que fiz, que escancarem suas feridas para o mundo. Sinto que isso – expor minhas entranhas para estranhos – é algo meu. Não entendo por que faço isso, mas sinto que é isso o que tenho que fazer.

O convite que sinto nesse momento é um convite para quem, eventualmente, tiver a paciência de ler esse meu relato, que olhe para si mesmo, que se pergunte por que age (ou reage) da forma que age (ou reage) quando se sente responsável por suas escolhas, responsável por seu viver, responsável por seu destino, quando tem a oportunidade de escolher entre ficar com a posse da chave da gaiola de ouro – a gaiola das certezas, das verdades absolutas onde nos aprisionamos- , e com a chave em mãos escolher quando sair e quando voltar, ou entregar essa chave ao outro, a um pai, a uma mãe, a um chefe, a alguém que, como um guru ou um líder, se atribua a propriedade pela verdade, a verdade absoluta capaz de explicar tudo, inclusive, as coerências de seu viver num mundo que você mesmo – como eu – criou e do qual parece que se transformou em refém, prisioneiro de si mesmo.

* 43 anos, 8 meses, 23 dias e 18 horas era minha idade ao término do quarto dia da segunda semana de formação em Biologia Cultural. Adicione mais 4 horas e 20 minutos para saber meu tempo de vida quando terminei de escrever esse texto. Agora, qual será a minha idade quando você o ler, só mesmo você para saber. Se quiser me contar, deixei-o registrado em seu comentário.

Planeta Terra, às 22 horas do dia 17 de dezembro de 2009.

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