Por várias vezes, postei aqui textos que refletiam sobre separações. Separações entre pessoas que, um dia, se amaram e, de repente, se tornaram inimigas. Falei do ciclo da dor, que, invariavelmente, terminava por substituir o amor pela indiferença. Puni meus desafetos, associando-os à figura dos dementadores de Harry Potter.
O tempo passa e as feridas cicatrizam. Posso ficar olhando para elas e remoendo as dores que elas me causaram. No entanto, as feridas já se fecharam, e as dores não pertencem mais ao mundo dos vivos; são como fantasmas obedientes que surgem toda vez que eu os chamo. Basta eu me lembrar do que o outro fez contra mim, de como ele foi cruel, de como ele não me amou, é só culpá-lo pela minha infelicidade, e eis que as dores voltam, como se tudo estivesse acontecendo de novo. Mas aí dou um passo ao lado e observo a mim mesmo tentando trazer o passado de volta. Para entendê-lo? Não sinto que seja isso. Creio ser muito mais para não encarar meu medo de caminhar no incontrolável mundo do presente.
Como posso me aproximar do outro de novo depois de tudo o que ele me fez? Quem nunca se fez essa pergunta? Quem nunca escolheu apegar-se a seus pressupostos a encarar o incontrolável mundo do aqui e agora?
“Presente contínuo cambiente”. É assim que o biológo Humberto Maturana refere-se a esse momento que ele também denomina de “tempo 0”, esse espaço onde qualquer escolha pode ser feita, sem a mínima necessidade de estar relacionada a nenhuma decisão tomada no passado. Esse espaço também é o único tempo onde se vive o viver.
Também pude vivenciar esse tempo 0 quando chamei para uma conversa particular Ximena D’Avila, a parceira de Maturana no curso de Biologia Cultural que estou fazendo. Eu havia ficado chateado ao sentir que ela me usou como exemplo negativo em um momento do curso. Resolvi dizer a ela que eu não me senti escutado no momento em que isso aconteceu, mas que eu também me sentia grato pela profunda reflexão que se sucedeu a esse episódio. Ela me olhou fundo nos olhos e simplesmente falou: “Lo sinto!” Em seguida, me deu um daqueles abraços de mãe tão amorosos que não há como confundi-los. Vivi tão forte aquele abraço que, a partir daquele momento, passei a viver uma outra história. Como Charles Forster Kane abrindo mão de Rosebud, abrindo mão de seu desapego pelo passado, no filme Cidadão Kane, de Orson Welles.
Sem muita explicação ou preparação, resolvi experimentar esse espaço, viver o tempo 0. Escolhi uma hora quando estaria sozinho em minha chácara, peguei o telefone e liguei para aquele que foi meu maior amigo por anos a fio, parceiro no trabalho e na vida e com o qual havia tido uma discussão que nos levou a cortar nossas relações. Liguei não para resolver pendências passadas. Disse apenas que sentia muito sua falta e que, para mim, já não fazia o menor sentido estarmos brigados. Não fazia sentido porque rompemos por conflitos que vivemos em um espaço de tempo que já não existia mais. Agora estávamos vivendo um novo tempo, o tempo 0, onde podíamos, simplesmente, começar algo que desejamos, algo que nos trouxesse bem-estar. E o meu bem-estar era estar com ele como amigo, como irmão. Estar com ele sem a companhia dos erros que ambos cometemos nos acreditando certos na forma como cada um vivia o seu mundo. De repente, senti como se todos os erros estivessem perdoados naquele novo instante em que estávamos vivendo juntos, como se um presidente acabasse de baixar um decreto estabelecendo uma nova ordem, uma nova organização das coisas. Há uma história de fazeres e sentires que pertence ao que ocorreu antes deste decreto ser proclamado. E se estabelece uma nova ordem das coisas a partir do momento em que ele é assinado, assinado no tempo 0. Nessa nova ordem, eu escolho amar esse meu amigo, esse meu irmão.
Meu amigo pareceu comovido com meu contato. Mas sinto que, mesmo se ele não se mostrasse comovido, eu teria continuado nesse estranho estado, misto de uma alegria e um alívio profundos e o fluir leve das águias que planavam austeras sob minha cabeça enquanto o tempo se fazia concretamente presente a cada instante.
Planeta Terra, 9h do dia 20 de dezembro de 2009.
* No momento em que eu conversava com meu amigo ao telefone, a mim realmente pareceram águias quando observava o vôo imponente que faziam, revelando um visível determinismo estrutural, ao mesmo tempo em que não se moviam esbaforidas e cansadas. Pelo contrário, águias parecem sempre plainar na liberdade do fluir. Esta observação já surgiu a partir do momento em que abri mão do texto e passei a observar o observador operando como observador de seu viver. Porque, na hora em que vi as águias dançando no céu, neste instante que já morreu, eram águias que eu via. E quando eu voltava para tentar entender o que eu havia visto, quando conseguia me conectar ao sentimento que vivi neste momento, eu continuava vendo águias. Uma nova experiência, no entanto, me colocou no papel de refletir se o que vivi como uma percepção, trouxe a perspectiva de que a ave que pairava sobre mim também podia vir a ser um falcão, um gavião ou até mesmo um urubu. E, no entanto, mesmo quando me recordo do que vivi, vivi o viver de quem vê águias e não urubus. A mim, talvez fossem águias porque, ao ter perfeitamente harmonizadas as qualidades de seu determinismo biológico e sua confiança na entrega, me remetiam à aceitação da dualidade e da impermanência. (Nesse outro momento, em quem me motivava a observar o observador em seu ato de observar, nesse outro espaço no tempo, percebo que este novo observador também operava de um jeito particular, o que me levou a refletir sobre os infinitos mundos que podemos criar apenas ao refletir sobre como operamos nosso viver e como observamos a forma como operamos. E empreender esse caminho não no direção de “vigiar” ou de “controlar”, mas naturalmente de aprender novos significados, poder olhar com lentes diferentes, muitas lentes, sob infinitamente perspectivas, como vivemos o que vivemos a cada momento, no presente contínuo cambiante, eternamente vivendo no tempo 0. Quando penso nisso, sinto dentro de mim águias voando nos céus.